Arte da intuição Um mestre dos tipos comuns
Armando Bogus: observação, talento e profissionalismo
Armando Bogus, ator. Da escola dos antigalãs, a mesma de seu colega Lima Duarte, Bogus fez uma carreira amparada em tipos comuns, brasileiros. O dramaturgo alemão Bertold Brecht acreditava que a arte de interpretar é a arte de observar, Bogus gostava de citar Brecht. Acima de tudo, gostava de segui-lo. Turco, o personagem Nassib, da novela Gabriela, era o espelho do anônimo dono de inúmeras vendas do interior do país. Amparado pela origem libanesa e o talento impecavelmente profissional, Bogus deu ao personagem não só o carisma que Nassib precisava para sobreviver ao lado dos encantos de Sônia Braga, como enriqueceu-o com toques de uma veracidade espantosa. Eu sou um sujeito muito observador, dizia Bogus.
Desde os tempos da ditadura, por causa da militância política, aprendi a observar os outros e a mim mesmo.
Expulso de dois colégios de São Paulo, na década de 50, por militar em grupos de esquerda, Bogus gostava de desafios. Entrou para o teatro já com a incumbência de inaugurar nos palcos a peça O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, no final da década de 50. Fundou, com Antunes Filho e Felipe Carone, o Pequeno Teatro de Comédias, PTC, enquanto encenava peças brasileiras na TV Excelsior. Depois que passou a atuar na Globo, onde fez mais de dez novelas e minisséries, encenou ainda várias peças no teatro, entre elas a comédia Bonifácio Bilhões, que ficou sete anos e, cena. Como poucos, soube equilibrar palco e câmaras. Nunca precisou dizer que fazia novelas porque precisava sobreviver. Bogus gostava de TV. Eu sou fascinado pelos dois, declarava.
Protagonista da versão brasileira de Hair aos 38 anos uma decisão corajosa mesmo nos tempos da geração paz e amor -, Bogus passou pela TV com a missão de interpretar tipos arriscados. Com outro ator seus personagens poderiam estar destinados ao fracasso uma morte súbita no meio da novela. Na pele de Bogus, o machista Zé das Medalhas, de Roque Santeiro, ou o cínico Cândido Alegria, de Pedra sobre Pedra, entraram para a galeria dos personagens mais populares da televisão. Me inspirei no Fradinho de Henfil e no padrão clássico do político mineiro para fazer o Cândido Alegria, explicou o ator.
Deu certo. O político matreiro que percorreu a novela Pedra sobre Pedra como o algoz dos protagonistas era, como Fradinho, apaixonado por suas maldades. Como um político mineiro, um mestre das articulações ardilosas. Para desenhar seus personagens, Bogus levava-os perigosamente perto dos tiques estereotipados sem jamais cair na armadilha que devora tantos atores. Há um limite muito perigoso na procura do tipo brasileiro, reconhecia o ator. Se me perguntar qual é o caráter do brasileiro, diria que é um cara que gosta dos Beatles, mas sem exagero. Para estereotipar menos, prefiro usar a intuição.
Em tempo: Armando Bogus, um brasileiro, gostava dos Beatles. Mas preferia Pery Ribeiro.
Armando Bogus morreu no dia 2 de maio de 1993, aos 63 anos, depois de passar dois meses internado com leucemia.
(Fonte: Veja, 12 de maio de 1993 – Edição 1287 Datas – Pág: 79)
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