O primeiro teste de carro no país

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O nascimento da indústria automobilística brasileira e o primeiro teste de carro no país

Em 1959, O GLOBO publicou a avaliação detalhada da Rural-Willys. Era uma novidade no jornalismo nacional

O repórter Mauro Salles posa no intervalo de um teste com o Aero-Willys 1960. - (Foto: ARQUIVO/14-12-1960)

O repórter Mauro Salles posa no intervalo de um teste com o Aero-Willys 1960. – (Foto: ARQUIVO/14-12-1960)

 

 

O aumento do número de automóveis no Brasil já era assunto do GLOBO em sua primeira edição. No país, só existiam carros estrangeiros, quase todos trazidos por importadores independentes (só Ford e General Motors tinham linhas de montagem por aqui). Em 6 de julho de 1933, o jornal lançou sua primeira coluna sobre o tema: chamava-se “Automobilismo” e publicava notícias vindas do exterior. De material nacional, havia apenas algumas notas e testes de acessórios.

O grande salto só viria com o nascimento da indústria automobilística brasileira. O segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954) restringiu a importação de veículos prontos e criou comissões para atrair fábricas de carros e caminhões para o país.

 

 

Isto se refletiu no aumento de reportagens sobre o setor. Em 1956, a Romi iniciou a produção da pequena Isetta, o primeiro automóvel produzido no Brasil – e O GLOBO já havia revelado os planos da empresa meses antes. No mesmo ano, a Vemag lançou a caminhonete DKW. Foi nesse momento de transformação que o jornalista Mauro Salles criou a coluna semanal “Automóveis, Lanchas, Motos e Aviões”. A seção, contudo, ainda se mantinha muito ligada às notas internacionais.

 

A revolução nas páginas aconteceu em novembro de 1959, quando Salles lançou uma nova coluna, “Automóveis e Aviões”, substituindo a anterior. O transporte aéreo continuou incluído por também ser um setor, literalmente, em ascensão. Mas a coluna rapidamente iria virar uma pioneira referência para o jornalismo automotivo brasileiro.

 

 

– Falar de automóveis era tabu na imprensa nacional. Na época, muitos jornais brasileiros consideravam as informações sobre automóveis, propaganda ou entretenimento. Não era visto como jornalismo – lembrou Salles em uma entrevista publicada no GLOBO em 2005.

 

O destaque era para as notícias sobre o mercado nacional e, pela primeira vez na imprensa brasileira (antes mesmo das revistas especializadas), foram feitos testes com medições.

 

O primeiro teste, da Rural-Willys, foi publicado no dia 5 de dezembro de 1959. A reportagem tinha medições de aceleração, consumo, retomada e até margem de erro do velocímetro. Além disso, havia uma ficha técnica bem completa e uma análise de prós e contras do veículo.

 

A Rural-Willys no primeiro teste de carros da imprensa brasileira, em dezembro de 1959 - (Foto: Agência O Globo)

A Rural-Willys no primeiro teste de carros da imprensa brasileira, em dezembro de 1959 – (Foto: Agência O Globo)

 

 

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Testar veículos era algo inovador no fim dos anos 50 e início dos 60. Para começar, era preciso explicar o conceito aos diretores das indústrias recém-instaladas.

Salles pedia um carro emprestado e deixava claro aos executivos da fábrica que teste não era matéria paga nem propaganda – assim, que não esperassem ler apenas sobre os pontos positivos dos modelos.

Além disso, o jornalista e seu assistente José Lago tiveram que criar métodos para fazer as medições. As acelerações e retomadas eram feitas com o cronômetro na mesma mão que segurava o volante. Marcações na pista ajudavam nas avaliações de aceleração e de margem de erro do velocímetro. Tudo era realizado numa reta da antiga estrada Rio-São Paulo.

No teste de consumo, um reservatório para um litro de combustível ia preso sob o capô. O carro rodava até acabar o combustível.

 

 

Teste pioneiro: a coluna de 5-12-1959 com o relatório completo sobre a nova Rural. - (Foto: Reprodução)

Teste pioneiro: a coluna de 5-12-1959 com o relatório completo sobre a nova Rural. – (Foto: Reprodução)

 

 

Mesmo nas críticas, o texto de “Automóveis e Aviões” não perdia o humor. A alavanca de marchas do Renault Dauphine, por exemplo, foi descrita como “parecia uma agulha de tricô fincada numa gelatina”.

 

– Usei como base o trabalho feito em revistas por jornalistas como Tom McCahill, da americana “Mechanix Illustrated” e Claude Vogel, da francesa “L’Automobile”. De McCahill também segui o lado galhofeiro de fazer críticas, mas sem destruir o carro – contou Salles, que dava tom leve aos textos para compensar o peso das informações técnicas.

 

O estilo descontraído permitia bolar pautas como o teste de um Volkswagen Sedan (na época, ainda não era Fusca) nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas. Alguém tinha feito um anfíbio desses na Europa e Salles comentou com o pessoal da VW do Brasil. Os engenheiros da marca prepararam o carro para a reportagem. Assim, com Salles ao volante, o Fusquinha desceu a rampa de barcos do clube Caiçaras e navegou.

 

Pauta criativa em 1960: com Salles, o Fusca desce da rampa do Caiçaras e navega na Lagoa - (Foto:Agência O Globo)

Pauta criativa em 1960: com Salles, o Fusca desce da rampa do Caiçaras e navega na Lagoa – (Foto:Agência O Globo)

 

 

Reportagens sobre as primeiras edições do Salão do Automóvel de São Paulo e de eventos internacionais também faziam parte da coluna. Em 1962, O GLOBO fez a primeira cobertura de um salão internacional, em Paris.

 

Salles deixou o jornal em 1965, para se tornar um famoso publicitário, mas os carros continuaram na pauta do jornal pelas décadas seguintes em colunas e suplementos como “Veículos e Transportes”, “Auto-Moto” e “CarroEtc”.


(Fonte: http://oglobo.globo.com/economia/carros -16466442#ixzz3dLk1qLGn – ECONOMIA- CARROS/POR JASON VOGEL – 17/06/2015)

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