O primeiro Campeonato Brasileiro

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O primeiro Campeonato Brasileiro, iniciado em 23 de agosto de 1959, foi vencido por um técnico argentino

O caminho para que o Campeonato Brasileiro chegasse ao formato atual foi longo, acidentado e começou há exatamente 60 anos, em 23 de agosto de 1959, quando teve início a primeira Taça Brasil. Com apenas 16 clubes, todos campeões estaduais do ano anterior, a competição transcorreu cheia de peculiaridades. As disputas eliminatórias eram realizadas em dois jogos e, no caso de empate de resultados, o saldo de gols não era levado em consideração, o que provocava a realização de um terceiro jogo. Foi assim que a decisão, entre Bahia e Santos, aconteceu no Maracanã, onde o tricolor de Salvador venceu o time de Pelé, diante de apenas 17.730 pagantes que, na maioria, apoiavam a equipe do Nordeste, então liderada por um técnico argentino, “importado” apenas a tempo de grande final.

Embora a conquista fosse tratada pelo meio esportivo e pela imprensa especializada, na época, como um autêntico Campeonato Brasileiro, e a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) tenha indicado o tricolor baiano como o primeiro representante brasileiro na Copa dos Campeões da América, a torcida precisou esperar bastante. A equiparação deste título ao de campeão nacional pela CBF só aconteceria em 2010. Até então, a entidade só chancelava os títulos a partir do Campeonato Nacional de Clubes, iniciado em 1971.

No segundo jogo da decisão, derrota para o Santos de Pelé na Fonte Nova: 2 a 0. Na Vila Belmiro, vitória tricolor | (Foto: Agência O Globo)

Desde o início, as dimensões continentais do país foram um problema para a realização da Taça Brasil, o que levou à regionalização da primeira fase da disputa, dividida em Zona Norte e Zona Sul. Àquela altura, o atual Estado do Rio estava dividido entre os antigos estados do Rio, representado pelo Manufatora, de Niterói, e Guanabara, representada pelo Vasco, que entrou apenas na semifinal, assim como o Santos, campeão paulista.

Na primeira fase regional, o alagoano CSA não ofereceu resistência: o Bahia o venceu por 2 a 0 na Fonte Nova e por 5 a 0 em Maceió. Contra o Ceará, empates em 0 a 0 e 2 a 2 forçaram a realização de um jogo de desempate, vencido por 2 a 0. Ao passar por essa etapa, o tricolor viveu um momento incomum para um time que seria campeão: sofreu também a derrota mais elástica da competição. Depois de vencer o Sport por 3 a 2, perdeu por 6 a 0 em Pernambuco. Mas conseguiu juntar os cacos no desempate, que venceu por 2 a 0.

Se a competição fosse disputada nos moldes atuais, o Bahia teria caído já nessa fase, por conta da diferença de gols. Mas, com a vitória sobre o rubro-negro pernambucano, o clube chegou à semifinal, contra o Vasco. No Maracanã, com gol de Alencar, o Bahia superou a equipe de Bellini e Almir Pernambuquinho por 1 a 0, mas levou o troco na Fonte Nova: 2 a 1. Gols de Roberto Pinto e Delém. Ari descontou.

Página de O GLOBO destacando o título do Bahia, na edição de 30 de março de 1959 | Reprodução

No primeiro jogo da decisão está um dos maiores orgulhos do Bahia. O time superou o Santos de Pepe e Pelé, por 3 a 2, em plena Vila Belmiro. Os dois astros do Peixe marcaram os gols dos donos da casa, enquanto Biriba e Alencar, duas vezes, garantiram aos visitantes o direito de empatar na Fonte Nova para ficar com o título. Mas o time do técnico Geninho foi parado pelo Peixe no segundo jogo. Coutinho e Pelé fizeram 2 a 0 para os paulistas, forçando o terceiro jogo e um reencontro com o Rio de Janeiro.

Por conta de uma excursão do Santos, o jogo de desempate só aconteceria no dia 29 de março de 1960. Recém operado das amígdalas, Pelé não poderia atuar no jogo decisivo. Se a ausência aumentava a confiança da torcida, o Bahia tratava de lembrar, mesmo com o Rei, venceu o primeiro jogo na Vila Belmiro. Mesmo com um título importante em vista, o treinador Geninho surpreendeu ao pedir para deixar o cargo, com saudades do Rio de Janeiro, que, ironicamente, viria a ser definido como palco da decisão.

Na Fonte Nova, a bola vai entrando para o gol de Delém, o segundo da vitória por 2 a 1 sobre o Vasco. Ele não aparece na imagem | (Foto: Agência O Globo/24-11-1959)

Depois de perder seu treinador, o Bahia efetivou a contratação de Carlos Volante, um ex-jogador argentino que, em campo, defendeu clubes em diferentes países, na América do Sul e na Europa. No Brasil, ele foi tricampeão carioca com a camisa do Flamengo. Foi por causa do jogador, aliás, que a posição de meio-campista passou a ser chamada, também, de volante. Em 1959, o argentino chegaria ao Bahia apenas para o último jogo. Além de se tornar o primeiro treinador campeão brasileiro, o argentino é até hoje o único técnico de fora do país a conquistar o título.

Na grande decisão no Maracanã, Coutinho, aos 27 da primeira etapa, abriu o placar para o Santos. Dez minutos depois, Vicente empatava em cobrança de falta. Léo, no primeiro minuto do segundo tempo, consumou a virada baiana, marcando seu oitavo gol, que lhe renderia o posto de artilheiro da competição.

Os minutos seguintes de tensão fizeram o elenco do Santos perdeu o equilíbrio. Isso se refletiria na expulsão de Getúlio e Formiga. Alencar, os 31, selou a vitória e garantiu que o primeiro título do Campeonato Brasileiro fosse para o Nordeste. O título fez justiça a àquela que, para mutios torcedores, é apontada como a geração mais vitoriosa do futebol do Bahia. A mesma base deste grupo conquistou ainda o pentacampeonato baiano entre 1958 e 1962 e a Taça da Amizade, no Uruguai, em 1959.

(Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post – ESPORTES / POR STÉFANO SALLES – 23/08/2019)
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