Tom Wolfe, jornalista e escritor, foi um dos maiores e mais inovadores nomes do jornalismo do século 20

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Tom Wolfe, jornalista e escritor, um dos maiores nomes do Novo Jornalismo

 

O escritor e jornalista Tom Wolfe, em Barcelona, em 2013. (Foto: AFP / DIREITOS RESERVADOS)

 

Escritor e jornalista foi um dos maiores nomes do new journalism.

 

Thomas Kennerly “Tom” Wolfe (Richmond, 2 de março de 1930 – Manhattan, em Nova York, 14 de maio de 2018), escritor e jornalista americano, autor de a Fogueira das Vaidades (1987), foi um dos maiores e mais inovadores nomes do jornalismo do século 20.

 

O autor era considerado um dos pais do New Journalism (Novo Jornalismo ou jornalismo literário), corrente jornalística que usava elementos da literatura para narrar fatos reais, com técnicas narrativas próprias da ficção, mas sempre respeitando o rigor dos fatos, que teve como expoentes nomes como Gay Tales, Norman Mailer (1923-2007) e Truman Capote (1924-1984).

Wolfe foi um dos autores mais influentes do New Journalism (também chamado de Jornalismo Literário ou Novo Jornalismo), movimento que revolucionou a escrita de não ficção a partir da década de 1960, e que em suas longas reportagens autorais, esses escritores passaram a tratar o jornalismo como uma forma de arte ao aproximá-lo da literatura. Usavam técnicas e recursos de narrativa e de edição até então associados a romances, contos e ensaios.

 

Além da ficção Fogueira das Vaidades, romance que vendeu nos EUA mais de dois milhões de exemplares e foi transformado em filme pelo cineasta Brian De Palma, o autor escreveu dezenas de livros de ficção e não-ficção. Era um devoto do realismo, que cultivou em três romances faraônicos de mais de 600 palavras. Para o escritor e jornalista, havia quatro premissas básicas para escrever, de forma vívida, um relato realista: “Construir um texto, cena por cena, como uma novela; usar a maior quantidade de diálogos possíveis; concentrar-se nos detalhes para definir os personagens; e adotar um ponto de vista para contar uma história”. Seu último romance, Sangue nas Veias (editora Rocco), foi lançado em outubro de 2012.

 

Famoso desde os anos 1970 por seus trajes impecáveis de três peças e camisas de colarinho branco engomadas, Wolfe era um homem simpático, com incontáveis histórias por trás de algumas de suas maiores reportagens, como o perfil que escreveu do jovem Cassius Clay, o Muhammad Ali. “Passamos cinco dias juntos e me respondeu tudo, com nada. A diferença foram os detalhes: as conversas com seus companheiros, os aduladores, a noite em que desapareceu de uma casa noturna e nos deixou uma conta monstruosa a pagar…”, relatou, certa vez.

 

Questionado em 2014 sobre os efeitos negativos que o Novo Jornalismo teve sobre sua profissão, Tom Wolfe respondeu: “O abuso da primeira pessoa no singular. Uma falha que eu mesmo cometi. Meu primeiro texto, The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby (1965), sobre a cultura automobilística da Califórnia, comecei escrevendo: ‘A primeira vez que vi um carro personalizado… ‘. A menos que você seja parte da trama, crio que é um erro escrever em primeira pessoa”, afirmou.

 

 

O escritor e jornalista Tom Wolfe, em Nova York, em julho de 2016. (Foto: BEBETO MATTHEWS AP)

 

 

Perfil de Tom Wolfe

Tom Wolfe com o então presidente americano George W. Bush sendo homenageado com a Medalha Nacional de Humanidades em 2002 (Foto: Reuters/Larry Downing/Arquivo)

 

 

Thomas Kennerly Wolfe Jr nasceu em 2 de março de 1930 em Richmond, Virgínia. O pai era um professor de agronomia no Virginia Polytechnic Institute e editor de um jornal de temática agrícola. A mãe foi quem incentivou o interesse do filho por arte e leitura.

 

Depois de estudar em uma escola particular para meninos em Richmond, Wolfe formou-se com louvor na Universidade de Washington and Lee em 1951, com diploma de bacharel em inglês.

Ele também se destacava como jogador de beisebol e chegou a ser convocado para um teste no New York Giants, mas não chegou a fazê-lo.

Em lugar disso, matriculou-se na Universidade de Yale para fazer pós-graduação em Estudos Americanos, conseguindo o Ph.D em 1957.

Seu primeiro trabalho como jornalista foi na redação do “Springfield Union”, ainda em 1956. Em seguida, passou a fazer parte da equipe do jornal “The Washington Post”, no qual ganhou um prêmio por uma série de reportagens sobre Cuba.

Em 1962, entrou no “Herald Tribune”, no qual começou a moldar o estilo que o tornaria conhecido sobretudo por textos publicados na edição dominical, chamada “New York”. Ao longo da carreira, publicou reportagens e ensaios em revistas como “Harper’s” e “Esquire”.

De 1965 a 1981, Wolfe lançou nove livros de não ficção. O primeiro deles foi a famosa coletânea de artigos “The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby”. Em 1968, veio o aclamado “The Electric Kook-Aid Acid Test” e “The Pump House Gang”.

“Radical Chic & Mau-Mauing the Flak Catchers” saiu em 1970. Sete anos mais tarde, veio “Mauve Gloves & Madmen, Clutter & Wine”, que inclui famoso ensaio “The Me Decade and the Third Awakening”. Pouco depois, veio “Os eleitos”, cujo título original é “The right stuff”.

Já o primeiro romance, o best-seller “A fogueira das vaidades”, foi lançado em 1987. Seu livro de ficção mais recente, “Back to blood”, de 1998, foi editado no Brasil como “Sangue nas veias” (Rocco).

A mesma editora lançou por aqui os romances “Um homem por inteiro”, de 1998, e “Eu sou Charlotte Simmons”, de 2004, além do ensaio “O reino da fala”, último trabalho publicado pelo escritor, no qual ele propõe um desafio às ideias de Charles Darwin e Noam Chomsky.

O obituário do “New York Times” reproduz uma declaração de Byron Dobell, editor de Wolfe na “Esquire”, ao jornal “The Independent” em 1998:

“Ele tem esse dom único de linguagem que o diferencia como Tom Wolfe. É cheio de hipérbole; é brilhante; é engraçado, e ele tem um ouvido maravilhoso para perceber como as pessoas se parecem e se sentem. Ele tem um dom de fluência que emana dele do mesmo jeito que Balzac”.

— Reportagens, artigos e ensaios

  • “The kandy-kolored tangerine-flake streamline baby” (1965)

 

  • “The electric kool-aid acid test” (1968)

 

  • “The Pump House Gang” (1968)

 

  • “Radical Chic & Mau-Mauing the Flak Catchers” (1970)

 

  • “The New Journalism” (1973) (em coautoria com EW Johnson)

 

  • “The painted word” (1975); no Brasil, “A palavra pintada” (Rocco)

 

  • “Mauve Gloves & Madmen, Clutter & Vine” (1976)

 

  • “The right stuff” (1979)

 

  • “In our time” (1980)

 

  • “From Bauhaus to Our House” (1981)

 

  • “The purple decades” (1982)

 

  • “Hooking up” (2000); no Brasil, “Ficar ou não ficar” (Rocco)

 

  • “The kingdon of speech” (2016); no Brasil, “O reino da fala” (Rocco)

— Romances

  • “The bonfire of the vanities” (1987); no Brasil, “A fogueira das vaidades” (Rocco; fora de catálogo)

 

  • “A man in full” (1998); no Brasil, “Um homem por inteiro” (Rocco)

 

  • “I am Charlotte Simmons” (2004); no Brasil, “Eu sou Charlotte Simmons” (Rocco)

 

  • “Back to blood” (2012); no Brasil, “Sangue nas veias” (Rocco)

 

 

Tom Wolfe via crise do romance, mas foi novo jornalismo que ficou para trás

Romance, que autor tinha como decadente, conseguiu sobreviver

 

Tom Wolfe em sua casa, em Nova York, fotografado em 1988 – (Foto: AFP)

 

 

O livro “O Novo Jornalismo” (1973), de Tom Wolfe, é um interessante documento de época – nele, o escritor reflete, em tom sarcástico, sobre em que afinal aquela turma de repórteres com um texto cheio de charme estava inovando nos anos 1960.

O novo jornalismo era a mistura das técnicas da ficção para escrever histórias reais. Parecia imaginação, mas era tudo verdade.

Wolfe faz, nesse ensaio, um elogio do realismo do século 19, representado por nomes da técnica realista, os repórteres poderiam ser os cronistas dos costumes da sociedade, já que os romancistas tinham resolvido, segundo ele, não dar bola para isso.

O autor não propunha só uma reportagem bem feita, mas a elevação do jornalismo ao status de arte. Com isso, também criticava duramente escritores do período por se dedicarem ao que chamava de neofabulismo.

O elogio de escritores do século 19 feito por ele vinha em um momento curioso, porque o realismo à moda deles estava em baixa.

A França, onde Wolfe via tanta influência para os novos jornalistas, estava dedicada nos anos 1950 e 1960 ao “nouveau roman”, movimento de experimentação literária.

O boom latino-americano também corria o mundo, e Gabriel García Márquez publicaria “Cem Anos de Solidão” em (1967), numa amostra de que os mundos fantásticos também serviam para falar da realidade.

 

TOM ARROGANTE

 

A graça do estilo de Tom Wolfe deixa mais palatável o tom arrogante do texto. E é bom agora poder olhá-lo com distanciamento.

O escritor chega a sugerir que o surgimento do realismo equivale à invenção da eletricidade. E quem tentasse aprimorar a literatura sem recorrer a ele seria como um engenheiro que tenta melhorar uma máquina abandonando a energia elétrica.

Logo mais, diz que o novo jornalismo era “a literatura mais importante” escrita nos Estados Unidos no período. Chega sugerir que ele podia tomar o lugar do romance.

É verdade que o romance não tem mais o prestígio do passado. Mas ele tampouco foi substituído pela reportagem, hoje desafiada pelas “fake news”.

Pelo contrário, desde que foi acusado de alienação por Wolfe, o romance continuou se transformando – até chegar, ironicamente, a um retorno do realismo literário hoje.

Se continuar a se transformar é condição para um gênero continuar vivo, está claro que o romance seguiu adiante.

O novo jornalismo por sua vez, virou um fóssil – um fóssil ótimo de ler.

Suas técnicas foram adotadas por diluidores do estilo e hoje alimentam best-sellers de não ficção. São livros, muitas vezes, de grande qualidade jornalística ou histórica, mas que não têm pretensões estéticas (ou não deveriam).

Wolfe também não esperava que o gênero criado por ele, Gay Talese, Truman Capote e outros fosse enfrentar a mesma crise da literatura na próxima esquina: a da palavra escrita, com as séries de TV, a decadência da imprensa americana etc.

O novo jornalismo continuará a ser importante para a formação de jornalistas e fonte de prazer na leitura, mas seu legado estético passou longe do que Wolfe pregava.

Tom Wolfe morreu aos 87 anos, em um hospital de Manhattan, em Nova York, em 14 de maio de 2018.

(Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/15/cultura – EL PAÍS / BRASIL – CULTURA – Madri – 15 MAI 2018)

(Fonte: Zero Hora – ANO 55 – Nº 19.089 – 16 de maio de 2018 – TRIBUTO / MEMÓRIA – Pág: 27)

(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/05 – ILUSTRADA – 15/05/2018)

(Fonte: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia – POP & ARTE – NOTÍCIA / Por G1 – 

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