Isabel de Castela e o marido, o rei Fernando de Aragão, reis católicos que são celebrados na Espanha por seus feitos expansionistas, políticos e religiosos

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A Espanha entrou na Renascença por obra de um casal real que exerceu o mecenato mesmo sem o saber

Isabel de Castela (1451-1504) e o marido, o rei Fernando de Aragão (1452-1516), reis católicos que foram amantes e patrocinadores das artes, e que são celebrados na Espanha por seus feitos expansionistas, políticos e religiosos.

Patrões de Cristóvão Colombo, eles financiaram o descobrimento da América em 1342. Católicos fervorosos, para unificar a Espanha não hesitaram em implantar o terror da Inquisição por quase toda a Península Ibérica, acuando e convertendo as populações árabes e judias mais dóceis, ou simplesmente matando, espoliando e expulsando os infiéis recalcitrantes.

A face mais humanista de sua primeira monarquia – em Toledo, a capital do primeiro reinado, a 70 quilômetros de Madri, Isabel de Castela e Fernando de Aragão são as principais estrelas que a casa real espanhola arquitetou na passagem do século XV para o XVI com o objetivo de unir, dominar e cristianizar a nação.

A presença do rei austríaco Maximiliano I (1459-1519) teve estreitas relações com a casa real espanhola, que culminariam no casamento de seu filho, Felipe, o Belo, com Joana, a Louca, herdeira de Isabel e Fernando. O filho de Joana e Felipe, Carlos V, seria o futuro rei da Espanha.

Além de incentivar a arte medieval espanhola rumo ao Renascimento, evidencia a importância de uma figura que acompanha toda a história da arte, muitas vezes confundindo-se com os próprios artistas e dividindo com eles os louros por suas obras – o mecenas.

Desde que o nobre romano Gaius Maecenas (70 a.C.-8 a.C.), da corte do imperador Augusto, inaugurou o hábito de patrocinar pintores, escultores e poetas, criando condições para que eles trabalhassem sem se preocupar com a conta do armazém, a criação artística nunca mais foi a mesma. Além da fama e da reputação milenar, Maecenas ganhou pouca coisa.

Os mecenas desempenharam um papel sem paralelo na história da arte. Principalmente na Itália, e pelas mãos da família cujo nome se tornou sinônimo do mais rico e produtivo mecenato de que se tem notícia: os Medici, de Florença. Sob seus auspícios, floresceram gênios como Leonardo da Vinci e Rafael.

Ao longo de um domínio de quase 200 anos, a partir do século XV, os Medici conseguiram se enobrecer, chegando a fazer quatro papas e duas rainhas, Catarina e Maria de Medici, na França. Mais do que patronos e ostentadores, os Medici foram gende de gosto apurado, que patrocinaram muitos artistas sem intrometerem-se nas obras que produziam.

Contemporâneo de Isabel e Fernando da Espanha, Lorenzo de Medici (1449-1492) foi o responsável pela implantação do sistema de mecenato que vigoraria em sua família e seria invejado em toda a Europa. Lorenzo, que passou para a história como “O Magnífico”, não se limitou a contratar e hospedar artistas para uso próprio, desenvolvendo a arte como um bem público e abrindo universidades em Florença e Pisa.

 

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FÚRIA CRISTÃ – Ao contrário dos Medici, Isabel e Fernando da Espanha nunca souberam o significado da palavra mecenas. Quando contratavam artistas e arquitetos, mais do que apoiar as artes, eles se interessavam em neutralizar a presença islâmica, que vigorou nos oito séculos anteriores ao seu domínio na região ibérica.

 

Para cumprir seu objetivo político, os reis espanhóis não se opuseram a deixar que a arte do país, em que predominava o estilo gótico tardio, fosse contaminada pela moda estrangeira ditada principalmente pela Itália, onde já vigorava o régio mecenato florentino. Na mesma época coube a Maximiliano I, assíduo cliente e protetor do alemão Albrecht Dürer, introduzir a arte do retrato na Península Ibérica.

Já em 1468, preocupado com sua imagem, Fernando de Aragão se queixava da falta de bons retratistas na corte. Um dos pontos altos da exposição espanhola é a pintura de um outro estrangeiro, o italiano Sandro Botticelli (1444-1510). Oração no Horto, assinada por ele, da coleção de Isabel, reproduz a cena bíblica na qual Jesus pede a Deus que o poupe do sacrifício da Cruz. A obra integra a coleção da Capela Real de Granada, último território muçulmano conquistado pelos reis em 1492.

 

O sabor da vitória obtida com a unificação e a expulsão de mouros e judeus do território espanhol abrandaria temporiariamente a fúria cristã de Fernando e Isabel . Dominados pelo desejo de magnificência, os reis de Castela e Aragão se dedicaram a restaurar centenas de igrejas destruídas nas batalhas da unificação e a erguer novos templos. Em 1494, dois anos depois de derrotar os ouros definitivamente, Isabel e Fernando ganharam do papa o título de “reis católicos”.

A seguir, a rainha ordenou que nenhuma mesquita ou sinagoga fosse destruída, num arroubo de tolerância. Dezenas das obras de estilo mourisco preservadas pelas ordens de Isabel, principalmente cerâmicas e joias de ouro trabalhadas em filigranas, podem ser vistas em Toledo.

(Fonte: Veja, 15 de abril de 1992 – ANO 25 – Nº 16 – Edição 1230 – ARTE/ Por Alessandro Porro – Pág: 94/95)

 

 

 

 

 

 

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