Josip Broz Tito, marechal, reeleito presidente da Iugoslávia em caráter vitalício

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À sombra do marechal

Mais de 100 líderes mundiais foram a Belgrado homenagear Tito

Josip Broz Tito (7 de maio de 1892, Kumrovec, Croácia – 4 de maio de 1980, Ljubljana, Eslovênia), marechal que lutou contra os russos na I Guerra Mundial – derrubando o czarismo – e se aliou a eles na II Guerra. À época, Tito liderava os partisans, guerrilheiros resistentes à ocupação nazista no Leste Europeu.

Ao fim do conflito, virou primeiro-ministro e depois presidente da Iugoslávia. Criada em 1918 como Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, só virou Reino da Iugoslávia em 1929. Com o fim da Guerra Fria, a então república socialista se dissolveu em 1991.

Desde então, originou os atuais Bósnia e Herzegovina, Eslovênia, Kosovo, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Croácia. A terra natal de Tito foi uma das primeiras repúblicas iugoslavas a se independer. A partir dos anos 2000, viu o turismo decolar por causa de suas praias, castelos e florestas exuberantes.

Tito foi reeleito no dia 30 de junho de 1974, aos 82 anos, para a presidência do Partido Comunista Iugoslavo, em Belgrado, desta vez em caráter vitalício. Em decisão tomada por unanimidade; em maio de 1974, Tito fora reeleito presidente da Iugoslávia, também em caráter vitalício. Ousado guerrilheiro e hábil estadista que ele foi, conduzindo por 35 anos o destino do país que fundou. O operário, agitador, soldado, general e estadista que unificou a Iugoslávia, e conseguiu torná-la intocável. Foi um estadista que uniu povos irrequietos, fundou uma nação, manteve-se longe dos blocos ideológicos.

Foi de longe, a mais notável feira diplomática da história mundial. Na capital iugoslava, Belgrado, concentraram-se durante três dias, nada menos que quatro reis, cinco príncipes, 33 presidentes de República e oito vices (entre eles o dos Estados Unidos), além de 28 primeiros-ministros, 49 ministros do Exterior, dois xeques e toda uma constelação de líderes mundiais – uma lista de presença adequada, para a homenagem final ao único herói que restava dos grandes combates da recente história internacional: Josip Broz “Tito”.

Havia fartas razões para tamanha pompa e universalidade. Ao contrário de tantos outros heróis que exibem glorioso passado, o velho marechal de 87 anos não só dispunha de uma biografia colossal, do tamanho do século XX, como continuava a criá-la em seus últimos dias. Era do inquietante presente, do incerto futuro da Europa sem Tito, que se falava nas discretas rodinhas em torno de seu caixão, no salão nobre do Parlamento – e muito raramente do ousado estadista, conduzindo por 35 ano0s o destino do país que fundou. O sepultamento do presidente John Kennedy, em 1963, foi por certo uma tocante tragédia americana. Winston Churchill, em 1965, e Charles de Gaulle, em 1970, simbolizavam no seu momento final o orgulho nacional reabilitado. As exéquias de Gamal Abdel Nasser, desorganizadas pela dor, propiciaram uma catarse do fatalismo árabe. E os solenes funerais de Stalin e Mao Tsé-tung não transpuseram as limitações da ideologia. Mas o homem que Belgrado sepultou nos jardins de sua casa às 15h15 no dia 8 de maio de 1980 – data do aniversário do fim da II Guerra Mundial – foi um estadista que uniu povos irrequietos, e, até seus últimos dias, continuou assegurando a paz naqueles conturbados confins europeus.

JOVANKA – A solene, esplêndida de cerimônia final foi sem dúvida um cenário à altura do grande herói. Sob pena de uma crise mundial -, teve a velá-lo reis, presidentes, chanceleres, ministro de todo o mundo, trabalhadores e até antigos inimigos. Um destes foi Koca Papovic, alto dirigente partidário que oito anos atrás divergiu de Tito e deixou a Liga Comunista: quando Papovic se aproximou do caixão, majestosamente colocado sobre uma carreta militar, no centro do grande salão do Parlamento, fez-se ao redor um silêncio incomum.

Em vez de silêncio foram a surpresa, o espanto, a emoção que tomaram os presentes e, pela televisão, todos os lares iugoslavos, quando entrou no salão – e, de volta, no cenário social do país – a familiaríssima Jovanka – Jovanka Broz, vinte anos mulher de Tito, que há três anos dele se separou e desapareceu completamente da vida de Belgrado. A seu lado estavam Zarko e Misho, os filhos que Tito teve de um casamento anterior. Em vestido simples, porte digno, e eventuais gestos descontrolados, ela acompanhou as várias solenidades até seu instante final. Quando Jovanka e Tito se separaram em junho de 1977, falou-se tanto de divergências conjugais quanto políticas. Mas não houve, formalmente, qualquer separação.

Na noite do dia 8 de maio, quando a maior parte das delegações já havia partido de Belgrado e a rotina descia novamente sobre a nação, continuavam a existir, vivos e intrigantes, os dois grandes problemas que atormentaram os 35 anos de poder de Tito: a precária coesão de seu país e a permanente ameaça soviética a sua independência.

A REGRA – Mais que os exóticos mecanismos constitucionais, ou os prometidos rodízios na liderança política, a herança real que a Iugoslávia começa a experimentar agora é esse estranho jogo de pressões em que se conhecem as cartas mas se teme pelas regras.

Na Constituição de 1974, talhada para uma Iugoslávia pós-Tito, montaram-se dois colégios, cada um com oito líderes (os das seis repúblicas, a saber Sérvia, Croácia, Eslovênia, Montenegro, Bósnia e Macedônia, e de duas regiões autônomas, Vojvodina e Kosovo). A esses homens cabe dirigir, cada um durante um ano, a presidência das Confederações de Repúblicas e a Liga Comunista. O atual presidente das Confederações, Lazar Kolisevski, terminará seu prazo no posto dia 16 de junho; o atual presidente da Liga, Stevan Doronjski, ficará até fins de setembro no posto.

Para o momento, essa é a regra. Ela pode continuar sendo cumprida, mas pode também desabar ao peso da força política de Doronjski, ou de outro velho guerrilheiro que acompanhou os sucessos de Tito e tem despontado como mais hábil estadista: Vladimir Bakaric, chefe de segurança política e de um certo Comitê pela Ordem Constitucional. Muitos diplomatas, em Belgrado, o têm como o nome mais indicado para a sucessão. Foi Bakaric quem, nos primeiros dias de janeiro, se dirigiu ao país, pela televisão, pedindo a união nacional enquanto Tito estivesse em tratamento em Liubliana.

LEGADO – A incerteza sobre se as regras vão funcionar já é, por si, um legado de Tito. Milovan Djilas, que até 1954 foi seu grande companheiro no poder e então se transformou em dissidente, traçou em recente artigo o caráter essencial do líder nacional: “Ele era um político pragmático, organizador, jamais um pensador profundo ou original”. Foi sua habilidade que gerou uma anomalia no atual quadro internacional: uma nação militarmente inexpressiva, que sobreviveu a gigantes como Hitler e Stalin; um país comunista que conta com a proteção das democracias ocidentais; que, ao liderar o movimento não-alinhado, critica soviéticos e americanos; e de cuja intocabilidade depende hoje a tranquilidade mundial. Enfim, uma região com a vocação natural para dividir-se mas que, para segurança de todos, deve continuar unida – contendo as tensões entre sérvios e croatas, abafando queixumes de muçulmanos deslocados, ignorando os sentimentos albaneses da região autônoma de Kosovo, mantendo os compromissos entre católicos e ortodoxos, e a convivência entre as culturas latina e eslava.

MANIA – A Iugoslávia pós-Tito pode, também, repetir alguns precedentes notáveis – onde muito se especulou e, ao final, nada aconteceu. Stalin foi onipresente na vida soviética, sua morte desencadeou uma feroz disputa pelo poder e o Kremlyn não só sobreviveu como, três anos depois, assistia à execração, por Nikita Kruschev, de sua longa obra política. Nasser incendiou o mundo árabe com seu brilho pessoal e num mundo mais complexo e incerto é Anuar Sadat quem desponta como talentoso condutor do destino dos egípcios.

Na China, a experiência foi mais fulminante: mal passaram dois anos da morte do grande Mao Tsé-tung, e o pragmático Deng Xiaoping muda os valores e os objetivos de toda uma nação de 900 milhões de pessoas. Na Espanha, havia clima de guerra civil crescente durante a longa agonia do generalíssimo Francisco Franco – artificialmente prolongada, justamente para se evitar o pior – e sua morte acabou abrindo caminho para duas promissoras carreiras,as do rei Juan Carlos e do atual primeiro-ministro, Adolfo Suárez.

MOEDA DE TROCA – No elogio final diante do corpo, o seu sucessor, Lazar Kolisevski, fazia eco dessa impressão: “De um país atrasado, que servia de moeda de troca”, Tito fez da Iugoslávia “uma nova palavra na história”, preparando-a “como se a guerra fosse estalar amanhã”. A frase era um excelente refrão para os amplos temas que mobilizavam os chefes de Estado e diplomatas de mais de 120 países. Assim, um trôpego, inesperado Leonid Brejnev discutiu a Ásia com Indira Gandhi – mas não achou serviço para seu intérprete de inglês. O chinês Hia Guofeng, evitando cruzar com Brejnev, procurava o japonês Masayoshi Ohira. O iraniano Sadeg Ghotbzadeh falava longamente com Pierre Auberg, o suíço que representa oficiosamente os Estados Unidos em Teerã. Helmut Schmidt reunia-se, enfim, com seu colega alemão oriental, Erich Honecker – coisa que o Kremlin proibira no começo de 1980.

Houve duas ausências surpreendentes: a do presidente francês Giscard d”Estaing e, sobretudo, a do presidente americano Jimmy Carter. Ao decidir mandar o vice-presidente Walter Mondale e a sua mãe, Lilian Carter, Carter decepcionou a Iugoslávia e irritou boa parte dos governos aliados. Vendo Mrs. Lilian desembarcar em Belgrado, um político iugoslavo comentou: “Nós esperamos canhões, ele manda flores”. Mais impiedoso, o Times de Londres chamou Carter de “cego às realidades à sua volta” – e as explicações da Casa Branca de que Carter não queria ver Brejnev apenas confirmaram os temores, hoje crescentes, de que o presidente dos Estados Unidos voa baixo.

Temer o pior, para os vários povos iugoslavos despojados de seu unificador natural, pode ser uma conclusão lógica de um quadro realmente difícil e precário. Mas pode ser, também, uma mania destes tempos – gerada por tantas incertezas do atual equilíbrio entre as nações.

(Fonte: Super Interessante – EDIÇÃO 381 – NOVEMBRO 2017 – ORÁCULO – CONEXÕES/ Por Tiago Jokura – Pág: 72/73)

(Fonte: Veja, 5 de junho, 1974 – Edição 300 – DATAS – Pág; 16)

(Veja, 14 de maio, 1980 – Edição 610 – IUGOSLÁVIA – Pág; 42)

Em 4 de maio de 1980 – Morreu o marechal Tito, responsável pela formação da Iugoslávia a partir da união de seis repúblicas dos Bálcãs.
(Fonte: http://www.guiadoscuriosos.com.br/fatos_dia – 4 de maio)

Em 4 de maio de 1980 – Morreu, em Liubliana, Iugoslávia, do estadista iugoslavo Josip Broz Tito, nascido em Kumrovec, Áustria – Hungria, em 25 de maio de 1892.
(Fonte: Correio do Povo – ANO 118 – N° 216 – GERAL – 4 de maio de 2013 – CRONOLOGIA/ Por Dirceu Chirivino – Pág; 16)

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