Shere Hite, foi uma das pioneiras e ícone do feminismo, desafiou os mitos da sexualidade feminina sobre como as mulheres atingiam o orgasmo

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Shere Hite, ícone do feminismo, mulher que desafiou os mitos da sexualidade feminina

Uma das pioneiras do feminismo, Hite surpreendeu o mundo na década de 1970 ao desafiar as suposições da sociedade sobre como as mulheres atingiam o orgasmo

 

 

A escritora Shere Hite nos anos 1980. (Foto: Arquivo /12-07-1982)

 

Em “The Hite Report”, a americana causou polêmica ao revelar que muitas mulheres que entrevistou para sua pesquisa não sentiam prazer com a penetração

 

Shere Hite (Setor Joseph, Missouri, 2 de novembro de 1942 – Londres, 9 de setembro de 2020), autora, de origem alemã e norte-americana, foi uma das pioneiras do feminismo. Desafiou a visão masculina da sexualidade ao revelar que muitas mulheres não obtinham prazer através da penetração sexual. Foi insultada pela Revista Playboy e renunciou à cidadania norte-americana.

 
Hite surpreendeu o mundo na década de 1970 com seus relatórios inovadores sobre a sexualidade feminina e sua conclusão de que as mulheres não precisavam de relações sexuais convencionais para obter satisfação sexual.
“O Relatório Hite, um profundo estudo sobre a sexualidade feminina”, atribui, desde o final dos anos 70, importância ao papel da mulher nas relações sexuais.Este estudo baseou-se em testemunhos de 3.500 mulheres, que desafiaram os pressupostos masculinos sobre o sexo, revelando que muitas mulheres não eram estimuladas pela penetração sexual, além de ter encorajado as mulheres a assumirem o controlo das suas vidas sexuais.

Para responder às questões com que as mulheres se confrontam quando lidam com os detalhes mais íntimos da sua sexualidade, a inovação que Hite introduziu foi simples: perguntou tudo às mulheres e publicou as respostas.Considerado polêmico, o relatório de Shere Hite foi rejeitado por alguns como sendo um documento “anti-homem” e foi apelidado de”Relatório de ódio” pela Playboy.

Pela primeira vez, as mulheres falaram de sexo sem tabus, e o que tinham para dizer ainda hoje é inovador e contribui para a discussão pública e o alargamento do debate sobre o feminismo e bem-estar da mulher. Em 2019, em algumas entrevistas à comunicação social, a autora revelou que mantinha a sua postura intacta, afirmando que”enquanto não houver igualdade no quarto, ela não existirá na sala de reuniões”.

 

Seu trabalho mais famoso, “The Hite Report: A Nationwide Study of Female Sexuality” (1976), desafiou as suposições da sociedade e freudianas sobre como as mulheres atingiam o orgasmo: Não era necessariamente por meio do ato sexual, escreveu Hite; as mulheres, ela descobriu, eram perfeitamente capazes de encontrar prazer sexual por conta própria.

 

Por mais óbvias que suas conclusões possam parecer hoje, elas eram sísmicas na época. Para todas as mulheres que fingiram ter orgasmo durante a relação sexual, o Relatório Hite ajudou-as a despertar seu poder sexual e foi visto como um avanço na liberação das mulheres. O livro se tornou um best-seller instantâneo e foi traduzido para uma dúzia de idiomas. Mais de 48 milhões de cópias foram vendidas em todo o mundo.

O Relatório Hite

 

O que diferencia o Relatório Hite de outros estudos são os questionários que estão no centro dele. Mais de 3 mil mulheres obtiveram anonimato ao responder às perguntas, permitindo-lhes escrever com franqueza e de forma aberta – não em resposta a perguntas de múltipla escolha – sobre suas experiências.

 

“Os pesquisadores devem parar de dizer às mulheres o que elas devem sentir sexualmente e começar a perguntar o que elas sentem sexualmente,” escreveu Hite. Em depoimentos reveladores em primeira pessoa, mais de 70% das entrevistadas romperam com a noção de que as mulheres eram estimuladas suficientemente durante a relação sexual básica para atingir o clímax. Em vez disso, elas disseram que precisavam de estimulação do clitóris, mas muitas vezes se sentiam culpadas e inadequadas quanto a isso e ficavam com vergonha de contar a seus parceiros sexuais.

 

Suas opiniões, surgindo no auge do feminismo da Segunda Onda nos Estados Unidos, marcaram um ponto de inflexão acentuado após a “revolução sexual” da década de 1960, que essencialmente deu às mulheres licença para fazer sexo sem compromisso com tantos parceiros quanto os homens, mudando a dinâmica centrada no homem na cama.

 

Se as mulheres se sentiram liberadas, muitos homens ficaram alarmados. Eles consideraram Hite como uma mensageira indesejada que estava dizendo que eles estavam fazendo coisas erradas. Ao mesmo tempo, a direita cristã em ascensão viu sua defesa do prazer sexual feminino como uma contribuição para a dissolução da família. Ela foi ainda acusada de usar metodologia falha e amostragem distorcida e foi castigada em termos pessoais cruéis. A revista Playboy, para a qual ela já posou de topless, chamou seu trabalho de “The Hate Report”. Alguns disseram que ela deveria mudar seu nome para Sheer Hype.

 

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Mesmo assim, Hite continuou a escrever. Depois, lançou O Relatório Hite sobre Homens e Sexualidade Masculina” (1981), no qual ela analisou questionários de mais de 7 mil homens e concluiu que raiva reprimida e infidelidade eram características comuns dos casamentos americanos.

 

Ela completou sua trilogia com Mulheres e Amor: Uma Revolução Cultural em Progresso” (1987), em que questionários de 4,5 mil mulheres a levaram a concluir que as mulheres consideravam seus relacionamentos com homens “crescente frustração emocional e gradual desilusão”.

 

Ambos os livros posteriores foram amplamente criticados por se basearem em amostras não representativas dos entrevistados. Após a publicação de “Mulheres e Amor”, que a revista Time disse ser simplesmente uma desculpa para sua “crítica masculina”. Hite recebeu ameaças de morte pelo correio e pela secretária eletrônica.

 

Muitos a descartaram como uma feminista raivosa, embora ela tivesse chegado ao seu feminismo de uma forma indireta. Como estudante de pós-graduação na Universidade Columbia, ela ganhou dinheiro para pagar as mensalidades como modelo de meio período. Uma das marcas para as quais ela posou foram as máquinas de escrever Olivetti, que a mostravam como uma loira de pernas compridas acariciando um teclado. Mas quando ela viu o slogan do anúncio – “uma máquina de escrever tão inteligente que ela [a modelo]não tem que ser” – ela ficou horrorizada e logo se juntou a um grupo de mulheres fazendo piquetes nos escritórios da Olivetti contra o próprio anúncio em que estava.

 

A onda de raiva e ressentimento contra ela inspirou 12 feministas proeminentes, incluindo Gloria Steinem e Barbara Ehrenreich, a denunciar os ataques da mídia a ela como uma reação conservadora dirigida não tanto contra uma mulher, mas “contra os direitos das mulheres em todos os lugares”. E isso estimulou a decisão de Hite de desistir de seu passaporte americano, deixar o país e se estabelecer na Europa, onde sentiu que suas ideias eram mais aceitas.

 

“Renunciei à minha cidadania em 1995”, escreveu ela em 2003 no The New Statesman. “Depois de uma década de ataques constantes a mim mesma e ao meu trabalho, particularmente meus ‘relatórios’ sobre a sexualidade feminina, não me sentia mais livre para realizar minhas pesquisas com o melhor de minha capacidade no país em que nasci.”

Vida de Shere Hite

Shirley Diana Gregory nasceu em 2 de novembro de 1942, em Saint Joseph, Missouri, filha de Paul e Shirley (Hurt) Gregory. Sua mãe tinha 16 anos na época e seu pai era um soldado. O casamento acabou logo após a Segunda Guerra Mundial. Quando sua mãe se casou novamente, Shirley adotou o sobrenome de seu padrasto, Raymond Hite, um caminhoneiro que a adotou, e passou a se chamar Shere. Depois do fracasso do casamento, ela foi criada principalmente pelos avós e, quando eles se divorciaram em meados da década de 1950, ela foi morar com uma tia na Flórida.
Hite recebeu seu bacharelado e mestrado em história pela Universidade da Flórida em Gainesville em meados da década de 1960. Ela frequentou a escola de pós-graduação em Columbia, onde começou a fazer um doutorado em história social, mas saiu quando foi informada de que não poderia escrever sua dissertação sobre sexualidade feminina.
Hite se casou com Horicke, que era 19 anos mais jovem que ela, em 1985 em Nova York. Ela se mudou para a Europa com ele em 1989 e, depois de renunciar ao passaporte dos EUA em 1995, tornou-se cidadã alemã. Mais tarde, eles se divorciaram e ela se estabeleceu no norte de Londres com seu segundo marido, Sullivan.
Hite deu palestras em universidades de todo o mundo e escreveu vários outros livros, incluindo um livro de memórias, “The Hite Report on Hite: A Sexual and Political Autobiography” (2000).
Shere Hite faleceu aos 77 anos em 9 de setembro de 2020, em sua casa em Londres.

Seu marido, Paul Sullivan, confirmou a morte ao jornal britânico The Guardian. Segundo uma amiga de Hite teria dito ao jornal, ela sofria com as doenças Alzheimer e Parkinson.

O livro já vendeu mais de 50 milhões de cópias em todo o mundo desde a sua publicação em 1976, sendo hoje “incontestável a importância que a obra de Shere Hite teve no alargamento do debate sobre o feminismo e sobre a saúde e bem-estar da mulher”, destaca a Bertrand, que edita Shere Hite em Portugal.

(Fonte: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades – NOTÍCIAS / BRASIL / CIDADES – 12 SET 2020)

Com The New York Times

(Fonte: https://oglobo.globo.com/sociedade – SOCIEDADE / por New York Times – 12/09/2020)

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