Shirley Hazzard, autora australiana cujo livro de 1980, “The Transit of Venus”, lhe trouxe aclamação internacional, outras obras de ficção incluem uma coleção de contos, “Cliffs of Fall” (1963), e o romance “The Evening of the Holiday” (1966)

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Shirley Hazzard, romancista que retratou vidas turbulentas.

 

 

Shirley Hazzard discursando na cerimônia do National Book Awards em 2003, após vencer o prêmio de ficção por “The Great Fire”. (Fotografia: NK/Keystone USA/Rex Features)

Autora australiana foi aclamada internacionalmente.

A romancista escreveu “O Trânsito de Vênus” e “O Grande Incêndio”, e ganhou o Prêmio Miles Franklin e o Prêmio Nacional do Livro.

A Sra. Shirley Hazzard em 2006. Sua ficção é densa em significado, sutil em suas implicações e tensa em sua trama, frequentemente com o desastre iminente. (Crédito da fotografia: Cortesia © Copyright All Rights Reserved/ Managed/ Direitos autorais: Divulgação/ Jill Krementz, Todos os direitos reservados. ®/ REPRODUÇÃO/ TODOS OS DIREITOS RESERVADOS)

 

 

Shirley Hazzard (nasceu em Sydney, em 30 de janeiro de 1931 — faleceu em 12 de dezembro de 2016 em Manhattan), romancista e autora australiana de uma aclamada, embora pequena, obra de ficção povoada por personagens cujas vidas, tal como a sua, as lançam para longe de casa.

A autora australiana cujo livro de 1980, “The Transit of Venus”, lhe trouxe aclamação internacional e ganhou o Prêmio Miles Franklin e o Prêmio Nacional do Livro.

A ficção da Sra. Hazzard é densa em significado, sutil em suas implicações e tensa em sua trama, frequentemente com o desastre iminente: um naufrágio separa os pais de crianças pequenas; um homem que esperou a vida inteira por uma mulher a perde no último instante; uma doença consome lentamente a vida de um irmão querido; armas nucleares semeiam destruição e ameaçam a próxima geração.

As catástrofes vêm acompanhadas das crueldades da vida: o amor verdadeiro revela-se incestuoso. O burocrata se deleita em seu poder, negando licença por compaixão a um jovem trabalhador mal remunerado que enfrenta uma emergência.

As personagens principais da Sra. Hazzard são extremamente inteligentes, com um olhar apurado para objetos curiosos e bugigangas desgastadas que guardam como lembranças emocionais — como as xícaras de chá no romance “The Bay of Noon”, marcadas pelo tempo e “repletas de rosas vitorianas”.

Nascida em Sydney, a Sra. Hazzard morou em Hong Kong, Itália e Nova Zelândia, tanto com a família quanto sozinha, antes de chegar aos Estados Unidos aos 20 anos, onde trabalhou para as Nações Unidas e estabeleceu-se em Nova York. Ela afirmou, no entanto, que jamais se consideraria uma expatriada.

“Nem sequer sei em que país eu seria expatriada”, disse ela.

O poeta e crítico J. D. McClatchy (1945 — 2018) escreveu na The Paris Review em 2005 que, por meio de suas viagens na infância, mudanças frequentes de residência e trabalho para o governo britânico em Hong Kong, a Sra. Hazzard “desenvolveu seu interesse precoce pelas negociações do coração e pelos enganos da mente de uma maneira que poucos romancistas contemporâneos possuem”.

Ela transmitiu esses dramas complexos com uma economia austera de palavras, em livros concisos de frases sinuosas. “A fala — na literatura como na vida — pode sugerir, de forma crucial, o que não é dito”, observou certa vez a Sra. Hazzard.

No entanto, seu romance “The Transit of Venus”, que ganhou o prêmio National Book Critics Circle de ficção em 1980, é “repleto de descrições tão intelectualmente ativas que às vezes chegam a ser exaustivas”, escreveu Thomas Mallon na revista The Atlantic.

“O Trânsito de Vênus” começa com o naufrágio que deixa órfãs as irmãs australianas Caro e Grace Bell e acompanha as esperanças de um homem que, pacientemente, manteve vivo um amor solitário por Caro ao longo das décadas.

O romancista John Banville descreveu o romance como “intrincadamente construído e lindamente escrito”, observando que “uma peculiar e poderosa sensação de maldade paira sobre a narrativa, de modo que, mesmo enquanto se é impelido para a conclusão, ao mesmo tempo se teme chegar lá”.

Para a decepção de seus admiradores, mais de 20 anos se passaram antes que a Sra. Hazzard lançasse “The Great Fire”, dando sequência a “The Transit of Venus”, obra que lhe rendeu o Prêmio Nacional do Livro de Ficção em 2003. O Sr. Mallon observou que seus fãs a invejaram “até mesmo pelo tempo que ela dedicou a uma breve autobiografia sobre sua amizade com Graham Greene” — “Greene on Capri”, publicada em 2000.

A ideia de “O Grande Incêndio” já vinha sendo amadurecida há muito tempo, alimentada pelas experiências da Sra. Hazzard durante sua estadia em Hong Kong e com trechos publicados já em 1987 na revista The New Yorker.

O romance narra a história de um casal improvável: Aldred Leith, um oficial do Exército Britânico, e Helen Driscoll, uma australiana, que se conhecem no Japão ocupado quando ela é adolescente e ele, bem mais velho, com 32 anos, está envolvido em um projeto vago pós-Hiroshima.

Almas gêmeas intelectuais e emocionais, apesar da grande diferença de idade, elas formam um triângulo de amizade com Benedict, o irmão de Helen que está à beira da morte.

Escrevendo do ponto de vista de Leith, a Sra. Hazzard descreve Helen: “O mais impressionante era o bem-estar da menina. Era como se, nessa criança, Benedict tivesse sido recriado com saúde radiante, o cabelo brilhante, a pele vital, a forma perfeita. Com uma segunda tentativa, a Natureza conseguiu. Os olhos tinham a mesma clareza incomum e eram mais redondos.”

Shirley Hazzard nasceu em Sydney, em 30 de janeiro de 1931, filha de pai galês e mãe escocesa, ambos imigrantes na Austrália que trabalhavam para a empresa que construía a Ponte do Porto de Sydney.

Sua infância na Austrália foi repleta de leitura — ela dizia que “devorava e absorvia os poemas como alimento” — mas também de discórdia familiar, alcoolismo, doença mental (da mãe), infidelidade (do pai) e, por fim, o desmoronamento do casamento dos pais. Ela se lembrava de ver veteranos mutilados da Primeira Guerra Mundial ainda assombrando a Austrália anos depois, e sentiu os efeitos da Grande Depressão.

Após a Segunda Guerra Mundial, seu pai ingressou no Serviço Diplomático e foi designado para Hong Kong. A mudança para a Ásia abriu as portas para o mundo para a Sra. Hazzard, mas também marcou o início de uma série de despedidas dolorosas.

Aos 16 anos, ela começou a trabalhar para o Serviço Combinado de Inteligência Britânico em Hong Kong e mergulhou — por um breve e feliz período — em uma atmosfera social e intelectual estimulante, antes de ser levada para a Nova Zelândia (como a adolescente fictícia Helen Driscoll em “O Grande Incêndio”) e, finalmente, para Nova York.

Em Nova Iorque — ela nunca frequentou a universidade — trabalhou no Secretariado das Nações Unidas por cerca de uma década, período durante o qual escreveu “People in Glass Houses” (1967), uma coleção de contos interligados que satirizavam a vida burocrática.

Ela também criticou as Nações Unidas em seus trabalhos de não ficção, principalmente em “Countenance of Truth: The United Nations and the Waldheim Case” (1990), uma continuação de uma série de artigos que escreveu para revistas a partir de 1980, examinando alegações de que as potências mundiais foram cúmplices no encobrimento do passado nazista de Kurt Waldheim (1918 — 2007) antes de sua ascensão ao cargo de secretário-geral.

O sucesso literário chegou para a Sra. Hazzard sem a habitual avalanche de cartas de rejeição. Sua longa relação com a The New Yorker começou com o primeiro conto que ela enviou, “Woollahra Road”, que foi resgatado da pilha de manuscritos não solicitados pelo editor de ficção William Maxwell (1908 — 2000) e publicado em 1961.

Em 1963, ela conheceu Francis Steegmuller, um estudioso de Flaubert, escritor e tradutor, em uma festa oferecida por Muriel Spark. Eles se casaram ainda naquele ano.

Outras obras de ficção da Sra. Hazzard incluem uma coleção de contos, “Cliffs of Fall” (1963), e o romance “The Evening of the Holiday” (1966).

Ela se tornou cidadã dos Estados Unidos na década de 1970. Antes da morte do marido, assim como nos últimos anos, dividia seu tempo entre apartamentos no Upper East Side de Manhattan e na Itália — na ilha de Capri e em Nápoles. Sua temporada em Nápoles resultou no livro “The Ancient Shore: Dispatches From Naples”, uma colaboração com o Sr. Steegmuller, publicado em 2008.

Para a Sra. Hazzard, a Itália era o lugar mágico onde, como ela disse em uma entrevista, “os mistérios permanecem importantes: a natureza acidental da existência, a poesia da memória, a vida apaixonada que é animada pela consciência da morte inevitável”.

Shirley Hazzard morreu na noite de segunda-feira 12 de dezembro de 2016 em sua casa em Manhattan. Ela tinha 85 anos.

O Sr. Steegmuller faleceu em 1994. Eles não tiveram filhos. A Sra. Hazzard tinha uma irmã, Valerie, mas havia perdido contato com ela anos atrás, disse a Sra. Davis-Goff. Não havia informações sobre sobreviventes.

Justin Ractliffe, diretor-geral adjunto da editora australiana Hachette, responsável pela obra de Shirley Hazzard, afirmou que a empresa estava “profundamente triste” com a notícia. “Shirley era um talento excepcional que produziu uma obra pequena, porém impecável. Ela continua sendo amada na Austrália e em todo o mundo, e fará falta aos muitos leitores que se emocionaram com sua escrita extraordinária.”

(Direitos autorais reservados: https://www.nytimes.com/2016/12/13/books — New York Times/ LIVROS/ 

William Grimes contribuiu com a reportagem.

Uma versão deste artigo foi publicada na edição de 14 de dezembro de 2016, Seção B, página 14, da edição de Nova York, com o título: Shirley Hazzard, foi escritora que compartilhou as crueldades da vida.

© 2016 The New York Times Company

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