Dom Hélder Pessoa Câmara, religioso, integralista na juventude, fundador da CNBB e voz ativa contra o regime militar, arcebispo de Olinda e Recife
O arcebispo de Olinda e Recife foi o símbolo de uma Igreja comprometida com a justiça social e os direitos humanos.
Ele nasceu em Fortaleza, em 1909. Foi o 11.º filho da professora primária Adelaide Pessoa Câmara e do jornalista maçom João Câmara Filho. Aos 14 anos, entrou para o Seminário da Prainha de São José, e aos 22 foi ordenado sacerdote. Por um período, pertenceu ao movimento integralista, de inspiração fascista, atitude condenada por ele mesmo anos mais tarde. Começou a desenvolver ações para atender comunidades carentes e oprimidas ao se mudar para o Rio de Janeiro, aos 29 anos de idade. Em 1952, aos 43 anos, foi eleito o primeiro secretário-geral da CNBB.
Durante o regime militar, dom Hélder sofreu represálias por suas críticas ao regime, chegando a perder seu assessor direto, padre Henrique Pereira Neto, assassinado em 1969. Um exemplo de sua resistência foi na tentativa de prisão do padre Reginaldo Veloso, no final dos anos 60. “Dom Hélder e dom Lamartine disseram ao delegado que eu só ia preso se levassem nós três”, conta o padre. A prisão não aconteceu.
Entre 1970 e 1977, a censura militar proibiu até mesmo a citação do nome do arcebispo nos meios de comunicação. Fundador das chamadas Comunidades Eclesiais de Base, ele foi uma das vozes mais ativas contra a tortura e o desaparecimento de presos políticos. “Ele foi uma referência na resistência à ditadura militar”, explica a deputada federal Luíza Erundina (PSB). A atuação lhe valeu a pecha de “arcebispo vermelho” pelos militares e uma indicação para o Prêmio Nobel da Paz, em 1970.
Nunca ganhou o prêmio, talvez por ter sido sabotado por uma campanha secreta do governo do general Emílio Médici, contrário à indicação do arcebispo. No entanto, ganhou 25 prêmios internacionais, 32 títulos de doutor honoris causa e 30 de cidadão de vários municípios, dos mais diversos países. “Sua voz foi ouvida em quase todo o mundo”, avalia o vice-presidente Marco Maciel. Em 1985, aos 75 anos, aposentou-se por limite de idade. Seu engajamento na chamada “Igreja progressista” desagradava ao Vaticano, o que impediu que ele fosse elevado à condição de cardeal.
Apesar de ser um homem simples, morar sem nenhum luxo e comer pouco, ele não resistia a doces, como o chamado “nego-bom”. Sempre caminhava, até mesmo longas distâncias. Ler e escrever eram outras de suas paixões. Escreveu 23 livros, traduzidos para 14 idiomas, além de 7.547 meditações, resultado de suas orações diárias durante a madrugada. Dom Hélder acordava diariamente às 2h e rezava até as 4h, mesmo quando estava doente. Até o fim, insistiu em celebrar a missa todos os dias.
“O Brasil sentirá sua falta”, disse o presidente Fernando Henrique Cardoso em nota oficial. “Ele foi um dos personagens mais valiosos para a história recente do Brasil e da Igreja”, afirmou o bispo dom Ivo Lorscheiter, ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, entidade fundada por dom Hélder em 1952.
Ao velório compareceram o vice-presidente, Marco Maciel, o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, e o prefeito de Recife, Roberto Magalhães, além de centenas de fiéis, que acompanharam o enterro por meio de um telão.
(Fonte: http://www.terra.com.br/istoegente/05/tributo – Edição 05 – TRIBUTO – 6 de setembro de 1999)

