José Álvaro Moisés, cientista político e professor da USP, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), foi o primeiro coordenador da Área Temática de Cultura Política e Democracia da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP)

0
Powered by Rock Convert

José Álvaro Moisés, cientista político e um dos fundadores do PT

Referência na Ciência Política, professor

José Álvaro Moisés foi um dos fundadores do PT. (Foto: FELIPE RAU/ESTADÃO / Estadão)

 

 

José Álvaro Moisés (nasceu em 4 de setembro de 1945 – faleceu em 13 de fevereiro de 2026 na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo), cientista político e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT).

Professor titular de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (Universidade de São Paulo), nascido em 4 de setembro de 1945, Moisés foi uma figura central na internacionalização da pesquisa brasileira.

Ele representou o Brasil em fóruns globais de prestígio, servindo no Comitê Executivo da Associação Internacional de Ciência Política (IPSA) entre 2011 e 2015, e no Conselho Internacional de Ciências Sociais (ISSC) de 2013 a 2016.

Um dos fundadores do PT

O acadêmico embora tenha sido um dos principais intelectuais envolvidos na fundação do PT, o cientista político e professor da USP tornou-se crítico da sigla nos últimos anos – e chegou a dizer, em 2010, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia “passado dos limites.”

Além de sua produção teórica sobre cultura política e a qualidade da democracia, o professor teve um papel administrativo e de liderança fundamental na Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP). Foi ele o primeiro coordenador da Área Temática de Cultura Política e Democracia da instituição, cargo que ocupou de 2006 a 2012.

O grande amigo

A trajetória intelectual de Moisés é inseparável dos caminhos trilhados por seu grande amigo: o sociólogo Francisco Weffort, de quem foi colega na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP). Weffort morreu em 2021.

Seus estudos sobre o novo sindicalismo se ligavam aos de Weffort sobre emergências das massas urbanas e o populismo na política nacional. O destino dos dois esteve ligado não apenas na academia, mas também quando ambos decidiram participar da fundação do PT ao lado de intelectuais como Antônio Cândido e Sérgio Buarque de Holanda.

Weffort e Moisés militavam no diretório de base de Pinheiros. Enquanto o amigo chegou à secretária-geral do PT, Moisés fez parte da direção estadual da sigla. “Tivemos uma convivência muito salutar no período de formação do partido”, afirmou José Genoino, ex-presidente do PT.

Na época, Genoino estava à esquerda do partido e Weffort e Moisés participavam do grupo majoritário da sigla, a Articulação. Em 1994, com a vitória de Fernando Henrique Cardoso, Weffort e Moisés decidem apoiar o governo do amigo sociólogo. O primeiro foi nomeado ministro da Cultura, de quem Moisés foi secretário executivo.

“A saída do Zé Álvaro do partido foi muito civilizada. Ele e o Weffort se afastaram de forma respeitosa quando decidiram apoiar o governo FHC. E sempre trataram o partido com muito respeito”, afirmou Genoino. Para ele, a trajetória de Moisés foi marcada pelo comprometimento com a democracia.

Crise da democracia: a última parceria

Em 2020, Moisés publicou seu último livro em parceria com Weffort: Crise da democracia representativa e o neopopulismo no Brasil. A edição unia dois temas que dominaram a obra dos dois autores: o populismo para Weffort e a crise das instituições democrática para Moisés.

Este via a democracia do “período pós-autoritário na berlinda” e tratava das raízes profundas do populismo no país. Moisés reconhecia que um novo ciclo político do País se iniciara em 2018, que ainda era impossível conhecer seus desdobramentos e concluía que os órgãos de controle – os freios e contrapesos da República – funcionavam com quem não tinha a radicalidade suficiente para solapar as instituições. Para ele, quanto mais radical o governante, menor a efetividade desses órgãos.

 

Os cientistas políticos Francisco Weffort e José Álvaro Moisés, autores do livro 'Crise da Democracia Representativa e Neopopulismo no Brasil'. Foto: Tiago Queiroz e Marcio Fernandes/Estadão / Estadão

Os cientistas políticos Francisco Weffort e José Álvaro Moisés, autores do livro ‘Crise da Democracia Representativa e Neopopulismo no Brasil’. (Foto: Tiago Queiroz e Marcio Fernandes/Estadão / Estadão)

 

Eis por que naquele que talvez seja seu testamento político, Moisés defendesse que o Brasil precisava de uma reforma de seu sistema político e examinar seriamente a possibilidade de se adotar o semipresidencialismo como forma de retirar a democracia brasileira da berlinda. O fim do governo de Jair Bolsonaro não afastou a democracia brasileira de sua crise, apenas mudou o endereço dela na Praça dos Três Poderes.

Em 2023, durante entrevista concedida ao Estadão, Moisés apontou que o PT “tinha um vício de achar que, se o protesto era feito por ele, era legítimo, mas se o protesto era contra, era ilegítimo”. Fez questão ainda de ressaltar que a omissão das forças democráticas ao mal-estar em relação ao funcionamento do sistema político abriu espaço para a direita e outros segmentos conservadores assumirem o protagonismo nas manifestações ocorridas dez anos antes, em 2013.

José Moisés morreu na sexta-feira (13), aos 81 anos.

Moisés foi vítima de afogamento na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo.

De acordo com Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), o acadêmico foi encontrado inconsciente na faixa de areia. As equipes de resgate chegaram a tentar manobras de reanimação ainda na praia.

O PT manifestou publicamente seu pesar pelo falecimento do cientista político. Em nota, a legenda destacou não apenas a estatura acadêmica de Moisés, mas também sua ligação histórica com a sigla.

O comunicado ressalta que a trajetória do intelectual foi marcada pelo “compromisso com o estudo das instituições democráticas e pelo acompanhamento atento da vida política nacional”, consolidando a Ciência Política como um campo de reflexão crítica no Brasil.

O partido enfatizou ainda a postura dialógica do professor ao longo das décadas: “Moisés sempre se colocou no campo do debate democrático, contribuindo para o pluralismo de ideias que fortalece a sociedade brasileira. Neste momento de pesar, o PT se solidariza com familiares, amigos, colegas da Universidade de São Paulo e com toda a comunidade acadêmica.”

USP e ABCP lamentam morte do acadêmico

O ex-ministro José Dirceu destacou a longa história que compartilhou com Moisés e a parceria dele com Weffort. “Estiveram juntos por oito anos no governo FHC e mantiveram uma parceria acadêmica e teórica muito importante. Convivi com os dois”, disse ao Estadão.

Em um depoimento que mesclou o pessoal e o político, relembrou os primeiros passos da organização partidária no Brasil após a ditadura, com estruturação do PT em São Paulo. “Quando fundamos o PT, optei por ficar no diretório estadual. Ele (Moisés) fez parte da primeira executiva do PT paulista, ao lado de outros intelectuais, como Éder Sader e Marco Aurélio Garcia”

E destacou que as divergências com Moisés na época do mensalão não o impedem de lamentar a morte do cientista político. “Fiquei muito impactado pela notícia. Ainda mais como a morte ocorreu, em um lugar que ele (Moisés) amava tanto. Nossas divergências são menores diante de sua trajetória de defesa da democracia e da justiça social.”

Em nota, a Fundação FHC manifestou “profundo pesar”. “Como intelectual público, Moisés contribuiu de maneira expressiva com a redemocratização do país. Junto com Francisco Weffort, ambos fundadores do PT, foi voz ativa entre os intelectuais de esquerda que fizeram a crítica ao marxismo-leninismo e a defesa da democracia como valor universal.”

O texto lembra outro fato importante para a compreensão da trajetória de Moisés. “Aluno do presidente Fernando Henrique Cardoso, participou do seu governo em posições de destaque no Ministério da Cultura, empenhado sempre em democratizar a produção e o acesso a bens culturais.”

E conclui afirmando que “ao longo das duas últimas décadas, sua produção acadêmica e atuação pública se voltaram ao desafio de melhorar a qualidade da democracia brasileira. Quando a viu ameaçada, em anos recentes, não hesitou em tomar posição. Fará falta ao Brasil.”

Em nota oficial, o chefe do Departamento de Ciência Política da USP, Rafael Duarte Villa, rendeu homenagens ao colega, ressaltando sua energia incansável:

“Moisés, como lhe conhecíamos, mantinha uma atividade intelectual prolixa e engajada […]. Era um apaixonado da democracia brasileira, à qual dedicou todas suas reflexões e esforço intelectual nas últimas três décadas. Deixa um vácuo pessoal, intelectual e institucional difícil de preencher.”

Villa fez questão ainda de salientar que Moisés se formou em 1970, nas primeiras turmas do curso de graduação em Ciências Sociais pela USP. O acadêmico realizou mestrado em Política e Governo pela Universidade de Essex e retornou à USP para obter seu doutorado, justamente sob orientação do professor Francisco Weffort.

Por meio das redes sociais, a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) também lamentou a morte de Moisés. “Sua trajetória acadêmica, marcada pelo rigor intelectual e pelo compromisso com a vida pública, deixa um legado incontornável para a área e para gerações de pesquisadoras e pesquisadores.”

Ainda de acordo com a ABCP, Moisés foi uma figura central na internacionalização da pesquisa brasileira. Ele representou o Brasil em fóruns globais de prestígio, servindo no Comitê Executivo da Associação Internacional de Ciência Política (IPSA) entre 2011 e 2015, e no Conselho Internacional de Ciências Sociais (ISSC) de 2013 a 2016.

Além de sua produção teórica sobre cultura política e a qualidade da democracia, o professor teve um papel administrativo e de liderança fundamental na ABCP. Foi ele o primeiro coordenador da Área Temática de Cultura Política e Democracia da instituição, cargo que ocupou de 2006 a 2012.

Mortes por afogamento no litoral
De acordo com o Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), pelo menos 30 pessoas morreram no litoral paulista por afogamento desde o início da temporada de verão, em dezembro.

Diante da gravidade dos números, o GBMar intensificou as orientações aos banhistas, especialmente durante o Carnaval, reforçando que a prudência é a única forma de evitar novas tragédias. Em nota, a corporação destacou as medidas essenciais de segurança:

“É fundamental respeitar a sinalização de segurança, as orientações dos guarda-vidas e evitar o banho de mar em condições adversas, bem como após o consumo de bebidas alcoólicas.”

As autoridades recomendam que os turistas busquem sempre áreas monitoradas por postos de salvamento e fiquem atentos às bandeiras vermelhas, que indicam correntes de retorno e perigo imediato.

ABCP lamenta morte do acadêmico

Por meio das redes sociais, a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) lamentou a morte de Moisés. “Sua trajetória acadêmica, marcada pelo rigor intelectual e pelo compromisso com a vida pública, deixa um legado incontornável para a área e para gerações de pesquisadoras e pesquisadores.”

(Direitos autorais reservados: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica – Estadão conteúdo/ NOTÍCIAS/ BRASIL/ POLÍTICA/ Por: Marcus Celestino – 14 fev 2026)

(Direitos autorais reservados: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica – Estadão conteúdo/ NOTÍCIAS/ BRASIL/ POLÍTICA/ Por: Marcus Celestino e Marcelo Godoy – 14 fev 2026)

Powered by Rock Convert
Share.