Pitirim Sorokin (Rússia, 21 de janeiro de 1889 – 11 de fevereiro de 1968), sociólogo e filósofo russo, que paradoxalmente tinha sido preso pelo governo czarista por suas ideias contestadoras.
Para Sorokin, a deportação foi uma sorte grande: emigrado para os Estados Unidos, fundou o Departamento de Sociologia em Harvard e escreveu várias obras sobre o comportamento altruísta e a tipologia da cultura, entre outros temas.
Sorokin foi mais um juntamente com a expulsão de algumas dezenas de intelectuais da União Soviética, ocorrida em 1922 – sete anos antes de Stalin subir ao poder e cinco depois da Revolução Russa.
O filósofo tradicionalista, sociólogo e historiador Pitirim Alexandrovitch Sorokin nasceu no norte da Rússia, três decênios antes do eclodir da revolução bolchevique. Estudou principalmente na Universidade de São Petersburgo, onde recebeu o título de doutor em sociologia em 1922. Enquanto os acontecimentos da revolução viviam o seu apogeu, e durante a guerra civil que se seguiu, opôs-se aos comunistas e envolveu-se em diversas atividades contra-revolucionárias, o que conduziu à sua prisão e à sua condenação à morte por um tribunal vermelho.
A condenação à morte de Sorokin foi anulada por Lenine que, especulam alguns, queria mostrar-se magnânimo. Lenine, efetivamente, escreveu um artigo no Pravda para se vangloriar de ter salvo a vida do jovem intelectual. Sorokin, porém, não deixou de criticar abertamente o regime, o que levou ao seu exílio. Depois de breve estada em Praga, no fim do ano de 1923, partiu para a América onde lhe foi oferecido um lugar de professor na Universidade do Minnesota. Feito cidadão americano em 1930, aceitou no mesmo ano o convite para se tornar o primeiro professor e presidente do Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard. Aí continuará até à sua morte, em 1968.
A filosofia da história de Sorokin revela-se pela a primeira vez, de forma completa, na sua maior obra, Social and Cultural Dynamics, de que foram publicados três volumes em 1937 e o quarto e último apenas em 1941. Esta obra enorme representa um trabalho de dez anos e conta mais de três mil páginas. Sorokin recapitulou depois inteiramente a sua visão do mundo em 1941 numa série de conferências no Lowell Institute do Massachusetts mais tarde publicadas em livro com o título The Crisis of our Age.
O modelo histórico sugerido por Sorokin não é tão sombrio como os que foram sugeridos por outros teóricos do século XX, nomeadamente, o mais conhecido deles, Oswald Spengler. Sorokin rejeita a noção dos ciclos de vida orgânicos das culturas; para ele, estas não passam por estados sucessivos. A minha tese tem pouco em comum com as teorias afinal tão antigas do ciclo vital das culturas e das sociedades, com os estados da infância, da maturidade, da senilidade e do declínio, escrevia ele. Podemos deixá-los aos sábios da antiguidade e aos seus epígonos modernos.
No entanto Sorokin rejeita da mesma forma nítida as ideias veiculadas pelos optimistas inveterados que acreditam na melhoria das condições de vida da humanidade, ou, por outras palavras, no progresso, o qual estaria automaticamente garantido para o futuro imediato, como para o longo prazo. Sorokin tinha palavras trocistas para descrever o tipo de sociedade desejada pelos progressistas: cloud-cuckoo land of the after-dinner imagination (ou seja, sonhos nebulosos da imaginação após o jantar, sem que se transmita inteiramente o sabor da expressão inglesa cloud-cuckoo land). Prosseguia dizendo que essa ideologia tinha sido criada, na sua forma específica e actual, durante a segunda metade do século XIX, sendo uma daquelas bolas de sabão com que a Europa vitoriana, satisfeita de si mesma, gostava de divertir-se. Para Sorokin, o futuro a longo prazo encerra imensas esperanças. A dificuldade, para os que vivem no nosso tempo, é enfrentar o curto prazo, como iremos ver.
Em Social and Cultural Dynamics, Sorokin escreveu que as culturas civilizadas não entram por elas mesmas em declínio mas antes oscilam entre diversas fases culturais. A primeira destas é, segundo ele, a fase ideacional. A segunda é a fase sensorial. A terceira fase é uma mistura equilibrada das duas primeiras, que Sorokin denomina idealística ou mista. Estas fases duram algumas centenas de anos, período durante o qual uma perspectiva cultural única e totalmente integrada, ou um super-sistema para usar o vocabulário de Sorokin, chega a dominar as artes, a literatura, a música, a filosofia, a religião, as ciências, o modo de governo, etc. É preciso compreender que no sistema de Sorokin as formas ideacionais e sensoriais da cultura estão em oposição radical uma com a outra.
A fase ideacional tem um exemplo paradigmático no tipo de cultura que se encontrava na Europa ocidental na Idade Média ou no Império bizantino, mais ou menos entre o reinado de Teodósio o Grande e a conquista turca de 1453, ou ainda na Rússia anterior a Pedro o Grande. Esta fase caracteriza-se por uma visão da realidade que coloca em primeiro lugar as verdades espirituais. Isso não significa obviamente que os homens que vivem numa época dominada por uma cultura ideacional se desinteressem totalmente das coisas materiais, que não comprem nem vendam nem acumulem riqueza. Sorokin quer dizer, mais simplesmente, que a maior parte dos homens, numa tal sociedade, tomam a realidade espiritual como a preocupação dominante da sua existência. Sorokin escreve que a maioria dos homens, nestas fases, não fogem necessariamente do mundo, mas esforçam-se para o conduzir a Deus, quer dizer, em transformar o mundo e o reformar de acordo com os valores ideacionais ou espirituais. A cultura ideacional é fortemente ascética, tanto como espiritualizada, o que implica que o seu modo de pensar facilita o domínio do homem sobre si mesmo.
A segunda fase é a qualificada de sensorial, sendo esta a fase que atravessa a civilização europeia nos cinco ou seis últimos séculos, segundo Sorokin. Contrastando com a cultura ideacional, a cultura sensorial toma a realização das necessidades físicas como a finalidade da existência. Para utilizar os termos de Sorokin, este tipo de cultura não vê a realidade senão pelo que nela se apresenta aos órgãos dos sentidos; este tipo de cultura não procura nenhuma realidade supra-sensorial, ou seja espiritual, e não acredita em nenhuma realidade desta natureza. Por consequência, do ponto de vista de toda a cultura sensorial, a verdade ou a fé cristã, a revelação e Deus na realidade toda a religião e movimentos cristãos não podem aparecer como outra coisa senão absurdos e superstições. No decurso de uma era sensorial, mesmo as personalidades que têm crenças espirituais procuram adaptar os deveres induzidos pela espiritualidade às suas necessidades e desejos materiais, e não o contrário. Enquanto uma cultura de tipo ideacional se esforça por ajudar o homem a controlar-se, como já se disse, a mentalidade sensorial leva ao domínio do homem sobre o mundo exterior, ou pelo menos tenta realizar esse gênero de programa.
Sorokin era um homem de inteligência extrema e complexa, uma personalidade independente. Embora não se possa classificá-lo como um homem de direita no sentido habitual da expressão, porque nem todas as posições que assumiu correspondem a essa etiqueta, não se pode porém negar o seu conservadorismo intrínseco em inúmeros temas, nomeadamente nas questões sociais. Entre outros pontos, era evidentemente um adversário feroz do comunismo; desconfiava de todas as ideologias (que considerava como esquematizações sobranceiras ou mutilações mentais dignas das infligidas num leito de Procusto); estava aterrado constatando a putrefacção moral que via expandir-se tão rapidamente na sociedade.
Não será surpresa verificar que Sorokin, em tempos apontado como o sociólogo mais publicado no mundo, tenha sido lançado no esquecimento desde os anos 60. Desde logo, como notou o teólogo conservador Harold O. J. Brown, o tradicionalismo social muito marcado de Sorokin provoca o anátema, actualmente, nas fileiras do situacionismo contemporâneo. Brown escreve que Sorokin está realmente esquecido na grande universidade onde passou as quatro últimas décadas da sua vida; sem dúvida porque ele colocava o acento tónico sobre os valores e desprezava a corrupção; hoje em dia, tais atitudes passaram de moda em política e não têm mais espaço nesses lugares.
(Fonte: Veja, 5 de março, 2008 Ano 41 N° 9 Edição 2050 LIVROS/ Por Moacyr Scliar Pág: 112/113)
(Fonte: http://www.alamedadigital.com.pt/n10/sorokin – por James Thornton (tradução de Manuel Azinhal)
- Sorokin foi o 1° professor e presidente do Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard.


