Victor Serge, foi autor de mais de cinquenta livros e deixou pelo menos uma obra fundamental.

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O franco-atirador

Victor Serge (Bruxelas, Bélgica, 30 de dezembro de 1890 – Cidade do México, México, 17 de novembro de 1947), anarquista e revolucionário, foi autor de mais de cinquenta livros e deixou pelo menos uma obra fundamental – principalmente nos tempos de glasnost, de abertura na URSS – para a compreensão da Revolução Russa de 1917: Memórias de um Revolucionário.

Ao longo de sua vida, o belga Victor Serge foi perseguido por uma penca de rótulos políticos.

Na União Soviética dos anos 30, Serge integrava a lista dos inimigos trotskistas. Já o próprio Trotsky chegou a classificar Serge como um intelectual pequeno-burguês, incapaz de superar sua formação anarquista.

Nos círculos do anarquismo, Victor Serge enfrentava uma crítica dura – ele seria uma liderança política de tendências moderadas demais para figurar entre as estrelas maiores do movimento.

Victor Serge assistiu ao nascimento do regime comunistas na União Soviética e acabou passando três anos confinado num campo de concentração no interior do país.

Movendo-se como um franco-atirador na defesa de seus pontos de vista, Victor Serge promove, em Memórias de um Revolucionário, uma crítica pioneira ao regime soviético, que nasceu sob as bandeiras da igualdade social e da democracia política, mas acabou se transformando num edifício sombrio, ocupado na repressão das liberdades. “O totalitarismo está em nós”, afirma Victor Serge em Memórias de um Revolucionário, escrito em 1942. “O único problema que a Rússia Vermelha jamais soube colocar é o da liberdade, a única declaração indispensável que o governo soviético não fez é a dos Direitos Humanos.”

PAINEL – Ao confeccionar uma obra de crítica e, também, de testemunho, Victor Serge construiu um precioso painel, com personagens de carne e osso, sobre personalidades que são debatidas na URSS e contra as quais ainda há muitas resistências em Moscou. O ditador Josef Stálin (1879-1953), é descrito com as tintas vergonhosas de bajulador de seus superiores e, mais tarde, como o político que planeja se manter no poder a qualquer preço – mesmo que essa gestão, hesitante e aventureira, transforme a vida cotidiana da URSS num inferno dominado pelo terrorismo de Estado.

Assessor de Grigori Zinoviev (1883-1936), o líder bolchevique de Moscou que acabou no comando da Internacional Comunista, Victor Serge o descreve como um político afetado e superficial, que se divertia em encerrar as reuniões da Internacional lembrando, aos risos, que “novas revoluções poderiam alterar todos os nossos projetos para as próximas semanas”. Zinoviev e Liev Kamenev (1883-1936), revolucionário bolchevique que com ele chegou a dominar o birô político do partido após a morte de Lênin, foram executados nos processos movidos por Stálin em 1936. Outro dos mais íntimos assessores de Lênin, Nikolai Bukharin (1888-1938), também condenado à morte pelos processos de Moscou, é classificado na categoria de uma personalidade medíocre que, mesmo tendo lucidez para enxergar a catástrofe do terror stalinista, alimentava o sonho de subir na vida na condição de “cérebro de Stálin.”

O impacto maior de Memórias de um Revolucionário, no entanto, reside no perfil de Leon Trotsky (1879-1940), de quem Victor Serge foi partidário nos anos 20, mas de quem acabaria se afastando no final da década seguinte. Memórias de um Revolucionário mostra Trotsky como um líder competente, capaz de organizar o Exército Vermelho, e sincero.

Em 1925, colocado diante da possibilidade de liderar um golpe militar para derrubar Stálin, Trotsky acabou descartando o projeto, convencido de que uma intervenção desse tipo acabaria produzindo uma ditadura repressiva e incontrolável. Serge também mostra o outro lado da personalidade de Trotsky: sua dificuldade em conviver com a democracia, quando essa palavra incluía, também, ampliar a liberdade de seus adversários – tanto que só após muita insistência de seus seguidores é que aceitou batalhar pela liberdade de organização para outros partidos políticos além do seu próprio.

Victor Serge morreu com 57 anos no México.

(Fonte: Veja, 9 de dezembro de 1987 -– Edição 1005 -– LIVROS/ Por Paulo Moreira Leite -– Pág; 137)

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