Cecília Meireles (Tijuca, 7 de novembro de 1901 – Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964), poeta e educadora de extenso legado literário. De sucesso contínuo de obras como Viagem, Romanceiro da Inconfidência e o livro infantil Ou Isto ou Aquilo. Apesar do fato de ela nunca ter feito parte da vertente mais barulhenta do modernismo, aquela inaugurada em 1922 e capitaneada por Mário e Oswald de Andrade.
Nascida em 1901, Cecília estreou na poesia em 1919 com Espectros. Nessa primeira fase, ela estava bastante próxima do grupo da revista Festa, encabeçado pelos poetas Tasso da Silveira e Murilo Araújo.
Os adversários do grupo o qualificavam de passadista. Os próprios membros diziam que seu propósito era renovar, mas sem romper com a tradição. Cecília acreditava que era segregada também por ser mulher.
Embora as mulheres que pertencessem ao grupo modernista dominante tivessem alguma notoriedade – como atesta o caso da festejadíssima Patrícia Galvão, a Pagu -, Lygia Telles acha que pode haver um fundo de verdade nessa crença.
A autora deixou novidades em textos em prosa, na maioria dos casos, em jornais e revistas dos anos 30, 40 e 50. Há crônicas sobre os mais diversos assuntos, reflexões sobre educação, ensaios sobre literatura.
O ponto de virada está no livro Viagem, de 1939, no qual a autora cristaliza seu estilo contido, sugestivo, rico de musicalidade, oscilando entre a melancolia e a ironia.
Cecília preocupa-se pouco com o factual e com o noticioso, mesmo quando voltada para o cotidiano, como requer o gênero das crônicas. Seu tom é reflexivo, embora leve e coloquial, e a atmosfera de vários textos se aproxima da dos sonhos.
Foi como educadora que Cecília se mostrou mais disposta a opinar sobre seu tempo e inclusive comprar brigas. Sua atuação nesse campo compreende cerca de 750 textos, redigidos em duas fases: entre os anos de 1930 e 1933, quando ela assinava uma página diária para o jornal Diário de Notícias, depois, de 1941 a 1943, quando colaborava com o jornal A Manhã.
A primeira fase é a mais combativa. Ao lado de educadores eminentes como Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Anísio Teixeira, Cecília assinou, em 1932, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Esse documento famoso propunha uma verdadeira revolução, defendendo sobretudo os princípios da laicidade e da nacionalização do ensino. A ideia de que a educação deveria deixar de ser religiosa irritou a Igreja e intelectuais católicos. Cecília que foi professora nos diversos graus escolares, enfrentou-os em seus textos.
Os vastos arquivos de Cecília Meireles estão depositados num casarão do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, onde a autora viveu de 1946 até sua morte, em novembro de 1964.
Cecília percorreu o Brasil, foi para a Europa, Estados Unidos, Israel, Índia.
Cecília fez parte do primeiro time de cronistas brasileiros, ao lado de Rubem Braga ou Paulo Mendes Campos. Mas sua produção não se limitava à crônica. Cecília leu, traduziu e apresentou ao país poetas orientais como o indiano Tagore, o chinês Li Po e o japonês Bashô, e era tão engenhosa nesse trabalho de divulgação cultural quanto o americano Ezra Pound, apreciado da turma da poesia concreta. Coube a Cecília introduzir no Brasil até mesmo os poetas portugueses modernos – entre os quais Fernando Pessoa -, por meio de uma antologia chamada Poetas Novos de Portugal. Escreveu também textos sobre folclore e se arriscou na crítica de arte, com ensaios sobre Portinari, Rembrandt, Van Gogh e Torres-García.
(Fonte: Veja, 17 de junho de 1998 – ANO 31 – N° 24 – Edição 1551 – LIVROS/ Por Carlos Graieb – Pág; 144/146)

