Inventou o primeiro cronômetro do mundo

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Inventou o primeiro cronômetro do mundo

 

John Harrison inventou o primeiro cronômetro do mundo (Foto: Notes and Records of the Royal Society – Journals / Divulgação)

 

O gênio da hora

A aventura solitária do inventor do cronômetro

John Harrison (Foulby, Yorkshire, 24 de março de 1693 – Londres, 24 de março de 1776), gênio solitário, foi um relojoeiro sem formação acadêmica que passa quarenta anos atrás do relógio perfeito e acaba inventando o cronômetro. O dilema científico em torno do qual gira – a busca de um método para a medição da longitude – o mistério científico, um problema que indiretamente contribuía para a morte de milhares de navegadores que se perdiam no mar.

 

Nos dois conceitos fundamentais para encontrar uma posição exata no globo terrestre – para um navegador saber se o barco estava mais ao sul ou mais ao norte em relação ao Equador, era usado um instrumento de aferição: o sextante. O marinheiro precisava olhar diretamente para o Sol através das lentes.

 

Alguns anos nessa atividade eram suficientes para destruir a visão, o que explica o sucesso que tapa-olhos faziam entre os navegantes mais experientes. Mas essa era uma questão menor diante do problema de medir a longitude. No mar, longe de qualquer referência geográfica, um comandante jamais sabia como precisar se estava mais a leste ou mais a oeste.

 

Familiaridade  com a geografia e a astronomia

 

Em 1714 a coroa britânica resolveu agir. Sob pressão real, o Parlamento inglês passou o Longitude Act, estabelecendo um prêmio de 20 000 libras (12 milhões de dólares em valores atuais) para quem apresentasse um método para resolver o enigma. A lei criava também o Conselho da Longitude, formado pelos mais importantes astrônomos e matemáticos do reino. Há um grupo de cientistas invejosos, entre eles sir Isaac Newton. Em torno da longitude, sempre houve um consenso: a melhor maneira de aferi-la seria por meio da medição da passagem do tempo. Bastava saber a hora constante no porto de partida e compará-la com a hora do local onde o navio se encontrava. Seria suficiente para indicar a distância coberta.

 

Dissabores

 

Não era difícil resolver a última parte do problema. Era só ajustar a ampulheta de bordo pelo meio-dia, quando o Sol se encontrasse no seu ponto mais alto no céu. Difícil era saber a hora no porto de partida. Os relógios de pêndulo, com seus mecanismos delicados e construídos em geral de ferro e aço, eram imprecisos par a o uso no mar. John Harrison, o relojoeiro, em vez da ciência, preferiu seguir o caminho da tecnologia. Partiu do princípio de que o meio mais simples para a marcação do tempo era um relógio preciso, não sujeito a distorções por efeito do calor, maresia e balanço do barco. Na época, essa máquina não existia.

 

Harrison saiu atrás de novos desenhos para livrar o relógio mecânico do pêndulo e pesquisou materiais, como a madeira e o bronze, para construir engrenagens resistentes à corrosão. O primeiro relógio produzido, o H-1, um cubo com 1,3 metro de lado, pesava 34 quilos e foi apresentado ao Conselho de Longitude em 1735. Um ano depois, foi testado com sucesso numa viagem de Londres a Lisboa. Harrison não reclamou o prêmio. Preferiu aperfeiçoar seu invento. Fez mais três relógios.

 

A cada sucesso, os sábios que se sentavam no conselho mudavam as regras para a conquista do prêmio, exigindo o cumprimento de novos quesitos. Nem mesmo a conclusão de sua obra-prima, o H-4, o primeiro cronômetro do mundo, um mecanismo com apenas 12,5 centímetros de diâmetro, o livrou de dissabores. O H-4 foi avaliado pelos astrônomos do conselho, que, ressentidos, não gostavam do invento de Harrison.

 

Só mesmo em 1773, e graças à intervenção do rei George III, o conselho decidiu entregar as 20 000 libras ao relojoeiro. Harrison não teve tempo para desfrutar o prêmio. Morreu em março de 1776, três anos depois, aos 83 anos de idade, lamentando que o governo de seu país nunca mais o houvesse deixado tocar no H-4. Considerado um instrumento importante para a segurança nacional, o cronômetro foi entregue à guarda daqueles a quem Harrison mais odiava: os astrônomos do Observatório de Greenwich.

(Fonte: Veja, 11 de setembro de 1996 – ANO 29 – Nº 37 – Edição 1461 – Livros / Por Manoel Francisco Brito – “Longitude”, de Dava Sobel – Pág: 102/103)

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