Protagonizou o primeiro beijo trans da TV brasileira

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EXCLUSIVA COM CAROL MARRA

 

Não queria ser pioneira, diz atriz que deu o 1º beijo trans da TV brasileira

 

Carol Marra sobre representatividade: “Queria ser mais uma, não só a pioneira”

 

No elenco da próxima novela da Globo, a atriz fala sobre vida pessoal, trabalhos e falta de oportunidade às pessoas trans: “Muitas meninas queriam fazer o que estou fazendo”

Aos 44 anos, a jornalista e atriz Carol Marra está vivendo um dos momentos mais badalados de sua carreira. Um dos principais motivos é que, a partir de novembro, vai ao ar seu grande retorno à televisão, desta vez como parte do elenco principal de “Quanto Mais Vida Melhor”, próxima novela das 7 da TV Globo.

Ela interpretará Alice, uma alta executiva em uma empresa de cosméticos que deve ter um papel importante na trama. “É uma história linda, foi um presente. Estou muito feliz porque é algo bem desafiador. Já fiz uma novela anteriormente, mas foi uma participação. Estou empolgada”, diz Carol com exclusividade ao iG Queer.

 

Carol vai atuar ao lado de nomes como Mateus Solano, Vladimir Brichta, Giovanna Antonelli e Júlia Lemmertz. Carol foi convidada para o papel por Allan Fiterman, diretor geral da novela, e Gui Gobbi, produtor.

 

“Está sendo um aprendizado enorme e estou fazendo muitas amizades”. Entre os novos laços estão a própria Giovanna Antonelli. “Ela é uma querida, me dá várias dicas, uma superparceira de cena. Está sempre de bom humor, resolve a cena e te puxa para o meio dela. A Júlia [Lemmertz] também é uma pessoa querida, quero levar para a vida”, diz.

 

Esse também foi um momento importante para trabalhar com pessoas que Carol já admirava. É o caso da diretora Ana Paula Guimarães, conhecida como Catu por ter sido uma das paquitas da Xuxa. “Meu coração veio na boca. Eu queria ser uma paquita desde criança, quando era um menino. Ver a Catu me dirigindo é um sonho”.

 

Carol também revela ter ficado emocionada com o tratamento que tem recebido na TV Globo. Ela garante que o elenco da novela é completamente diverso e que se sente respeitada desde o momento em que chega na emissora até a hora de ir embora.

 

“Fico muito feliz que a TV Globo, os produtores e diretores estejam tendo esse novo olhar para a diversidade da vida. Ser reconhecida pela minha capacitação profissional e não por meu gênero ou condição sexual é muito importante”, conta.

 

Oportunidade às pessoas trans

 

Há alguns anos, Carol afirmou que seu desejo como atriz era não representar apenas personagens trans, mas dar vida a personagens fortes, independentemente do gênero, e transformar o telespectador. Perguntada sobre se o desejo se tornou realidade, ela diz que sim, mas com ressalvas. “A gente vai caminhando a passos largos com saltos altíssimos”, diz.

 

“Na Grécia Antiga os homens faziam papéis masculinos e femininos. Ator não tem parte disso, ele empresta seu corpo e conta sua história independentemente do que ele tem no meio das pernas. Qualquer ator teria essa capacidade nos dias de hoje. A arte vem em primeiro lugar”, Carol acrescenta.

 

Quando perguntada sobre sua importância para a representação e visibilidade de pessoas trans, a atriz não esconde o desconforto. Ela assume que não é muito fã da responsabilidade e que se sente pressionada diversas vezes. Os motivos para isso são, principalmente, a falta de normalização do corpo e falta de oportunidades para as pessoas trans.

 

Para contextualizar, ela se lembra de sua participação na série “Espinosa”, exibida pela GNT, em que protagonizou um beijo com o ator Paulo Verlings. A cena foi considerada como o primeiro beijo trans da televisão brasileira. Apesar de celebrar a importância do momento, o espetáculo em torno do beijo se tornou incômodo.

 

“Isso para mim é uma coisa tão normal, mas o que é uma normalidade para mim pode não ser para o outro. Acho que é preciso normalizar os corpos. São mulheres e homens qualquer que têm família, sonhos, também sangram, e como tal merecem respeito. Ninguém precisa gostar, mas o respeito é importante”, explica.

 

Apesar da representatividade ser importante, ser tratada como a primeira a fazer algo a faz pensar nas outras mulheres trans ou travestis que não puderam viver momentos como os que ela viveu. “Tem muita menina que queria estar ali fazendo o que estou fazendo. Não existe melhor nem pior, mas as que não estão aqui é porque não tiveram oportunidade”, começa.

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“As pessoas precisam de oportunidades para desenvolverem seus talentos. Sou muito grata pelas oportunidades que estou tendo e adoraria que outras meninas também as tivessem. Fico orgulhosa de certa forma, fui pioneira em várias coisas, mas o que eu queria era ser mais uma, eu não queria ser só a pioneira. Eu olho lá a história de tantas meninas bonitas e supertalentosas que não tiveram essa mesma oportunidade. A realidade delas é muito cruel. Eu sou o caso fora da curva”, finaliza.

 

Além do audiovisual, Carol é conhecida por ter quebrado paradigmas na moda. Ela foi a primeira pessoa trans a desfilar nas passarelas do Minas Trend Preview, passando ainda pelo Fashion Rio e São Paulo Fashion Week. Estampou pela primeira vez a capa das revistas Vogue Paris e a brasileira Trip.

 

“A moda abriu outras possibilidades para mim. Foi lá que alguém me viu e foi como participei de novelas e outros projetos”. Esse alguém citado por Carol foi um editor da Vogue que a descobriu nos bastidores de uma das edições do Fashion Rio. “Tenho muito a agradecer”.

 

Seu último desfile foi há três anos para o estilista Ronaldo Fraga, na São Paulo Fashion Week. Vez ou outra ela faz aparições pontuais em desfiles, mas diz que a prioridade número um não é mais essa. “Eu já sou uma senhora, né? Concorrer com a menina de 17 anos é muito cruel, já não tem aquele colágeno mais. Acabo deixando isso para o meu Instagram”, afirma.

 

A chavinha mudou quando ela se tornou parte do elenco da série “Psi”, da HBO, sua primeira série. “Fui convidada para fazer e ali fui picada pelo bicho da interpretação. Vi que era isso que eu queria para viver a minha vida”. Foi com essa decisão que descobriu a sua grande paixão: o cinema.

 

Em 2017, ela atuou em “Berenice Procura”, também dirigido por Allan Fiterman, e “A Glória e a Graça”, ao lado de Carolina Ferraz. Neste ano, ela foi escolhida como Melhor Atriz no Festival de Cinema de Muriaé por seu trabalho no curta-metragem “Charlotte”, em que é protagonista. No fim deste ano, ela deve rodar seu primeiro longa como protagonista em Portugal.

 

Paralelo a isso, também teve tempo de assumir o texto da peça “A Mulher Que Virou ONG”, sob direção de Jorge Farjalla. O monólogo escrito por Leila Ferreira, que representa os dilemas de uma mulher de meia idade, já foi interpretado antes por Denise Fraga e Cláudia Rodrigues. “Caiu no meu colo e abracei com carinho. Vai ser uma experiência bacana”. A peça precisou ser adiada devido à pandemia e terá sua temporada remarcada.

 

Carol também tem estampado campanhas publicitárias e fechado acordo com diversas marcas. “Acabei de fechar um contrato de um ano com uma empresa de cosméticos poderosa, muito grande”. Carol, que também é embaixadora da L’Oréal e representa marcas como Colgate e Absolut, está animada com a abertura do mercado publicitário para as pessoas trans. “É um olhar novo sobre a diversidade e sobre a vida que as marcas já estão abraçando”.

 

Vida pessoal

 

As gravações da novela no Rio de Janeiro fizeram com que Carol voltasse a morar no Rio de Janeiro nove anos após se mudar para São Paulo. Voltar à Cidade Maravilhosa foi uma conquista importante já que “foi lá que a Carol aflorou”, como diz a própria. “Essa é a cidade onde comecei a escrever minha história e meu retorno marca mais um capítulo nela. É o lugar onde de fato posso ser livre, estava com muita saudade. A boa filha à casa torna”.

 

A rotina corrida da vida profissional colocou a cerimônia de seu casamento com o empresário Tarik Migliorini de lado. “Não tem nem data [para acontecer]. Estou num momento em que a minha carreira é mais importante. O casamento pode esperar”, explica. Os dois anunciaram o noivado em janeiro deste ano.

 

Os preparativos para a mudança e a novela agora dividem espaço com outros hobbies que a atriz começou e foi aperfeiçoando durante a pandemia. Ela diz que se tornou uma chef de cozinha, se aprofundou em literatura e aproveitou o momento como um “período de férias”, já que não teria como descansar em uma rotina normal. Mesmo assim, o momento não ficou menos difícil. “Fiquei sem ver meus amigos, não vi minha mãe pessoalmente por um ano, mas precisamos tirar o saldo positivo das coisas”, reflete.

 

Os próximos planos agora é encher a casa nova de bichos e, em um par de anos, filhos. “Eu amo crianças, sou apaixonada. A gente tem que perpetuar esse amor e fazer com que ele continue. Quero mostrar para os meus filhos que, apesar de todo esse momento difícil, o amor sempre vem. O amor é lindo”.

(Fonte: https://queer.ig.com.br/2021-08-23 – Por Camila Cetrone | 23/08/2021)

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