José Antônio Gonsalves de Mello, é considerado o maior estudioso da presença flamenga no Brasil

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Tempo dos Flamengos (1947), pesquisa exaustiva sobre a ocupação holandesa em Pernambuco, é uma referência internacional

José Antônio Gonsalves de Mello (Recife, em 16 de dezembro de 1916 – Recife, 7 de janeiro de 2002), formado em direito e ex-discípulo de Gilberto Freyre, o escritor chegou a estudar holandês para melhor manusear os documentos escritos nessa língua e arquivados no Instituto Arqueológico Pernambucano. Historiador se transformou assim numa legenda com seu nome inscrito no panteão dos Grandes de Pernambuco, nascido no Recife em 16 de dezembro de 1916, que escreveu mais de 30 livros. Ele é considerado o maior estudioso da presença flamenga no Brasil.

Graças a essas pesquisas, publicou, em 1947, quando tinha apenas 31 anos, um livro seminal sobre a invasão holandesa em Pernambuco, Tempo dos Flamengos, referência obrigatória sobre o tema. Mais tarde, Gonsalves de Mello, autor de trinta obras, fez um alentado estudo sobre a principal colônia de judeus na América do Sul, que ficava no Recife nos tempos de Maurício de Nassau. Motivo: os holandeses, que não eram católicos, não tinham inquisição. É dessa tradição que descende também Evaldo Cabral de Mello.

O maior historiador pernambucano dos últimos tempos, reconhecido na Europa pelos estudos sobre o domínio holandês no Brasil.

Embora não tenha reconhecimento popular no Brasil, o pernambucano José Antônio era considerado o maior historiador vivo do País pelo Instituto Histórico Brasileiro e tem destaque internacional. Em 1940, no Rio de Janeiro, com refugiados holandeses e Honório Rodrigues, criou o Instituto Brasil-Holanda. Na década de 70 foi eleito para a Academia Portuguesa de História, de Lisboa, a princípio como sócio-correspondente. Em janeiro 1972 foi condecorado pela rainha Juliana, dos Países Baixos, como Oficial da Ordem Orange Nassau, por causa dos estudos sobre o período holandês no Brasil.

Há menos de dois meses, o trabalho de José Antônio tornou-se visível mais uma vez, com a publicação, na Holanda, de uma de suas principais obras: Tempo dos Flamengos. Assim como a carreira do historiador, essa publicação tinha um destaque especial. Era a história do Brasil, que, pela primeira vez, estava chegando aos holandeses, contada por um brasileiro.

Obra mais importante sobre o domínio holandês, publicada no Brasil em 1947, Tempo dos Flamengos foi traduzida para o holandês e lançada na sede da Embaixada do Brasil em Haia (Holanda). Para os holandeses, José Antônio era tido como um teórico importante, definiu na época o pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e responsável pela edição holandesa do livro, Marcos Galindo.

CARREIRA -– Filho do médico Ulysses Pernambucano de Mello e Albertina Carneiro Leão de Mello, José Antônio nasceu no Recife. Tinha também um primo ilustre, o sociólogo Gilberto Freyre. Estudou no Ginásio Pernambucano, no Recife, e no Anglo-Brasileiro, no Rio de Janeiro. Depois entrou para a Faculdade de Direito do Recife. A carreira de historiador começou com pesquisas para o livro em formação, Casa Grande & Senzala, do primo Gilberto Freyre.

José Antônio Gonsalves de Mello deixou três filhos (além de Ulysses, Maria Dulce e Diva Maria), nove netos e um bisneto. O último livro foi publicado em 1998, uma coletânea de seus artigos publicados em jornais. Dois anos antes, foi publicada a segunda edição de Gente da Nação: Cristãos Novos e Judeus em Pernambuco 1542-1654.

Gonsalves de Mello estudou período holandês

O historiador José Antônio Gonsalves de Mello, com sua paixão pela documentação e pelo estudo da escrita antiga (paleografia), fez uma escola de professores que se dedicam à leitura de documentos do século 16 ao século 19. Esse legado deixado por ele foi lembrado com orgulho pela professora Socorro Ferraz, coordenadora do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

“Era dedicadíssimo ao estudo da História e respeitado no Brasil todo”, disse a professora, destacando que foi José Antônio, em 1970, quem organizou o curso de pós-graduação em História da UFPE. “Para que os alunos pudessem ler os documentos do período holandês no Nordeste brasileiro, dava aulas nesse idioma”, observou.

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Socorro Ferraz lembrou das inúmeras visitas que o professor José Antônio fez a arquivos da Holanda e de Portugal, em busca de mais informações sobre o período holandês. “Os historiadores que visitarem esses arquivos encontrarão, com certeza, o rastro deixado por ele.”

Em junho de 2001, José Antônio emocionou-se ao receber, em nome do reitor da UFPE, Mozart Ramos, a carta original de João Fernandes Vieira comunicando a Dom João IV, rei de Portugal, o fim do domínio holandês em Pernambuco, que durou de 1630 a 1654. O documento, integrado ao acervo do Departamento de História da universidade, foi doado por um historiador inglês.

O professor tem o reconhecimento dos judeus e estudiosos da cultura judaica por sua dedicação ao tema. É considerado o primeiro e principal historiador da presença judaica em Pernambuco no período holandês. Um de seus principais livros trata do assunto: Gente da Nação, que enfoca os cristãos novos e judeus em Pernambuco no período de 1542 a 1654.

José Antônio Gonsalves de Mello, 85 anos, morreu em 7 de janeiro de 2002, após sofrer uma parada cardíaca. Ele estava no Hospital Jayme da Fonte, em Recife, onde havia sido internado, desde o fim do ano de 2001, para tratamento de uma pneumonia.

(Fonte: Veja, 8 de outubro de 1997 – Edição 1516 – LIVROS/ Por João Gabriel de Lima, Ricardo Valladares e Neuza Sanches – Pág: 132/133)

(Fonte: Veja, 8 de outubro de 1997 – ANO 30 – Nº 40 – Edição 1516 – Livros/ Por João Gabriel de Lima, Ricardo Valladares e Neuza Sanches – Pág: 132/133/134/135)

(Fonte: http://www.nordesteweb.com/not0102 – 10/01/2002)

 

 

 

 

 

 

Gonsalves de Mello ficou consagrado como um dos maiores historiadores do país (Foto: Fernando Machado/Divulgação)

Gonsalves de Mello ficou consagrado como um dos maiores historiadores do país (Foto: Fernando Machado/Divulgação)


O homem e os papéis velhos
José Antônio Gonsalves de Mello revirou o passado do Brasil holandês para escrever um clássico da História
Ele começou a aprender neerlandês falado e escrito na Holanda no século XVII aos 17 anos, com os padres do colégio Sagrado Coração, no Recife. Só aos 29, depois de 12 anos estudando 31 maços de manuscritos em neerlandês copiados pelo historiador José Hygino Duarte Pereira entre 1885 e 1886 em Haia, na Holanda, escreveu sua obra máxima, Tempo dos Flamengos, publicada em 1947. O livro é a grande referência para quem deseja entender os anos de ocupação holandesa no Brasil (1630-1654). Gonsalves de Mello ficou consagrado como um dos maiores historiadores do país, poucos meses depois de ajudar a revisar uma nova edição do livro, relançado neste mês pela Topbooks. Tempo dos Flamengos só podia ser encontrado, e com sorte, nos melhores sebos. Agora, além de ressurgir na edição brasileira, acaba de ser publicado na Holanda, pela Walburg Pers.

O pernambucano fazia parte de um refinado clube de intelectuais dedicado à recuperação da história do Nordeste que tem como fundador, ainda no século XVIII, o frei Jaboatão. “Gonsalves de Mello era notável, um erudito com uma inovadora capacidade de interpretação”, diz o historiador Ronaldo Vainfas, organizador do Dicionário do Brasil Colonial. “Ele não titubeou em sujar as mãos com papel velho, como tantos de seus colegas brasileiros de ofício, para quem os documentos não passam de preocupação de antiquário”, escreveu o primo Evaldo Cabral de Mello na orelha da nova edição de Tempo dos Flamengos.

A paixão pela História foi despertada em Gonsalves Mello por outro primo, Gilberto Freyre, a quem ajudou na minuciosa pesquisa que resultaria no soberbo Casa-Grande & Senzala (1933). Em Tempo dos Flamengos, o historiador influenciado pelo primo traz o homem comum para dentro da História, narrando não só os grandes fatos, mas os pequenos dramas e as transformações da vida cotidiana sob o domínio de Maurício de Nassau.

Gonsalves de Mello nunca mais abandonou a convivência com os documentos antigos. “Esses papéis são minha vida”, costumava dizer a quem o procurava no Instituto Histórico e Geográfico Pernambucano. Os documentos a que se referia eram não só os copiados por Hygino Duarte Pereira, antigo diretor do Instituto, como também aqueles que ele mesmo trouxe decifrados da Holanda nas sucessivas viagens que fez ao país a partir dos anos 50, nas quais consumiu parte do dinheiro da família. Até pouco antes de adoecer, o historiador passava as tardes de terça e quarta-feira na mesma sala, onde livros, papéis e mapas se misturavam em cima de velhas escrivaninhas.

Ao pesquisar a presença judaica no Recife durante a ocupação holandesa, o historiador convenceu-se de que seus antepassados remotos eram cristãos-novos, isto é, judeus convertidos à força ao catolicismo pela Inquisição. O trabalho resultou em outro clássico da historiografia, Gente da Nação, publicado em 1989 pela editora Massangana. Nos documentos holandeses, Gonsalves de Mello encontrou referências à existência da primeira sinagoga das Américas, fundada em 1637. As escavações guiadas pelos estudos do historiador levaram à descoberta de uma mikve, espécie de banheira usada especialmente por mulheres nos banhos rituais e encontrada no interior de sinagogas. Era a prova definitiva do acerto de um mestre.

(Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca – MENTE ABERTA/ Por JOANA MONTELEONE – 19/04/2010)

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