Khalid, rei da Arábia Saudita (1975-1982), sete anos de reinado à frente da Casa Real dos Saud.

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A Arábia dos irmãos Saud: em 57 anos, quatro reinados sucessivos

Abdul Aziz ibn Saud (1932-1953)

Saud Ibn Saud (1953 -1964)

Faiçal (1964-1975)

Khalid (1975-1982)

Fahd (1982-2005)

Abdullah (2005), o novo príncipe herdeiro

A encruzilhada de Fahd

O novo rei da Arábia Saudita herda uma dinastia forte mas dividida pelos dilemas entre o Islã e o século XX

Khalid (Riyadh, Al Rashid, 13 de fevereiro de 1913 – Taif, 13 de junho de 1982), rei da Arábia Saudita entre (25 de março de 1975 – 13 de junho de 1982), sete anos de reinado. Foi exatamente como o lendário Abdul Aziz ibn Saud planejara.

Abalada, na manhã de domingo, dia 13 de junho de 1982, com a morte de seu rei Khaled, que aos 69 anos de idade, sucumbiu por fim a um ataque cardíaco em seu palácio de verão em Taif. A Arábia Saudita não precisou de mais que algumas horas para confirmar o sucessor, fazer algumas trocas de sucessores e voltar à rotina.

Com uma tranquilidade de dar inveja à maioria de seus vizinhos árabes, a Casa Real dos Saud, perfeitamente sólida nesse seu 57.° ano de reinado ininterrupto e absoluto sobre a Arábia Saudita, simplesmente confirmou o irmão de Khalid bin Abdul Aziz, o príncipe herdeiro Fahd ibn Abdul Aziz, como novo rei – da mesma maneira como Khalid havia sido confirmado em 1975, quando morreu outro irmão, o rei Faiçal.

Nesta roda imutável em que os irmãos mais moços vão sucedendo os mais velhos, a dinastia fundada pelo pai de todos eles, Abdul Aziz ibn Saud, vai acertando automaticamente suas engrenagens.

O terceiro homem na hierarquia, o austero príncipe Abdullah, comandante da Guarda Nacional, subiu para segundo e passou a ser o novo príncipe herdeiro. Para seu antigo posto, emerge o príncipe Sultan, comandante das Forças Armadas do país.

Antes que a noite descesse sobre o modesto cemitério de Al-Oud, em Riad, onde Khalid bin Abdul Aziz fora sepultado, e uma fileira de príncipes, emires e outros potentados chegassem das vizinhanças para os votos de lealdade ao novo rei Fahd, sabia-se também que esses dois simples movimentos encerravam o episódio: não haveria qualquer outra mudança nos planos nacionais ou na composição do governo, onde se mesclam alguns dos 3 000 príncipes da família e uns tecnocratas. Estava decidido, também, que o mais importante e conhecido destes, o xeque Ahmed Zaqui Yamani, manterá as rédeas do petróleo e da moderada política de preços que, para sorte do Ocidente, os sauditas vêm impondo ao mercado mundial nos últimos anos.

REDE DE PARENTES – “Queremos que o preço do petróleo continue sendo governado pelo racionalismo”, decidiu Fahd em uma de suas primeiras declarações reais. “A economia global”, completou, “é uma rede de interesses interdependentes.” Os tempos parecem mostrar, assim, que o reverenciado fundador da dinastia e do próprio país, Abdul Aziz ibn Saud, acertou em cheio em seus planos de fundar uma nação mesclando suas duas grandes paixões, a política e as mulheres. Com a ajuda de uma figura tão lendária quanto ele próprio, o oficial inglês que acabaria imortalizado como Lawrence da Arábia, e um pequeno exército que o seguiu em lombo de camelo pelos infindáveis desertos da península arábica nos primeiros vinte anos do século, Abdul Aziz valeu-se de doses iguais de diplomacia e terror para unificar as dispersas tribos beduínas perdidas nas areias entre o Kuwait e Aden – e até então submetidas, pelo menos teoricamente, ao jugo dos turcos e seu Império Otomano. Pelo caminho, que se encerrou quando conquistou Riad em 1925, tomou como esposas as mulheres dos rivais derrotados – ajudando, com isso, a garantir a unidade do país.

Abdul Aziz plantou assim, num deserto pobre onde o petróleo era ainda desconhecido, uma fértil rede de parentes que começava com seus 43 filhos – concebidos por dezessete mulheres – e que, descendo por irmãos e sobrinhos, atingiu a soma de 10 000 cortesãos. Progressivamente eles foram sendo distribuídos em postos de mando administrativo ou militar nas poucas e distantes cidades dessa deserta e milionária nação de apenas 9 mulhões de habitantes. No topo do sistema, incrustou uma norma que, pelo menos formalmente, tem sobrevivido intacta desde então: ao contrário de tantas outras dinastias da História, o sistema de sucessão seria de um irmão para outro, e não de pai para filho. Assim, até aqui seus quatro sucessores – Saud, Faiçal, Khaled e agora Fahd – têm sido sempre meio-irmãos, respectivos primogênitos dos primeiros quatro casamentos de Abdul Aziz. O atual príncipe herdeiro, Abdullah, é igualmente primogênito da quinta esposa.

MAIS OCIDENTAL – Tal normalidade, contudo, só aparece no topo. Por trás desses revezamentos e aguçada pelos profundos conflitos que há uma década fraturam as inquietas nações do mundo islâmico, também a imensa família dos Saud se debate entre Maomé e o século XX, entre o rigor das tradições religiosas e a urgência de assimilar modernas tecnologias que lhe permitam sobreviver politicamente.

É explicável, assim, que a política interna da Arábia seja marcada pelo constante pêndulo, no poder, entre o tradicionalismo e a modernização. O atual rei Fahd, que virtualmente manipulou durante o reinado de Khalid os cordões do poder, é um modernista abertamente pró-americano. Quando sobreveio a opulência nacional, com a explosão dos preços do petróleo e a transformação da Arábia Saudita numa superpotência financeira, ele construiu no Ocidente uma imagem de nababo, cercado de mulheres em iates fantásticos. Mesmo tendo, como o antigo rei, alguns problemas de saúde – sofre de diabete. Empenhou-se, no passado em quebrar o cassino de monte Carlo – onde, teria perdido certa vez 6 milhões de dólares em uma só noite. Essa imagem começou a diluir-se, porém, com o gradual envolvimento de Fahd nos problemas do governo de Khalid bin Abdul Aziz. Como primeiro-ministro de um rei de frágil saúde, e cujas preferências pessoais eram as caçadas com velhos amigos beduínos e sua coleção de falcões, Fahd habituou-se às viagens oficiais, à condução de generosos planos quinquenais – e hoje a antiga imagem é uma lembrança do passado.

Abdullah, o novo herdeiro, deve representar depois de Fahd outra guinada conservadora: austero defensor das tradições e do Corão, ele desconfia da excessiva dependência que a Arábia Saudita possa ter de nações cuja prioridade não seja morrer por Alá. Esse vaivém entre presente e passado, numa corte em que muitos príncipes já se habituaram a alugar seu prestígio a grandes empresas ocidentais ansiosas por monumentais encomendas do governo, não é novo. Ele já tomava corpo nos anos 50, quando um antigo conselheiro do velho Abdul Aziz ibn Saud – Harry St. John Philby, pai do célebre espião comunista Kim Philby – foi expulso do país por ter denunciado a corrupção no governo do então rei Saud. Philby, uma das primeiras pessoas influente a negociar em 1947 a entrada na Arábia de empresas estrangeiras, perdeu então casa, bens e prestígio e desaparecu no anonimato de Beirute, como modesto exilado.

Mas as observações de Philby haviam sido cuidadosamente anotadas pelo príncipe herdeiro da época, Faiçal, que ocupava o cargo de primeiro-ministro. Faiçal encabeçou um movimento contra os desmandos do irmão Saud e acabou por depô-lo em 1964. Levado ao aeroporto por um grupo de príncipes que o despediram carregado de solenes elogios, Saud rumou para um duro exílio por cidades da Europa. Saud nascido em 12 de janeiro de 1902, morreu cinco anos depois, em 23 de fevereiro de 1969, em Atenas. A partir de sua ascensão e até ser assassinado onze anos depois por um sobrinho fanático, Faiçal moldou a Arábia Saudita à sua feição pessoal. Abarrotou os cofres reais com a nacionalização da produção de petróleo e, depois, comandando a explosão mundial dos preços do produto, erigiu uma política externa na qual Israel e o comunismo despontam como inimigos vitais. Modernista à sua maneira, mandou estudantes para a Europa e Estados Unidos, abriu as escolas religiosas para as mulheres e introduziu a televisão no país. Os inevitáveis conflitos, na esteira de tão rápidas mudanças, não o assustavam. “Seguimos o Corão”, dizia Faiçal. “Não precisamos de capitalismo, comunismo ou outras ideologias.”

60 000 DÓLARES MENSAIS – O desaparecimento de Faiçal já encontrou a Arábia Saudita profundamente dividida entre Alá e os petrodólares. Ganhando comissões milionárias, que passavam de dezenas de milhões de dólares, empresários sauditas como Adnan Khashoggi abriam as portas do país para a Lockheed, a Rolls-Royce, a Fiat, a Marconi e outras multinacionais.

Desolados com o modesto soldo de 60 000 dólares mensais que os cofres reais lhes destinavam, muitos príncipes começaram a empenhar-se na intermediação de encomendas ocidentais. A Lockheed montou a maior parte da Força Aérea do país, a Boeing vendeu jatos particulares – o xeque Yamani teve dois deles, e o próprio rei Khaled tinha o único Jumbo particular do mundo. Apesar dessas rápidas e fundas modificações na vida do país, a troca de Faiçal por Khalid bin Abdul Aziz em 1975 foi igualmente rápida e tranquila – embora já crescesse, no horizonte, o espectro de seu meio-irmão Fahd, mais ativo e competente e, afinal, o verdadeiro governante de seu reinado.

Khalid, que além de sérios problemas cardíacos, mandou pelo menos o suficiente para manter o controle da Arábia Saudita. Mas era inevitável, com muitas funções acumuladas nas mãos de Fahd, que aumentasse o prestígio do chamado clã al-Sudeiri, ao qual ele pertence. Para o resto da casa dos Saud, por exemplo, é suspeita a decisão de promover outro membro desse clã, o príncipe Sultan, ao terceiro grau da hierarquia.

CONTRA SCHLESINGER – Nesse quadro, a presença de Abdullah chega a ser um dado estranho. Ele tem o apoio de outros grupos do clã Saud, ressentidos com o exagerado poder de que desfrutam os al-Sudeiri. Mais que isso, Abdullah tem sob seu controle desde 1963 a Guarda Nacional do país, que controla os serviços de segurança interna, protege os campos de petróleo e toda a rede de comunicações. Ao crescer para 30 000 homens, disciplinados e fiéis ao rigoroso comandante, a Guarda tornou-se um deliberado contrapeso, na política oficial, às Forças Armadas, comandadas justamente pelo sucessor designado de Abdullah, o príncipe Sultan. Cioso do apoio que lhe dão os beduínos, Abdullah é o mais antiamericano dos grandes nomes da Casa Real. Suas distâncias em relação aos Estados Unidos começaram a ser notadas a partir de 1976, quando criticou asperamente o então secretário da Defesa americano James Schlesinger, que advertia os sauditas contra qualquer plano de boicote petrolífero ao Ocidente. De lá para cá, não mudou suas posições.

Essas divisões foram acompanhadas, nos últimos anos, por brutais sacolejos na outrora monótona vida saudita. Em 1978, um grupo de fanáticos organizou um sofisticado golpe e tomou a Grande Mesquita de Meca, o mais sagrado dos santuários do Islã, e o Exército demorou duas semanas para desalojá-lo. Na mesma época, uma revolta de xiitas no extremo noroeste do país veio dar preocupações adicionais à dinastia saudita – que se ampliaram, por sua vez, a partir do momento, em dezembro de 1979, em que o vizinho Afeganistão foi dominado pelas tropas soviéticas.

A própria Casa Real dos Saud soube que nem os mais modernos sistemas de defesa, comprados nos mercados americanos, bastavam para defender um país que não pode ter exércitos – já que de seus 9 milhões de habitantes perto de 2 milhões são estrangeiros trazidos para trabalhar, a maior parte deles iemenitas, e apenas 1 milhão de sauditas são homens adultos. Esse problema é tanto mais grave a partir do momento em que, pela força de sua incalculável potência financeira, a Arábia Saudita é o país islamita cuja sorte mais afeta as potências industriais do Ocidente.

Sua importância não é menor junto aos 900 milhões de fiéis muçulmanos de todo o mundo, para os quais as cidades santas como Meca e Medina representam as sedes mundiais de sua fé. Assim, mesmo que a abertura para os Estados Unidos do novo rei saudita se torne agora mais acentuada, é difícil imaginar que ela traga sérias mudanças nos valores culturais e religiosos do país. “O Islã”, dizia o velho Muhammad, segundo na linhagem do patriarca Abdul Aziz ibn Saud, mas que em 1963 renunciou ao direito de governar, “não é um país. Ele é uma ideia.”
(Fonte: Veja, 23 de junho de 1982 – Edição n.° 720 – Especial – Pág; 76/78 – Datas – Pág; 126)

Abdul Aziz ibn Saud (Riad, 24 de novembro de 1880 – Taif, 9 de novembro de 1953), fundou a dinastia. Primeiro rei da Arábia Saudita, de 1932 a 1953.

Ibn Saud, como era mais conhecido, foi o fundador e primeiro rei da Arábia Saudita. Na infância e juventude, viveu exilado no Iraque com a família, que era natural da cidade de Riad, em Nejd, região central do atual reino saudita. Seus parentes eram integrados ao movimento islâmico ultraortodoxo vaabita, contrário a todas as alterações à doutrina do Islã ocorridas a partir do ano 950 d.C. Em 1902, com um pequeno grupo de familiares e partidários, Ibn Saud deu início à retomada do poder em Riad e, em 1912, consolidou a restauração do Estado vaabita em Nejd.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os britânicos se esforçaram para obter sua simpatia, mas também favoreciam seu rival Husain Ibn Ali, que governava a região de Hejaz, onde ficam as duas principais cidades sagradas islâmicas, Medina e Meca. Husain Ibn Ali combateu os turcos do império otomano, inimigos da Inglaterra, e, ao vencê-los, proclamou-se rei de Hejaz. Contudo, ao perder o apoio inglês, terminou sendo derrotado em 1925 por Ibn Saud, que unificou as regiões anexando as cidades santas do Islão: Meca, em 1924; Medina, em 1925; e Gidá, em 1926.

Como rei de Nayd e de Hedjaz, em 1932, mudou o nome do reino para Arábia Saudita. A exploração das riquezas petrolíferas do país, iniciada por algumas companhias norte-americanas em 1933, transformou-o no governante mais rico do Oriente Médio, convertendo-o ainda no mediador dos interesses dos Estados Unidos no âmbito dos países árabes. Ibn Saud manteve-se neutro durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e no decurso do primeiro conflito árabe-israelense, deflagrado após a fundação do Estado de Israel, em 1948.
Com os recursos financeiros provenientes de uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, o rei promoveu a modernização da Arábia Saudita, apesar da maior parte das riquezas ter permanecido nas mãos da família real. Durante o tempo em que modernizou a infra-estrutura do país, Ibn Saud foi pai de 50 filhos e manteve um sistema político feudal, que mais tarde seria parcialmente reformado pelos filhos que o sucederam no trono saudita: Saud Ibn Saud (1953 -1964), Faiçal (1964-1975), Khalid (1975-1982), Fahd (1982-2005) e Abdulah (desde 2005 até os dias atuais).
(Fonte: Veja, 23 de junho de 1982 – Edição n.° 720 – Especial – Pág; 76/78 – Datas – Pág; 126)
(Fonte: www.klickeducacao.com.br)

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