João Gilberto Noll, autor de diversos romances e contos, premiado escritor gaúcho, autor de ‘O Cego e a Dançarina’ (1980), vencedor de cinco prêmios Jabuti

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Análise: João Gilberto Noll percebeu cedo que o Brasil não superaria estruturas autoritárias

 

Escritor João Gilberto Noll homenageado no Festival do Conto em Florianópolis (Foto: André Reis/Divulgação/ND)

 

Para dar uma ideia da importância da obra que o gaúcho construiu, basta dizer que outro escritor que trilhou um caminho semelhante, vários anos depois, foi Roberto Bolaño

João Gilberto Noll (Porto Alegre, 15 de abril de 1946 – 29 de março de 2017), autor de diversos romances e contos, premiado escritor gaúcho, autor de “O Cego e a Dançarina” (1980), vencedor de cinco prêmios Jabuti.

Com 18 livros publicados — 13 romances, três compilações de contos e duas obras infanto-juvenis —, Noll marcou seu nome na história da literatura brasileira com títulos como “O Cego e a Dançarina”, de 1980. Pelo livro de contos, recebeu, além do Jabuti, os prêmios de revelação do ano, da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e de ficção do ano, do Instituto Nacional do Livro. Foi traduzido para o espanhol, o inglês e o italiano.

Conhecido por sua reclusão, o autor mantinha uma vida solitária em seu apartamento em Porto Alegre, onde nasceu em 15 de abril de 1946, Noll viveu no Rio de Janeiro entre 1969 e 1986, onde concluiu a faculdade de Letras, fez inúmeras colaborações em jornais como “Folha da Manhã” e “Última Hora”, e deu aulas na PUC.

Em entrevistas, o autor costumava dizer que não gostava de planejar muito os caminhos de sua ficção. Em 2008, quando participou da Festa Literária de Paraty, em mesa compartilhada com a cineasta argentina Lucrécia Martel, Noll comentou sobre seu processo de criação.

— Eu não escrevo com uma programação. Deixo que os cavalos mentais me arrastem. Me deixo levar e, só depois, me torno um obsessivo pela limpeza do texto — disse ele. — Mas eu não sou um sujeito naturalista.

Era, sim, um autor interessado em explorar o inconsciente. Tanto que se dizia muito influenciado por Nelson Rodrigues — escritor que, em sua percepção, foi incomparável em tratar do inconsciente do homem médio. A solidão e a perda de sentido eram temas recorrentes em suas obras.

Na época de sua participação na Flip, ele havia acabado de lançar “Acenos e afagos” (Record), considerado pelo crítico José Castello “o mais forte e, por isso, o mais desprezado livro de Noll”. Na trama, um homem decide abandonar a vida monótona e se jogar no que ele próprio define como “uma epopeia libidinal”, ao perceber que está envolvido emocionalmente com um amigo engenheiro.

NO CINEMA E NO TEATRO

“Alguma coisa urgentemente”, conto presente no livro de estreia de Noll, foi adaptado para o cinema. Dirigido por Murillo Salles com o nome “Nunca fomos tão felizes”, estreou em 1984. “Harmada” também foi para as telas pelas mãos de Maurice Capovilla, em 2003, e, por último, “Hotel Atlântico”, em 2009, com direção de Suzana Amaral.

Para o teatro, Noll escreveu “Quero sim”, levada aos palcos por Marcos Barreto.

Na época do lançamento de “Harmada” nos cinemas, Noll detalhou sua relação com a linguagem cinematográfica em entrevista ao GLOBO:

— Acho que sou cinematográfico, uma vez que os meus livros apresentam o olhar como o núcleo da ação. Há mais uma coreografia do que propriamente uma ação visando a um determinado desfecho. Não existe no que faço, propriamente, uma ação de causa-efeito. Meus protagonistas sofrem golfadas do acaso. É uma coreografia para desenhar a rejeição ou sedução entre os personagens.

Na época, confessou também não ter vontade de explorar a tecnologia a ponto de mudar sua rotina — “prefiro estar numa sala escura de cinema ou lendo poesia” — e celebrou o fato de sua obra ter boa recepção na academia:

— Já devo ter recebido perto de 50 dissertações e teses de mestrado e doutorado sobre o meu trabalho! Algumas já publicadas em livros, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos e na Inglaterra. Algumas excelentes, que ampliam o diálogo entre esses leitores super empenhados com o que eu propus como texto. Posso querer mais da literatura?

João Gilberto Noll morreu em 29 de março de 2017, aos 70 anos, de mal físico. 

(Fonte: Veja, 23 de outubro de 2002 – ANO 35 – Nº 42 – Edição 1774 – Livros/ Por Jerônimo Teixeira – “Berkeley em Bellagio”– Pág: 126)

(Fonte: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura – NOTÍCIAS – LITERATURA/ Por Ricardo Lisias, Especial para O Estado de S. Paulo – 29 Março 2017)

(Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/livros – CULTURA – LIVROS/ POR O GLOBO – 29/03/2017)

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