Robert Mugabe, foi o primeiro líder do Zimbábue após a independência do país africano, governou por quase quatro décadas

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Robert Mugabe: de herói guerrilheiro a líder autoritário, as muitas faces do homem que comandou o Zimbábue por 37 anos

Mugabe foi o primeiro líder do Zimbábue após a independência do país africano

 

 

Em imagem de arquivo, então presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, faz discurso transmitido pela televisão — (Foto: AP Photo)

 

 

O herói que virou déspota no Zimbábue

 

 

 

Robert Mugabe (Rodésia, 21 de fevereiro de 1924 – Singapura, 6 de setembro de 2019), ex-chefe de estado, que governou o país entre 1980 e 2017, governou o Zimbábue por quase quatro décadas

 

 

Mugabe foi deposto por um golpe militar em novembro de 2017, o que pôs fim à sua liderança de 37 anos.

 

 

À medida que a economia do Zimbábue ia de mal a pior e, finalmente, se tornou desastrosa, a morte política e, até mesmo física, de Robert Mugabe foi prevista muitas vezes. Mas ele sempre confundiu seus críticos.

Por ter sido um dos ícones da luta pela independência do Zimbábue, muitos o consideraram um herói que acabou com o governo da minoria branca na nação africana, ampliando o acesso à saúde e educação para a população negra.

Mas, para o número crescente de críticos que acumulou, se tornou a caricatura de ditador que destruiu um país inteiro para permanecer no cargo. Seus últimos anos de governo foram marcados por violações de direitos e corrupção.

 

 

Robert Mugabe apoaiva a mulher em suas ambições políticas — (Foto: Jekesai Njikizana / AFP Photo)

 

 

 

Os marcos da vida de Robert Mugabe

 

– 1924: Nasceu em 21 de fevereiro, na Rodésia, então colônia britânica na África.

– 1964: Foi preso por mais de uma década por criticar o governo da Rodésia.

– 1980: Ganhou as eleições pós-independência.

– 1996: Casou-se com Grace Marufu.

– 2000: Milícias pró-Mugabe invadem fazendas de brancos e atacam apoiadores da oposição.

– 2008: Ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições, atrás de Morgan Tsvangirai, que se retira do segundo turno em meio a ataques aos seus apoiadores.

– 2009: Em meio a um colapso econômico, empossou Tsvangirai como primeiro-ministro, em um conturbado governo nacional que durou quatro anos.

– 2017: Retirou do poder o antigo aliado Emmerson Mnangagwa, então vice-presidente, abrindo caminho para que sua mulher, Grace, o sucedesse. Forças armadas intervêm e Mugabe é retirado do comando do partido e acaba renunciando.

– 2019: Faleceu no dia 6 de setembro.

Ícone da luta de libertação

 

 

 

 

Mesmo depois de 37 anos no poder, Mugabe ainda mantinha a mesma visão de mundo – as forças socialistas e patrióticas do Zanu-PF ainda estavam lutando contra os “irmãos maus” do capitalismo e colonialismo.

Qualquer crítico era considerado como “traidor e vendido” – um retorno à guerra de guerrilhas, quando esses rótulos podiam representar uma sentença de morte.

Em 2000, diante de uma forte oposição pela primeira vez, Mugabe destruiu o que um dia já foi uma das economias mais diversificadas da África, com o objetivo de reter o poder. Confiscou fazendas de proprietários brancos, que eram a espinha dorsal da economia do país, e assustou doadores internacionais. Mas, em termos meramente políticos, ele venceu seus inimigos – continuou no poder.

Mugabe sempre colocou a culpa dos problemas econômicos do Zimbábue em uma trama armada pelos países ocidentais, comandados pelo Reino Unido, para retirá-lo do poder devido ao confisco de fazendas cujos donos eram brancos. Já seus críticos culpam o próprio Mugabe, dizendo que ele demonstrou não compreender como uma economia moderna funciona.

 

 

 

Mugabe disse uma vez que o país nunca iria quebrar – parecia que ele estava disposto a testar sua teoria até o limite, com o Zimbábue registrando a mais rápida queda econômica do mundo e uma inflação de 231 milhões por cento em julho de 2008.

 

 

O professor Tony Hawkins, da Universidade do Zimbábue, observou que, com Mugabe, “sempre que a economia se metia no caminho da política, a política ganhava”.

Poder a qualquer custo

 

 

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Mugabe e seus apoiadores pareciam usar táticas de guerrilha.

Depois de ter sofrido a primeira derrota eleitoral de sua carreira, em um referendo de 2000, Mugabe liberou sua milícia pessoal – veteranos de guerra apoiados pelas forças de segurança – para usar violência e assassinato como estratégia eleitoral.

Oito anos depois, uma situação parecida ocorreu quando Mugabe perdeu o primeiro turno das eleições presidenciais para o seu antigo oponente Morgan Tsvangirai (1952-2018).

Quando necessário, todas as ferramentas do Estado – as forças de segurança, os serviços civis, a mídia estatal – que eram controlados principalmente por membros do partido Zanu-PF, foram usados em benefício do partido no poder.

O homem que lutou pelo “um homem, um voto” introduziu uma exigência de que eleitores provassem seu local de residência com uma conta de consumo, o que os jovens e desempregados apoiadores da oposição não costumam ter.

Na verdade, os sinais da sua atitude em relação à oposição estavam visíveis desde o início dos anos 1980, quando membros de uma brigada treinada pela Coreia do Norte foram enviados para Matabeleland, região de origem do seu rival de então, Joshua Nkomo (1917-1999). Milhares de civis foram mortos até que Nkomo aceitasse dividir o poder com Mugabe – episódio precursor do que viria a ocorrer com Tsvangirai.

 

 

Um dos inegáveis avanços de Mugabe, que se formou professor antes de se tornar presidente, foi a expansão da educação. O Zimbábue tem a mais alta taxa de alfabetização da África, de 90% da população.

O cientista político Masipula Sithole, já falecido, disse certa vez que ao expandir a educação, Mugabe estava “cavando sua própria cova”. Os jovens com acesso a educação poderiam analisar os problemas do Zimbábue por si próprios. E a maioria culpou a corrupção do governo e a má administração pela falta de empregos e o aumento dos preços.

Figura caricata

 

 

 

Mugabe frequentemente alegava estar lutando em prol dos camponeses pobres, mas a maior parte da terra que ele confiscou acabou nas mãos de pessoas do seu círculo pessoal.

O arcebispo sul-africano Desmond Tutu disse uma vez que o longevo presidente do Zimbábue tinha se tornado uma figura caricata do arquétipo do ditador africano.

Durante a campanha presidencial de 2002, ele começou a usar camisas coloridas e brilhantes estampadas com seu rosto – um estilo copiado por muitos governantes africanos autoritários.

Ao longo dos 20 anos anteriores, esse homem conservador só tinha sido visto em público vestido de terno e gravata ou em trajes de safári.

Muitos ficaram se perguntando por que ele não colocava os pés para o alto e aproveitava seus últimos anos ao lado de sua jovem família.

Mugabe afirmava ser um católico convicto. Fiéis da Catedral Católica de Harare eram ocasionalmente surpreendidos por tropas de segurança quando o então presidente aparecia para a missa de domingo.

Teve dois filhos com Grace, sua então secretária, quando era casado com Sally, sua popular primeira mulher. Mas foi Grace, que depois virou sua companheira, que no fim das contas provocou sua queda.

 

 

‘Rei’

 

 

Embora Mugabe tenha vivido além de muitas previsões, a crescente tensão nos últimos anos cobrou seu preço e sua aparência até então impecável começou a revelar sinais de severo envelhecimento.

Em 2011, um telegrama diplomático dos Estados Unidos vazado pelo Wikileaks sugeriu que Mugabe estivesse com câncer de próstata.

 

Mas ele sempre teve um estilo de vida saudável. Grace já afirmou que ele acordava às 5 da manhã para fazer exercícios, inclusive ioga. Ele não bebia álcool ou café e era vegetariano.

Manifestantes protestam contra o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe — Foto: Mike Hutchings/ Reuters

Menino solitário

Mugabe nasceu em 21 de fevereiro de 1924 em uma família católica na missão de Kutama, ao noroeste de Harare. Era descrito como um menino solitário e estudioso, que sempre estava com um livro na mão, mesmo quando cuidava do gado. O pai abandonou a família quando ele tinha 10 anos.

Formou-se professor. Inicialmente se identificou com o marxismo e durante o período de estudante na Universidade de Fort Hare, na África do Sul, conviveu com muitos dos futuros líderes sul-africanos.

Depois de dar aulas em Gana, onde foi muito influenciado pelo presidente e fundador do país, Kwame Nkrumah (1909-1972), decidiu retornar à Rodésia, como era chamado do Zimbábue antes da independência. Ele foi detido em 1964 por suas atividades políticas. Passou 10 anos na prisão.

Herói da independência

Robert Mugabe é fotografado durante comício em Harare (imagem de arquivo) — (Foto: Reuters/Philimon Bulawayo)

Seu filho de quatro anos, de seu primeiro casamento com a ganesa Sally Hayfron, morreu quando estava na prisão. O então líder da Rodésia, Ian Smith, impediu que ele comparecesse ao funeral.

Na década de 1970, liderou uma campanha de guerrilha contra o governo da ex-colônia britânica.

Em 1979, a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, reconheceu oficialmente a independência da Rodésia. No ano seguinte, Mugabe foi eleito primeiro-ministro.

No início de seu mandato, ele conseguiu unir a população, através de uma política de reconciliação racial. Por ter sido um dos ícones da luta pela independência, muitos o consideraram um herói que acabou com o governo da minoria branca na nação africana, ampliando o acesso à saúde e educação para a população negra.

Robert e Grace Mugabe se casaram em 1996 e têm três filhos; ela era datilógrafa do presidente — (Foto: Jekesai Njikizana/AFP)

Últimos anos de governo

Porém, no poder, Mugabe se revelou um autocrata, que levou a economia do Zimbábue à ruína. Seus últimos anos de governo foram marcados por violações de direitos e corrupção.

“Sua verdadeira obsessão nunca foi a riqueza pessoal, e sim o poder”, declarou o biógrafo Martin Meredith.

O biógrafo conta que ele permaneceu no comando “por meio da violência e da repressão, atacando os opositores políticos, transgredindo os tribunais, pisoteando nos direitos de propriedade, suprimindo a imprensa independente e manipulando as eleições”.

Com o tempo, a oposição a Mugabe começou a ganhar força. O tema da sucessão foi um tabu por várias décadas, mas depois que ele completou 90 anos a elite no poder iniciou uma luta implacável.

Grace, sua segunda esposa, uma ex-secretária 41 anos mais nova que Mugabe e que aspirava sucedê-lo, mas que foi suspensa pelo partido Zanu-PF.

Em novembro de 2017, Mugabe foi forçado a renunciar após perder o apoio da União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (Zanu-PF) e sofrer um golpe militar.

Parlamentares do Zimbábue comemoram a renúncia de Robert Mugabe — Foto: Jekesai Njikizana / AFP Photo

Anos importantes de Mugabe

  • 1924: Nasceu em 21 de fevereiro de 1924, na Rodésia, então colônia britânica na África.

 

 

  • 1964: Foi preso por mais de uma década por criticar o governo da Rodésia.

 

 

  • 1980: Ganhou as eleições pós-independência.

 

 

  • 1996: Casou-se com Grace Marufu.

 

 

  • 2000: Milícias pró-Mugabe invadem fazendas de brancos e atacam apoiadores da oposição.

 

 

  • 2008: Ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições, atrás de Morgan Tsvangirai, que se retira do segundo turno em meio a ataques aos seus apoiadores.

 

 

  • 2009: Em meio a um colapso econômico, empossou Tsvangirai como primeiro-ministro, em um conturbado governo nacional que durou quatro anos.

 

 

  • 2017: Retirou do poder o antigo aliado Emmerson Mnangagwa, então vice-presidente, abrindo caminho para que sua mulher, Grace, o sucedesse. Forças armadas intervêm e Mugabe é retirado do comando do partido e acaba renunciando.
Mugabe tinha 73 anos quando teve seu terceiro filho, Chatunga.
Sempre foi um homem orgulhoso de si mesmo.

Ele dizia que só sairia do poder quando a “revolução” estivesse terminada. Estava se referindo à redistribuição das terras que um dia pertenceram aos brancos. Mas ele também queria escolher seu sucessor, que deveria vir, com certeza, dos quadros do partido Zanu-PF.

Didymus Mutasa, que já foi um dos companheiros mais próximos de Mugabe, disse à BBC que, na cultura do Zimbábue, reis só eram substituídos quando eles morriam “e Mugabe é o nosso rei”.

 

 

Nem mesmo seus aliados mais próximos estavam preparados para a conversão do Zimbábue em uma monarquia, com o poder nas mãos de uma única família.

Robert Mugabe faleceu em 6 de setembro de 2019, aos 95 anos, em um hospital em Singapura, onde recebia tratamento médico há cinco meses. A saúde do ex-presidente se deteriorou nos últimos anos, o que levou à sua morte.

Emmerson Mnangagwa, atual chefe de estado do país, anunciou a morte do ex-líder, que era visto por alguns como ditador e por outros como herói da independência da ex-colônia britânica.

“É com grande tristeza que anuncio a morte do pai fundador do Zimbábue, o antigo presidente Robert Mugabe. Que a sua alma descanse em paz eterna”, afirmou no Twitter.

“O comandante Mugabe era um ícone da libertação, um pan-africano que dedicou sua vida à emancipação […] de seu povo. Sua contribuição para a história de nossa nação e de nosso continente jamais será esquecida. Que sua alma descanse em paz”, completou o presidente.

(Fonte: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2019/09/06 – NOTÍCIAS / INTERNACIONAL / Por Joseph Winter / BBC News – 06/09/2019)
(Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/09/06 – MUNDO / NOTÍCIA /  France Presse / Por G1 – 06/09/2019)

(Fonte: https://www.terra.com.br/noticias/mundo – NOTÍCIAS / MUNDO / Por Joseph Winter – BBC News – 6 set 2019)

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