Hans Christian Andersen, escritor dinamarquês da literatura infantil.

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Hans Christian Andersen (Odense, 2 de abril de 1805 – Copenhague, 4 de agosto de 1875), escritor dinamarquês da literatura infantil. Não fora por acaso que em 1835 iniciara uma carreira de escritor capaz de produzir mais de 150 imortais histórias para crianças. Não fora por acaso que, entre suas personagens preferidas, além dos elfos, duendes ou gnomos que povoaram as lendas de seu país, havia uma imensidão de comoventes brinquedos quebrados, sapatinhos sem par, velhas cartas de baralho, animaizinhos sofridos e solitários. Afinal, da melancolia e do sonho que Andersen sempre impôs a seus escritos sobressaíam a melancolia e os sonhos que padecera ou acalentara em sua infância.

Não haveria melhor título para aquela autobiografia. Quando a escreveu, em 1855, aos 50 anos de idade, sob o nome de “O Conto de Fadas de Minha Vida”, o dinamarquês Andersen estava reportando uma absoluta verdade. Laboriosamente, o talento de Andersen conseguiu superar todos os gigantes e demônios que se multiplicaram em sua vida. Seu nome e sua arte haviam virtualmente fascinado toda a Europa – um encantamento que, desde então, jamais seria quebrado. Hoje, ainda que sua obra seja incluída no rótulo da literatura infantil, muitos mestres da cultura a colocam sobre planos mais amplos. Acima de tudo, Hans Christian Andersen seria um autor da existência, e do amor.

Quase grotesco – Nascido em Odensen, a 2 de abril de 1805, data posteriormente escolhida como o Dia Internacional do Livro Infantil, em sua homenagem, Hans Christian era filho de um sapateiro doente, que terminou louco quando o menino tinha 11 anos, e de uma lavadeira analfabeta e alcoólatra, morta quando ele completou 28. Pequeno ainda, sentia-se quase grotesco, altíssimo e magérrimo, um grande e corcoveante nariz pulando no meio de um rosto áspero, dominado por ossos enormes e protuberantes.

Com 14 anos Andersen abandonou Odense e se mudou para Copenhague, determinado a se tornar artista. Tentou um emprego como cantor de ópera. Foi ator, bailarino. E aos poucos começou a escrever peças teatrais. Tratava-se de trabalhos precários e desajeitados. Em todo caso, chamaram a atenção de um conselheiro do reino, um certo Jonas Collin, que decidiu acolher Hans Christian como protegido. Sob a tutela de Collin, Andersen passou a frequentar uma escola, a escrever poemas – e, enfim, a ganhar algum dinheiro.

Em 1831 Andersen sentiu-se em condições de realizar um sonho de todos os dinamarqueses da época – visitar a Alemanha. E, quando voltou, seu relato de viagens, fartamente publicado, lhe abriu o caminho para o sucesso. “Só quando se viaja a vida se torna rica e vital”, diria ele, mais tarde. Repetiu a experiência, inclusive, outras 28 vezes, por toda a Europa e por todo o Oriente. E seu primeiro trabalho internacionalmente famoso nasceu de uma visita que fez à Itália em 1835 – a novela “O Improvisador”.

Maníaco-depressivo – Desses périplos foi que britou a paixão de Andersen pelo folclore europeu – uma paixão fundamental, pois a partir dela é que se decidiu a escrever contos infantis. “A Roupa Nova do Imperador”, por exemplo, completado em 1839, se baseava num texto medieval do espanhol don Juan Manuel, o Conde de Lucanor, que ele conhecera numa tradução alemã. “Meu processo de trabalho é simples”, chegou a explicar Andersen: “Concebo uma mensagem para adultos e depois procuro transmiti-la aos pequenos, sempre pensando que os pais estarão por perto tendo assunto sobre o qual meditar”.

Numa interpretação da filosofia andersiana, o crítico americano Elias Bredsdorff se fundamentou em declarações esparsas do próprio escritor: “Sofro de depressões profundas. Quando me sinto feliz, porém, minha alegria é insuperável”. Segundo Bredsdorff, hoje Hans Christian Andersen seria considerado, pelos psicanalistas, como um típico maníaco-depressivo, “uma pessoa obcecada por si mesma, ambiciosa, repleta de pequenas vaidades, ansiosa por se exibir, para declamar seu último poema, dançar, cantar ou simplesmente lamentar sua solidão”. Em resumo, Andersen jamais teria amadurecido – as lembranças da problemática infância o haviam deixado sem as satisfações fundamentais de uma criança.

Criança perdida – O criador de “A Menina dos Fósforos”, significativamente, nunca se casou. Apaixonou-se fulminantemente três vezes. Mas nenhuma de suas amadas aceitou se transformar em sua esposa. E essa espécie de solidão permanente de certa maneira acabou por estimular sua produção destinada as crianças. Quando escrevia para elas, no fundo, Andersen estava falando de si mesmo, descrevendo suas mágoas e libertando suas satisfações. “Seu sentimento mal disfarçado é o protesto de um coração sensível contra o materialismo implacável deste mundo”, observou o crítico Otto Maria Carpeaux. “Um coração de proletário perdido entre os ricos, um coração de criança perdida entre os adultos.”

De fato, sugestões de seus próprios problemas existem em praticamente todas as suas criações. Sempre nervoso, Andersen tinha muito da princesinha supersensível que dormia sobre vinte colchões e ainda assim se sentia incomodada por um insignificante grão de ervilha. Ele era também como a pequena seria que um dia inventou – um ser estranho, surgido de repente das profundezas do oceano e que jamais se considerou aceita integralmente pelo mundo. Andersen carregava, na agudez de seu espírito atento, muitos traços do garotinho, único em sua cidade capaz de perceber que o rei estava nu. Ele corporificou enfim, com a sua vida, a legendária aventura do patinho feio – que um dia descobriu ser um maravilhoso cisne real. Ou, então, viveu como o trágico soldadinho de chumbo – consumido por suas impossíveis quimeras, junto com a bailarina de papel. E ao morrer no dia 4 de agosto de 1875, de câncer no fígado, em Copenhague, sua arte virtualmente fascinou o mundo.

(Fonte: Veja, 6 de agosto de 1975 – Edição n° 361 – LITERATURA – O patinho feio – Pág; 111/112)

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