João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, o marinheiro gaúcho que liderou a Revolta da Chibata.

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João Cândido Felisberto (Encruzilhada do Sul, 24 de junho de 1880 – Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 1969), o Almirante Negro, o marinheiro gaúcho que liderou a Revolta da Chibata.

Desconhecido da maioria dos brasileiros, João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, lutou contra os castigos corporais aplicados as tripulações por oficiais da Marinha no início do século 20. Indignou-se com as chibatadas e com a vida miserável dos marinheiros em 1910. Não admitia que, 22 anos após a abolição da escravatura, marujos negros continuassem passando pela humilhação das chicotadas, seguidas de pingos de vinagre e punhados de sal grosso sobre as costas.

Ele queria apenas o fim da chibata e uma vida digna para os colegas. Acabou castigado e esquecido. Está na hora de a população brasileira saber de João Cândido, diz a professora Maria Luci Corrêa encruzilhadense autora do livro Tributo a João Cândido e líder da campanha de reconhecimento.

O marinheiro tornou-se famoso depois que a autora iniciou ciclos de palestras em escolas locais. Apesar disso, ele continua vivo na memória de moradores antigos. Um deles é o aposentado Antonio Carlos Moreira, 70 anos. Ele conta que seu avô Vicente Simões Pires Moreira, falecido em 1933, era dono da fazenda onde João Cândido nasceu e onde viveu sua família.

– Eles moravam nas nossas terras e eram nossos escravos. meu pai sempre falava do João Cândido. Eles passaram a infância juntos, brincando por esses pagos – conta Moreira, que tem uma pedra da choupana habitada pela família do marinheiro.

Com a liberdade conquistada pela abolição da escravatura, a irmã de João Cândido, Caetana, deixou as terras de seu antigo dono e partiu para a cidade. Não conseguiu emprego e acabou adotada por Gomercinda Dornelles da Fontoura, a vó Bimba que também deu moradia para outros 60 negros sem teto. O velho sobrado de 1891 está firme no centro da cidade e é habitado por Neith Fontoura Pereira, 85 anos, filha da vó Bimba.

– A Caetana falava muito do irmão. De moleque arteiro virou marinheiro corajoso. Arteiro mesmo. Segundo Vicente Moreira de Almeida, 81 anos, outro neto do fazendeiro Vicente Moreira, o menino aprontava tanto que seu castigo foi servir a Marinha.

– Meu avô o deixou aos cuidados do almirante Alexandrino de Alencar, e ele transformou o menino em marinheiro – relembra. Pelas mãos do almirante, João Cândido tornou-se respeitado. Chegou a instrutor de aprendizes e marinheiro de primeira classe.

O influente negro abriu mão de facilidades adquiridas entre os superiores e, aos 30 anos, encabeçou a Revolta da Chibata. Depois de cinco dias de batalha na costa do Rio de Janeiro, terminou entregando os navios tomados ao governo. Em troca, recebeu a promessa da anistia e do fim dos maus-tratos.

Em 26 de novembro, João e outros 17 marinheiros acabaram presos em uma solitária na Ilha das Cobras (RJ), onde dias depois 16 deles morreriam asfixiados. Sobrevivente, o negro foi levado para um hospício. Lá, ficou confinado até o julgamento, em 1912, quando recebeu absolvição. Em liberdade, preferiu esconder-se do mundo. Virou pescador e morreu em 1969, aos 89 anos, vítima de câncer no intestino.

O Brasil na época da Chibata

O período que precedeu a Revolta da Chibata foi marcado por significativas transformações no Brasil. A Revolta da Chibata que, com pouco mais de 20 anos de República, as elites ainda procuravam sua identidade e acabaram importando costumes da Europa, tentando vivenciar uma realidade diferente das reais condições do país.

Baseados na teoria de que a raça branca representava o topo da escala evolutuva, os ricos conseguiram uma desculpa para distanciar-se ainda mais dos pobres, acentuando o abismo entre as classes sociais. O Rio de Janeiro foi remodelado e na cidade limpa e bonita não cabiam pobres. Os miseráveis foram para a periferia, dando início às primeiras favelas. A população não sofreu calada. Explodiu em violência com a Revolta da Vacina, em 1904. Foi nesse clima de desavenças que surgiu a Revolta da Chibata, em 1910.

24 de junho de 1880
Nasce João Cândido Felisberto, filho de escravos João Cândido Velho e Ignácia Cândido Velho. Há duas versões sobre o seu local de nascimento. Uma delas indica que ele teria nascido em Coxilha Bonita – na época, interior de Encruzilhada do Sul e, hoje, município de Dom Feliciano. Pela outra versão, João seria natural de Rio Pardo.

1888
Com a abolição da escravatura, a família de João Cândido deixa de ser escrava.

Entre 1888 e 1893
João Cândido acompanha o pai no trabalho, que era tropeiro e embarcava gado nos navios que saíam de Rio Pardo para Porto Alegre.

1893
Aos 13 anos, o desobediente João Cândido é entregue aos cuidados do Almirante Alexandrino de Alencar, morador do sobrado que hoje é o Museu de Rio Pardo, para ser levado a Escola de Aprendizes Marinheiros. Chega a Porto Alegre e conhece os navios de guerra.

1895
João é transferido para o Rio de Janeiro, já efetivado na Marinha, como praça da 40ª Companhia do Corpo de Marinheiros Nacionais. O marujo negro começa uma carreira de ascensão e ganha o respeito dos colegas.

1900
Já é instrutor de aprendizes marinheiros. Discorda das práticas agressivas dos oficiais da Marinha em relação aos subordinados, tratados quase como escravos. O decreto 328, criado pelo almirante e ministro da Marinha Eduardo Wamdenkolk, era o terror dos marujos: três dias de solitária e pão e água para as faltas consideradas leves e 25 chibatadas para as graves. Os marinheiros eram torturados e viviam em situação de miséria.

1908
João Cândido é marinheiro de primeira classe. Parte no navio Benjamim Constant para a Inglaterra a fim de acompanhar a construção de uma frota de barcos que seria comprada pelo governo brasileiro. Na Inglaterra, João conhece a cartilha do proletariado. Além disso, ouve o relato sobre a revolta dos marinheiros russos no encouraçado Potemkin e começa a articular uma rebelião semelhante no Brasil.

1910
A Revolta da Chibata
Os marinheiros liderados por João Cândido se organizaram nos porões do navio Minas Gerais no dia 22 de novembro, revoltados com as 250 chibatas desferidas sobre um de seus companheiros, o marujo Marcelino Rodrigues. Começa ali a Revolta da Chibata. O navio é tomado e, com um tiro de canhão, os marinheiros de barcos próximos são avisados de que o levante começava. Oficiais foram mortos e colocados sobre as mesas dos refeitórios, tal qual na revolta do Potemkin. No Rio de Janeiro, o medo de um bombardeio iminente alertou o governo e a população. Em meio a confusão, o presidente Hermes da Fonseca iniciou uma operação para deter a revolta. Diante das forças dos marinheiros, o governo ofereceu anistia a todos os rebeldes em troca da paz. A proposta foi aceita e, na manhã de 26 de dezembro, os navios foram entregues ao governo. Apesar disso, 18 marujos – entre eles João Cândido – foram levados para uma solitária na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, contrariando a promessa de anistia. Na noite de 25 de dezembro, 16 deles morreram asfixiados dentro da cela. João Cândido e o soldado naval João Avelino conseguiram sobreviver, mas acabaram sendo transferidos para um hospício.

1912
Em 29 de novembro, começa o julgamento de João Cândido. Dois dias depois, o almirante negro e absolvido por unanimidade e libertado. Passa anos recluso no Rio de Janeiro, sem conseguir emprego fixo, atordoado pelas lembranças do passado.

1952
João Cândido é encontrado por um repórter de O Globo na Praça XV, no Rio de Janeiro. Ao ser abordado, nega-se a falar e pede para ser esquecido, mas é fotografado. O almirante negro trabalhava como pescador e vendia peixe.

6 de dezembro de 1969
João Cândido morre aos 89 anos, no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, vítima de câncer no intestino.

(Fonte: Zero Hora – ANO 39 – N° 13.455 – 23 de junho de 2002 – Geral/ Por Juliana Bublitz – Pág; 32/33)

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