Fernando Novais, foi um dos maiores historiadores do Brasil, foi o responsável por redefinir a compreensão sobre o antigo sistema colonial português em sua relação com o Brasil, estabelecendo novos marcos para a pesquisa histórica no país

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Fernando Novais, um dos maiores historiadores do Brasil, o historiador que associou a colonização do Brasil à formação do capitalismo comercial

Professor emérito da USP, Novais foi o responsável por redefinir a compreensão sobre o antigo sistema colonial português em sua relação com o Brasil, estabelecendo novos marcos para a pesquisa histórica no país.

Ao longo de mais de 60 anos de carreira, lecionou na USP e Unicamp, além de universidades europeias e americanas

 

Intelectual paulista se consagrou com a publicação de “Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial”

O professor e historiador Fernando Novais em 2019, quando relançou “Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial” pela editora 34 – (Fotografia: cortesia Eduardo Knapp/ Folhapress/ TODOS OS DIREITOS RESERVADOS)

 

 

Fernando Antônio Novais (nasceu em 1933, em Guararema, São Paulo — faleceu em 30 de abril de 2026, em São Paulo, São Paulo), foi um dos maiores historiadores do Brasil, referência na historiografia nacional ao associar a colonização do Brasil à formação do capitalismo comercial.

Novais foi o responsável por redefinir a compreensão sobre o antigo sistema colonial português em sua relação com o Brasil, estabelecendo novos marcos para a pesquisa histórica no país.

Doutor em História pela USP em 1973, Novais ingressou como docente na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP em 1961, onde permaneceu até 1986 na cadeira de História Moderna e Contemporânea.

Sua tese, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial, é considerada um clássico, unindo a análise econômica à política de forma inédita. Em 14 de dezembro de 2006, tornou-se o 38º Professor Emérito da FFLCH.

No trabalho, que se tornou livro, analisa a política colonial portuguesa em suas fases finais e apresenta uma interpretação abrangente da dinâmica, gênese e crise do sistema colonial, tornando-se referência obrigatória na historiografia.

Nos anos 1990, coordenou a coleção História da Vida Privada no Brasil. Em 2005, lançou Aproximações: estudos de história e historiografia. Também publicou, com Rogério Forastieri da Silva, os volumes de Nova História em perspectiva (2011 e 2013), destacando-se pela análise crítica da historiografia moderna.

“Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial — 1777-1808”, do historiador, é um clássico incontornável (que resiste firme aos 53 anos, data da tese; o livro saiu em 1979).

O livro de Fernando é decisivo para entender o Brasil e sua inserção no sistema colonial, entre os séculos 18 e 19. Trata-se de uma análise marxista sólida, que absorve estudos anteriores, os revisa e apresenta uma interpretação original.

Portanto, quem estuda a história do Brasil — e, claro, de Portugal — tem o dever de consultar e esmiuçar as ideias do livro, resultado de sua tese de doutorado. O professor da USP e da Unicamp também publicou “Aproximações — Estudos de História e Historiografia” (Editora 34, 448 páginas).

Orientado no doutorado por Eduardo d’Oliveira França (1917 — 2003), de quem se apresentava como discípulo, Fernando Novais pesquisou, de maneira rigorosa, a política colonial de Portugal no Brasil “no fim do século 18 e início do 19”.

Intelectual paulista Fernando Novais se consagrou com a publicação de “Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial”.
Estudo de História e Historiografia. Intelectual paulista Fernando Novais

 

 

Naief Haddad ressalta que, “em ‘Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial’”, Fernando Novais “tomou como ponto de partida uma das formulações de ‘Formação do Brasil Contemporâneo’. Nesse livro de 1942, Caio Prado Júnior havia sido o primeiro”, de acordo com o historiador, “a mostrar a formação da colônia dentro do processo de constituição do capitalismo”.

O repórter da “Folha” postula que Fernando Novais “aprofundou essa abordagem de Caio Prado Júnior, detalhando como, no final do século 18, o sistema colonial havia se tornado uma expressiva fonte de acumulação para fortalecer a industrialização europeia e como esse sistema entrou em crise”.

O historiador e professor da USP Pedro Puntoni disse à “Folha”, em 2019, registra Naief Haddad, que, se Caio Prado “via a colonização como um ‘capítulo’ da expansão do capitalismo comercial, Novais a relaciona com o processo mesmo de formação deste capitalismo e as transformações vividas no centro do sistema”.

 

A IndFernando Novais publicou livros em parceria com outros pesquisadores. Eis alguns deles: “A Independência Política do Brasil” (Hucitec, 94 páginas), com Carlos Guilherme Motaependência Política do Brasil.
Fernando Novais publicou livros em parceria com outros pesquisadores. Eis um dels: “A Independência Política do Brasil”, com Carlos Guilherme Mota.

Fernando Novais publicou livros em parceria com outros pesquisadores. Eis alguns deles: “A Independência Política do Brasil”, com Carlos Guilherme Mota; “Nova História em Perspectiva”, com Rogério F. da Silva; “1822 – Dimensões”, com Carlos Guilherme Mota (organizador), Jacques Godechot, Fréderic Mauro e José Serrão; e “Capitalismo Tardio e Sociabilidade”, com João Manuel Cardoso de Mello.

Fernando Novais organizou a formidável coleção “História da Vida Privada no Brasil”, com a colaboração dos organizadores Laura de Mello e Souza, Lilia Moritz Schwarcz, Luiz Felipe de Alencastro e Nicolau Sevcenko. É quase uma bíblia sobre o país e vai muito além do que sugere o título.

Fernando Novais deu aulas na Universidade do Texas, participou de seminários e debates na Universidade Columbia e na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos; ministrou cursos no Institut des Hautes Études de l’Amérique Latine, na França, na UCLouvain, na Bélgica, e nas universidades de Coimbra e Lisboa, em Portugal.

O examinar o “descobrimento do Brasil”, Fernando Novais disse, de maneira apropriada, à “Folha”, no ano 2000: “Quando se fala em ‘Descobrimento do Brasil’, o etnocentrismo está no Descobrimento, e o anacronismo, na palavra Brasil”.

“O Brasil é um povo que se constituiu numa nação, que por sua vez se organizou como Estado. Em 1500, não havia nenhuma dessas três coisas. Logo, não houve Descobrimento do Brasil porque o Brasil não existia nem estava encoberto. O que naquele momento surgiram foram as bases da colonização portuguesa, a qual por sua vez é a base da nossa formação”.

O seminário de estudos marxistas

Fernando Novais estava entre os intelectuais universitários que criaram o célebre “Seminário Marx” ou “Grupo do Capital”. Entre 1958 e 1964, eles estudaram, de maneira detida e não dogmática, o principal livros do filósofo e economista alemão Karl Marx.

 

 

História da Vida Privada no Brasil. Contrastes da Intimidade Contemporânea. Fernando A. Novais.

História da Vida Privada no Brasil. Contrastes da Intimidade Contemporânea. Fernando A. Novais.

 

Entre os marxólogos presentes estavam: Bento Prado Júnior, Fernando Henrique Cardoso (sociólogo), José Arthur Giannotti (filósofo, organizador do “curso”), Michael Löwy (filósofo), Octavio Ianni (sociólogo), Paul Singer (economista), Roberto Schwarz (sociólogo e crítico literário), Rui Fausto (filósofo) e Ruth Cardoso (antropóloga). Estão vivos Fernando Henrique (94 anos, com Alzheimer), Michael Löwy (87 anos) e Roberto Schwarz (87 anos).

À revista “Pesquisa Fapesp”, em 2022, Fernando Novais disse: “A maior parte dos integrantes do grupo de leitura de ‘O Capital’ deixou de ser marxista. Eu comentei outro dia com o Roberto Schwarz: somos os últimos que se mantêm. Sou e pretendo ser um historiador marxista”. Me parece que Michael Löwy, sempre interessado em Walter Benjamin, também permanece marxista.

O historiador Boris Fausto, irmão de Rui Fausto — marxista —, dizia que Fernando Novais era um “marxista de qualidade”.

Fernando Novais era eleitor de Lula da Silva, o que provocou ranhuras no relacionamento com Fernando Henrique Cardoso. Mas o historiador admitiu que FHC criou “condições para que pudesse ocorrer um governo de centro-esquerda no Brasil”.

Além de sua produção bibliográfica, o professor deixou um legado na criação de espaços de reflexão. Foi um dos articuladores do célebre “Grupo do Capital” (ou Seminário Marx) no final dos anos 1950, ao lado de nomes como José Arthur Giannotti (1930 — 2021) e Fernando Henrique Cardoso – movimento que inovou a leitura da obra de Karl Marx no Brasil. Sua trajetória de gestão e ensino estendeu-se também à Unicamp, onde lecionou no Instituto de Economia entre 1986 e 2003, e mais recentemente à Facamp.

Fernando Novais morreu aos aos 93 anos na quinta-feira (30), em São Paulo.

Ele deixou dois filhos, netos e bisnetos.

Em nota oficial, a direção da FFLCH manifestou “imenso pesar e sentimento de solidariedade às e aos familiares e colegas”.

“Fará falta pela sua lucidez e contribuição à historiografia, mas sobretudo pela sua gentileza e generosidade”, diz Puntoni.

Segundo o também professor da USP Pedro Puntoni, Novais manteve colaboração constante com a USP e dedicou-se à formação de gerações de alunos, defendendo a história como um ofício guiado por método e reflexão conceitual, em busca de uma compreensão ampla, ainda que sempre aproximada, das experiências humanas no passado.

“Para ele a história deve ser total, mas isso é sempre uma aproximação. Ela nunca ‘é’ total, ela quer ser e procura, desta forma, articular e mediar as várias dimensões das ações (emoções e pensamentos) dos homens e das mulheres no passado. A história quer ser ciência, mas não é. Ela dialoga com as ciências humanas, mas distancia-se delas pelo seu método, estilo e forma de abordar a dimensão da memória humana”, diz Puntoni.

Ao escrever o obituário de Fernando Novais — morreu na quinta-feira, 30, aos 93 anos (teve um infarto, pneumonia, em fevereiro, e, agora, infecção renal) —, publicado sob o título de “Morre Fernando Novais, 93, um dos maiores historiadores do Brasil”, o repórter Naief Haddad, da “Folha de S. Paulo”, assinala que o livro do pesquisador “associa a colonização com a formação do capitalismo comercial”.

(Direitos autorais reservados: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/04/30 – Globo Notícias/ SÃO PAULO/ NOTÍCIA/ Por Cíntia Acayaba, g1 SP — 30/04/2026)

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