Se tornou a primeira pessoa a observar um fenômeno estranho que intrigou os oceanógrafos por mais de um século: a água morta

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‘Água morta’: cientistas revelam mistério de um século

Um estudo na França explicou um fenômeno estranho que movimenta navios para frente e para trás, e que intrigou oceanógrafos desde que foi observado pela primeira vez em 1893 pelo explorador norueguês Fridtjof Nansen.

 

 

O Fram, navio do aventureiro norueguês Fridtjof Nansen, foi pego em ‘água morta’ nas águas do Ártico em 1893. (Foto: Getty Images / BBC News Brasil)

 

 

Nascido na Noruega em 1861, Fridtjof Nansen se destacou como cientista, explorador, diplomata e humanitário. Hoje, sua coragem e compaixão continuam sendo uma inspiração para milhões de pessoas.

 

Aos 27 anos, Nansen já havia escrito sua tese de doutorado sobre o sistema nervoso central e feito a primeira travessia nas trincheiras de gelo da Groenlândia. Em breve ele lideraria uma expedição de 25 meses para o Oceano Ártico, aproximando-se do Polo Norte mais do que qualquer pessoa antes.

No entanto, Nansen é mais conhecido por seu trabalho visionário em nome dos refugiados. Enquanto a Europa lutava para se reconstruir após a Primeira Guerra Mundial, ele dirigiu a primeira grande operação humanitária da Liga das Nações, que consistiu na repatriação de 450 mil prisioneiros de guerra. Seu intelecto, valor e carisma mostraram-se fundamentais para ganhar o apoio de governos e agências de voluntariado.

 

Devemos hastear nossa bandeira em todos os países e estabelecer os laços de fraternidade em todo o mundo”.

Fridtjof Nansen

 

 

Nansen serviu como primeiro Alto Comissário para Refugiados da Liga das Nações de 1920 a 1930. Além de ter ajudado centenas de milhares de refugiados a voltar para casa, seus esforços permitiram que muitos outros se tornassem residentes legais e achassem trabalho nos países onde haviam encontrado refúgio.

 

Nansen viu que um dos maiores problemas enfrentados pelos refugiados era a falta de documentos de identificação internacionalmente reconhecidos. Sua solução, que passou a ser conhecida como “passaporte de Nansen”, foi o primeiro instrumento jurídico para a proteção internacional dos refugiados.

 

Quando a fome eclodiu na Rússia em 1921-1922, Nansen organizou um programa de ajuda para milhões de vítimas. Por seu trabalho crucial, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1922.

 

Nansen passou o resto de seus anos trabalhando incansavelmente para os refugiados e se preparando para uma última expedição polar. Sempre um homem de visão e ação, ele estava fazendo planos para pilotar um avião pelo Ártico quando morreu em 1930, aos 69 anos. O ACNUR fundou o Prêmio Nansen em 1954 em sua homenagem.

 

 

Em 1893, o explorador norueguês Fridtjof Nansen iniciou uma expedição ao Polo Norte que lhe daria fama mundial por quebrar um recorde de latitude na região.

Essa jornada também o tornaria a primeira pessoa a observar um fenômeno estranho que intrigou os oceanógrafos por mais de um século: a água morta.

 

Camadas

 

Onze anos depois, em 1904, o físico e oceanógrafo sueco Vagn Walfrid Ekman conseguiu identificar o que causou essa anomalia.

 

Ekman demonstrou em um laboratório que as ondas formadas nesta parte do Oceano Ártico abaixo da superfície, entre camadas de sal e água doce — e que têm densidades diferentes —, interagiam com o navio, gerando resistência.

 

No Ártico, camadas de diferentes salinidades são misturadas na água. (Foto: Getty Images / BBC News Brasil)

 

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Ele atribuiu o fenômeno ao derretimento das geleiras, formando uma camada de água fresca sobre o mar, mais salgada e densa.

No entanto, em seus testes de laboratório, Ekman viu que as ondas de arrasto geravam oscilações na velocidade do navio.

O movimento era diferente das observações de Nansen, cujo navio parava a uma velocidade constante e baixa — o que era anormal.

 

Até agora, ninguém foi capaz de explicar essas diferenças, nem entender exatamente como o efeito da água morta funciona.

Mas uma equipe interdisciplinar do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), principal instituição de pesquisa da França e da Universidade de Poitiers, acredita que descobriu como responder aos dois mistérios.

‘Esteira’

O grupo de físicos, especialistas em mecânica dos fluidos e matemáticos franceses usou uma classificação matemática de diferentes ondas e uma análise de imagens experimentais em escala subpixel para estudar o fenômeno.

A água morta prende o navio e o move para frente e para trás, como uma esteira de malas no aeroporto. (Foto: Getty Images / BBC News Brasil)

Em um artigo publicado na revista científica PNAS, no início de julho, eles concluíram que as variações de velocidade descritas por Ekman ocorrem por causa da geração de ondas que agem como uma espécie de “esteira”.

Essa “esteira” faz com que os barcos se movam para frente e para trás.

Os cientistas também conseguiram unificar as observações de Ekman com as de Nansen, alegando que o efeito oscilante é apenas temporário.

Eventualmente “o navio acaba escapando e atinge a velocidade constante que Nansen descreveu”, diz o estudo.

Os especialistas destacaram que o fenômeno ocorre não apenas em locais com geleiras, mas em todos os mares e oceanos onde águas de diferentes densidades se misturam.

 

“O fenômeno também é encontrado nos lagos frios das montanhas no verão, porque há estratificação de temperatura e, portanto, existe o risco de os nadadores se afogarem”, disse o coautor do estudo, Germain Rousseaux, em entrevista ao jornal espanhol ABC.

 

Rousseaux acrescentou que o fenômeno também ocorre na foz de rios como o Orinoco, na América do Sul, devido ao fluxo de rios com sedimentos na água salgada do mar.

 

A frota de Cleópatra e Marco Antonio ficou presa em águas mortas durante a Batalha de Accio? (Foto: Getty Images / BBC News Brasil)

 

 

Cleópatra

 

Curiosamente, este estudo foi realizado não para desvendar o que aconteceu com Nansen mais de um século atrás, mas para descobrir um mistério muito mais antigo.

 

A pesquisa faz parte de um grande projeto que investiga por que, durante a Batalha de Accio ou Actium (no ano 31 aC), na Grécia antiga, os grandes navios de Cleópatra e Marco Antonio perderam uma batalha para embarcações mais fracas do imperador romano Augusto.

A Baía de Accio, que tem todas as características de um fiorde, aprisionou a frota da rainha do Egito em águas mortas?

 

Isso foi realmente o que os cientistas franceses se perguntaram.

 

“Agora, temos outra hipótese para explicar essa derrota retumbante, que nos tempos antigos era atribuída a rêmoras, pequenos peixes que teriam ficado presos ao casco, segundo a lenda”.

(Fonte: https://www.terra.com.br/noticias/ciencia – NOTÍCIAS / CIÊNCIA / Redação – BBC News Mundo – 2 AGO 2020)

BBC News Brasil – Todos os direitos reservados. 

(Fonte: https://www.acnur.org/portugues – AGÊNCIA DA ONU PARA REFUGIADOS – BRASIL)

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