Jonas Mekas, cineasta americano de origem lituana, era considerado uma das figuras mais importantes da história do cinema experimental

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Cineasta de vanguarda, diretor americano de filmes experimentais

 

Ícone do cinema de vanguarda americano, lituano também era poeta

 

 

 

 

Jonas Mekas (Lituânia, em 24 de dezembro de 1922 – 23 de janeiro de 2019), pai do cinema de vanguarda americano, cineasta americano de origem lituana, era considerado uma das figuras mais importantes da história do cinema experimental.

 

 

Premiado em Veneza

Mekas foi protagonista de várias retrospectivas e agraciado com uma série de prêmios, entre eles uma estatueta no Festival de Cinema de Veneza, em 1964 pelo seu filme “The Brig”.

Também recebeu prêmios por sua obra nas associações de críticos de Los Angeles, San Francisco e Nova York.

Suas obras foram incluídas nas edições de 2002 e 2017 do Documenta, importante mostra que acontece em Kassel, na Alemanha, a cada cinco anos, e também em 2003 e 2005 na Bienal de Veneza.

Da Lituânia para Nova York

Mekas nasceu na Lituânia rural em 1922 e chegou a Nova York no final dos anos 1940 após fugir dos campos de concentração nazistas e dos recrutamentos da União Soviética.

Em 1958 se tornou o primeiro crítico de cinema do “Village Voice”, um jornal cult de Nova York, onde se estabeleceu entre a comunidade vanguardista da sétima arte.

Foi a partir de então que começou a idealizar formas de exibir filmes raros e desconhecidos do grande público. Com esse objetivo, ele cofundou o Film-Makers’ Cinematheque, onde se viam filmes que não chegavam ao circuito cultural dominante.

Depois, esse projeto acabou convertendo-se no Anthology Film Archives, um dos centros de referência de cinema experimental e filmes de difícil acesso para o público.

Nascido e criado em uma comunidade rural da Lituânia, Jonas Mekas passou oito meses preso pelos nazistas em um campo de trabalhos forçados durante a Segunda Guerra, e outros dois anos abrigado em diferentes campos de refugiados após o conflito. Desembarcou em Nova York, em 1949, aos 27 anos, encontrando um mundo de infinitas possibilidades no cinema. Sedento por arte, ajudou a catalisar os principais movimentos artísticos que revolucionariam o cenário cultural do país nas décadas seguintes, da geração beat ao digital, passando pela pop art e o movimento hippie.

 

 

Muitos dos projetos de Mekas eram colaborações com seu irmão, Adolfas, que morreu em 2011. Usava câmeras portáteis para fazer registros diários e, assim, resgatar uma característica dos primórdios do cinema, quando os cineastas apenas captavam cenas da vida cotidiana. Esses diários filmados frequentemente se transformavam em filmes, que eram sua principal frente de combate ao cinema comercial. Entre suas obras mais importantes estão “Walden” (1969), “Lost, Lost, Lost” (1975) e “As I was moving ahead occasionally I saw brief glimpses of beauty” (2000).

Martin Scorsese, John Waters e James Franco estavam entre seus admiradores. Embora ele nunca tenha atingido grande popularidade, seus amigos e colaboradores incluíam alguns dos artistas mais importantes de sua época e algumas celebridades. Trabalhou com Andy Warhol e conviveu com nomes da literatura beat, como o poeta Allen Ginsberg. Também conviveu com celebridades e músicos, como Jaqueline Kennedy, John Lennon e Yoko Ono, e Lou Reed.

 

 

Como crítico de cinema, nos anos 50 e 60, nas páginas da Film Culture ou do Village Voice, ao lado de nomes como Stan Brakhage ou Shirley Clarke, puxou para a primeira linha o trabalho, normalmente ignorado, de cineastas “amadores”, não-narrativos, totalmente à margem de qualquer sistema. Fundou a Filmmakers’ Cooperative, que acabou por ser um centro da produção “experimental” nova-iorquina, e mais tarde foi um dos fundadores dos Anthology Film Archives, instituição que pode simplisticamente ser descrita como uma cinemateca votada primariamente à conservação e divulgação do patrimônio do cinema experimental e de vanguarda.

Como cineasta, Jonas Mekas era o verdadeiro “homem da câmara de filmar”, a mais perfeita encarnação do homem sonhado por Dziga Vertov. Filmava constantemente, com as suas câmaras de super 8 ou 16mm, mais tarde vídeo (formato dos seus muitos filmes das últimas décadas), mas filmava sem pensar necessariamente em filmes – aspectos da vida quotidiana, da sua, dos seus amigos, da cidade de Nova Iorque. Depois de dois filmes (Guns of the Trees The Brig) que, integrando plenamente a vaga independente que explodia no principio dos anos 60, eram ainda relativamente “convencionais”, foi no final dessa década que se sentou pela primeira vez a uma mesa de montagem com o objectivo de ordenar o muito material que filmara desde a chegada aos Estados Unidos – impulsionado por um susto: um incêndio na porta ao lado do sítio onde guardava as suas bobines. Isso deu, em 1969, o magnifico Walden – Diaries, Notes & Sketches, que praticamente funda o gênero diarístico, um cinema na primeira pessoa, câmara à mão, montagem em livre associação, um olhar elegíaco sobre todo um ecossistema – que o tempo também tornou em “documentário”, retrato de uma cidade, de uma geração e de um mundo à parte (Mekas filmou “toda a gente”, de Stan Brakhage e Gregory Markopoulos a John Lennon e Yoko Ono, passando pelos Velvet Underground e por Carl Dreyer).

Ao longo dos anos 70, o material acumulado foi gerando mais filmes, como Lost, Lost Lost (este assente sobretudo nas bobines filmadas durante os primeiros tempos de Mekas em Nova Iorque) ou Reminiscences of a Journey to Lithuania, uma evocação das suas raízes (tendo-se tornado cidadão americano, Mekas nunca perdeu a cidadania lituana, e estava envolvido em projetos de apoio às artes no seu país natal).

 

 

Com o vídeo, nos últimos anos, a produção de Mekas tornou-se mais regular, e era frequente a estreia de novos filmes seus, alguns com material contemporâneo, outros montando imagens do seu imenso arquivo pessoal (como é o caso do belíssimo Outtakes from the Life of a Happy Man, espécie de retorno ao espírito elegíaco subjacente a Walden). Quando esteve em Lisboa para a retrospectiva que o DocLisboa lhe dedicou em 2009 (oito anos depois, foi alvo de outra retrospectiva em Serralves), disse olhar para a sua obra com desprendimento: o seu verdadeiro gozo estava em mostrar e ajudar as obras de outros. Também por isso lhe chamam “o padrinho”, o padrinho da vanguarda nova-iorquina. Sem ele e sem a sua ação, a mitologia artística da cidade não seria a mesma. Morreu uma figura maior do que a vida, que tornou maior a vida à sua volta.

 

 

Mekas seguiu sendo uma personalidade ativa no seu campo até o final da sua vida e apareceu em vários festivais de cinema e protestos, como o Occupy Wall Street, o movimento surgido em Nova York durante a crise econômica iniciada em 2008.

 

 

“É impossível comparar o que vivi durante a guerra e o ambiente que encontrei nos Estados Unidos”, disse o cineasta, em entrevista ao GLOBO em 2015, de sua casa, no Brooklyn, em Nova York . “Nos campos de prisioneiros, eu era constantemente forçado a fazer coisas que não queria. Aqui, todos eram livres. Depois da guerra, houve mudanças culturais drásticas e, de repente, tudo parecia possível em todas as áreas, a música de John Cage, o teatro… Tive muita sorte de fazer parte disso.”

(Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/filmes – CULTURA / FILMES / Por O Globo – 23/01/2019)

(Fonte: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/01/23 – POP & ARTE / CINEMA / NOTÍCIA / Por Agência EFE – 23/01/2019)

(Fonte: https://www.publico.pt/2019/01/23/culturaipsilon/noticia – CULTURA ÍPSILON / / NOTÍCIA / Por Luís Miguel Oliveira – 23 de Janeiro de 2019)

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