Ho Chi Minh, líder da resistência vietnamita contra os franceses e norte-americanos

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Morre Ho Chi Minh, líder da resistência vietnamita contra os franceses e norte-americanos, em 3 de setembro de 1969.

(Fonte: Zero Hora – ANO 48 – N.° 16 769 – Almanaque Gaúcho/ Por Mauro Toralles – Hoje na História – 3/09/11 – Pág; 46)

 

Ho Chi Minh (Província de Nghe Tinh,19 de maio de 1890 – Hanói, 3 de setembro de 1969), político, líder revolucionário, maior símbolo e Presidente da República do Vietnam do Norte, técnico em guerrilhas e um comunista profissional. A lenda confunde-se com a realidade e muitas vezes a supera – mas a sua existência é parte integrante da moderna história do Vietnã do Norte. Seus olhos brilhantes escondiam uma vontade inflexível e uma ambição impiedosa. Sua silhueta magra e seus gestos polidos o recomendavam mais como um velho sábio dos contos orientais do que como um líder revolucionário. Seu rosto ovalado podia dar-lhe a aparência de um professor, não a de um técnico em guerrilhas ou de um comunista profissional. Seu tipo bem simples, vestido com uma sóbria túnica militar, lembrava antes um soldado que um Presidente da República.

 

Ho Chi Minh, na verdade, foi um pouco de tudo isso. Na sua longa vida de 79 anos, encerrada dia 2 de setembro com “um súbito e grave ataque cardíaco”, após sua morte, 19, 5 milhões de norte-vietnamitas interrogam-se sobre o futuro. Embora Ho Chi Minh, já tivesse delegado parte de seus poderes a outros dirigentes, ainda retinha nas mãos, com firmeza, o direito de dar a última palavra. Em Hanói, onde sua casa foi construída nos jardins do antigo palácio que serviu de sede à administração colonial francesa, Ho Chi Minh trabalhava sem cessar – mas raramente aparecia em público e jamais concedia entrevistas a jornalistas estrangeiros. Vivendo ultimamente num bairro, na estrada que liga Hanói à fronteira da China Comunista – ele dirigia com mão de ferro a política que implantou com um só objetivo: “expulsar” os soldados americanos do Vietnam do Sul e realizar o Thong Nhat – a reunificação do país, dividido em 1954 pelo Acordo de Genebra, do qual o próprio Ho foi um grande defensor e principal interessado.

 

A divisão do país levou a parte norte, a mais industrializada, a perder 1 milhão de habitantes, que preferiram fugir para o sul, agrícola e atrasado, a viver sob um regime comunista. Além dessa perda humana, o Vietnam do Norte perdeu o grande mercado atual de 17 milhões de habitantes do Vietnam do Sul, que passou a comercializar com o Ocidente, à medida que Hanói se integrava cada vez mais na órbita comunista. Foi Ho Chi Minh quem comandou essa transformação do Vietnam do Norte em país comunista – realizando uma reforma agrária radical e sangrenta (mais trade atenuada), implantando o Partido Comunista em todos os poros da sociedade e educando seu povo numa disciplina espartana, copiada de seu próprio estilo de vida. Como resultado, o Vietnam do Norte, em quinze anos sob o comando de Ho Chi Minh, reduziu de 95% para 20% a taxa de analfabetismo; passou de três para 35 o número de faculdades e de alguns milhares para 90 000 o número de universitários, numa população de 2 milhões de estudantes de todos os níveis.

 

A reforma agrária nesse país de 80% de camponeses tornou uma verdadeira obsessão nacional a meta de produzir 5 toneladas de arroz por hectar/ano, inspirando não só discursos como peças de teatro e até música popular – inclusive uma “Canção das Cinco Toneladas”. Mas, com toda essa campanha, o arroz foi racionado e as grandes metas industriais traçadas por Ho ficaram longe de terem sido alcançadas, em parte porque o país é muito pobre em recursos minerais, exceto em carvão. Os casamentos devem ser autorizados pelo Governo e os jovens são convidados a evitar a “atividade sentimental” até o final da guerra. Um aviso encontrado em muitos locais públicos aconselha à juventude: “Não desperdice suas energias namorando. Mas, se namorar, não case. E, se quiser casar, não ponha filhos no mundo por enquanto”.

 

A desconfiança contra o casamento pode resultar do fato de que Ho Chi Minh não casou. Mas a convicção de solteiro é apenas um dos pontos de destaque numa vida cheia de acontecimentos invulgares. De sua infância e juventude pouco se sabe. Nascido a 19 de maio de 1890 na Província de Nghe Tinh, perto da antiga capital imperial, Hué, onde estudou, a sua vida não teve nada de extraordinário até os 21 anos de idade, quando partiu para Saigon e daí, então, ganhou o mundo – para só voltar em 1941, trinta anos mais tarde. Talvez o fato mais significativo de sua mocidade na terra natal tenha sido a influência que recebeu do pai, um mandarim autodidata, especialista em história da China, cujas convicções nacionalistas (ele se negou a estudar francês) o levaram a perder seu cargo na administração colonial francesa. O jovem Nguyen That Thant – nome verdadeiro de Ho Chi Minh – criou-se numa região onde o patriotismo vietnamita tinha deixado fortes tradições e onde surgiram muitas insurreições nacionalistas, geralmente fomentadas pelos intelectuais dos séculos XVIII e XIX. Pela mão de seu pai ele aprendeu o ABC político do patriotismo, que mais tarde, na Europa, iria colorir com a tinta vermelha do marxismo-lenismo. Foi em Paris, de 1917 a 1923 – uma capital sacudida pelas novas ideias do surrealismo, mergulhada em problemas de guerra mas, também, cheia de horizontes e de possibilidades -, que o jovem imigrante Nguyen Ai Quoc, seu novo nome, se tornaria inicialmente socialista e depois comunista, traçando a sua trilha para o futuro.

 

Essa trilha o conduziria ao poder em Hanói e à criação da República Democrática do Vietnam, um país comunista original. Todos os dias, às 5 horas da manhã uma rede de rádio e de alto-falantes desperta milhões de norte-vietnamitas com aulas de ginástica e programas políticos que os incentivam ao trabalho. As aulas nas escolas começam às 6 da manhã e só terminam às 10, para o almoço, recomeçando um segundo turno das 5 da tarde às 21:00. A jornada de trabalho – oito horas nas fábricas e um pouco menos na agricultura – é rigorosamente a mesma, todos os dias, para atingir as metas prefixadas no Plano Quinquenal de Desenvolvimento. As distrações são poucas nesse país coletivizado e os espetáculos de cinema e teatro, ou mesmo os circos ambulantes, praticamente vivem de temas políticos – desde sátiras aos dirigentes americanos e sul-vietnamitas até histórias patrióticas, geralmente produzidas por um único estúdio, instalado num subterrâneo de Hanói.

 

Num país em que as grandes indústrias foram nacionalizadas, o pequeno comércio particular ainda sobrevive, mas tem de se contentar em vender artigos considerados “de luxo!, entre os quais roupas e bustos em gesso de Lênin e de Mao Tsé-tung. Bustos de Ho Chi Minh e até retratos seus são difíceis de ser encontrados porque, segundo alegam os comerciantes com malícia típica dos vietnamitas, “o nosso presidente de Ho, embora ateu, conseguiu realizar façanhas como ter o fotografia do Presidente participando de procissões budistas. A religião não foi extirpada nesse país de 1,5 milhão de católicos e de 119 igrejas, sendo algumas delas obras de arte com forte acento da época da colonização francesa. Os católicos – cujos bispos não receberam a autorização do Governo para participar do Concílio Ecumênico, em Roma – estabeleceram um “modus vivendi” com o regime. Habilmente, procura-se evitar conflitos com a maioria religiosa do país e tenta-se canalizá-la em nome do patriotismo, ao invés do socialismo – técnica particular de Ho, que ele não aprendeu em Moscou.

 

Durante sete anos, ele foi um aplicado aluno de marxismo e um zeloso funcionário da Internacional Comunista em Moscou. Dali, Ho Chi Minh, peregrinou pela China, Tailândia, Singapura, Macao, Coreia e Hong Kong, como um agente subversivo encarregado de organizar o movimento comunista da Ásia – inclusive o PC da Indochina, que nasceu em 1930 num estádio de futebol de Hong Kong, onde Ho, Pham Vam Dong (atual Primeiro-Ministro do Vietnam do Norte) e outros vietnamitas organizavam o seu PC clandestino. Eles ainda teriam de lutar quinze anos para proclamar a independência do Vietnam contra a França e outros nove para instalar seu regime comunista em Hanói. Durante todos esses anos, Ho conseguiu fazer manobras políticas nas quais nenhum outro dirigente comunista ainda o igualou. Ele foi sucessivamente, aliado dos chineses de Chiang Kai-shek, dos americanos e dos franceses contra os invasores japoneses da Indochina, de 1942 a 1945; aliado dos outros partidos vietnamitas contra os franceses; e, atualmente, aliado simultâneo da Rússia e da China contra os americanos, que levaram a guerra até a sua República.

 

Quando eles apareciam no horizonte os norte-vietnamitas gritavam “Gion Son” (“Os americanos estão chegando”) e as metralhadoras e canhões começavam a atirar. Desde avião americano surgiu no horizonte, em fevereiro de 1965, até que o último voltasse à sua base, em outubro de 1968, houve um total de 218 477 ataques ao território do Vietnam do Norte, que recebeu 300 000 toneladas de bombas de vários tipos.

 

No gatilho de suas metralhadoras e canhões antiaéreos, de fabricação russa e chinesa, os norte-vietnamitas se gabam de ter derrubado 3 200 aviões americanos de todos os tipos. Mas eles nunca esconderam os prejuízos sofridos com esses bombardeios maciços que, destruíram totalmente as indústrias siderúrgicas, de fertilizantes e de munições do país, além de destruírem parcialmente as hidrelétricas, fábricas de cimento, refinarias de petróleo, ferrovias, aeroportos e mais de 9 000 pontes, 32 000 veículos, 25 000 barcaças fluviais, 2 867 barcos diversos, 152 aviões, 16 774 prédios, 379 estações de radar, 266 mísseis antiaéreos, 78 locomotivas, 3 347 baterias antiaéreas.

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Hanói, por sua vez, afirma oficialmente que foi atirado 1 milhão de toneladas de explosivos sobre o Vietnam do Norte, destruindo completamente 133 cidades e aldeias, 847 escolas e hospitais, 485 igrejas católicas e budistas e 950 comunidades agrícolas – o que obrigou o Governo a importar 700 000 toneladas de alimentos em 1968, contra apenas 50 000 toneladas em 1966. Mas, com toda essa destruição, sem paralelo desde a Segunda Guerra Mundial, o General John O’Connel, ex-chefe do Estado-Maior da Força Aérea dos Estados Unidos, admitiu perante o Congresso americano que os bombardeios foram “ineficazes” porque Hanói já reconstruiu 75 % do que foi destruído. Com 1 bilhão de dólares de ajuda soviética e mais 400 milhões de ajuda chinesa, Ho Chi Minh reconstruiu a maior parte da indústria e salvou outra parte desmontando fábricas e levando-as para os subterrâneos e cavernas – onde continuaram funcionando.

 

Nas fábricas e até escolas construídas nos abrigos subterrâneos, a fotografia de Ho Chi Minh estava sempre na parede. Em todo o país seu retrato era visível, mas nunca houve um culto à personalidade, no estilo Stálin na Rússia ou de Mao Tsé-tung na China Comunista. Para milhões de vietnamitas, a admiração por Ho Chi Minh é tão espontânea quanto a veneração por antigos imperadores e patriotas da história milenar do Vietnam. Nos 79 anos de sua vida, as passagens pouco honrosas (como a sangrenta reforma agrária de 1956, sua cumplicidade com o Stalinismo) deram lugar a episódios de aventura ou heroísmo. Ho Chi Minh, o cozinheiro de bordo, o limpador de neve nas ruas de Londres, o imigrante em Paris que retocava fotografias por 45 francos e desenhava porcelana “chinesa” fabricada na França, é o mesmo que passou trinta anos longe de seus país e duas décadas a serviço do comunismo internacional? O Ho Chi Minh que escreveu muitos versos e poucas obras políticas é o mesmo patriota que libertou o Vietnam dos franceses e, depois, levou o comunismo para Hanói? Milhões de vietnamitas acreditam que sim. Mas muitos outros tem a mesma opinião do Vice-Presidente do Vietnam do Sul, Nguyen Cao Ky: “Sem Ho Chi Minh, o comunismo é uma cobra que perdeu a cabeça. Mas continua venenosa”.

 

As três mortes de Ho

 

Calados e muito tristes, num pequeno grupo, estudantes vietnamitas do Instituto Stálin, de Moscou, reúnem-se para reverenciar a morte de seu líder, Ho Chi Minh. Um representante da Internacional Comunista (Komintern) lê a extensa biografia de Ho que foi publicada em Paris pelo jornal do PC francês, “L”Humanité”, pedindo luto de todos os revolucionários do mundo pela morte de Ho. Ano da cerimônia fúnebre: 1933.

 

(Enquanto sua morte era chorada, Ho Chi Minh – que então se chamava Nguyen Ai Quoc – conseguia fugir da penitenciária de Hong Kong, onde fora dado como morto pelas autoridades inglesas, após ter sido internado na enfermaria do presídio com tuberculose.)

 

No meio da selva do norte do Vietnam, os chefes do recém-fundado Viet Minh (Frente de Libertação) reúnem-se numa palhoça para reverenciar a morte de seu líder, Nguyen Ai Quoc, que passara a chamar-se Ho Chi Minh – “Aquele que ilumina”. Ele fora preso e executado na China, onde tentara obter ajuda tanto do Presidente Chiang Kai-shek para a luta pela libertação da Indochina, colônia francesa ocupada pelos japonêses. “A notícia de sua morte nos deixou paralisados pela dor”, contaria mais tarde o General Giap, atual Ministro da Defesa do Vietnam do Norte.

Meses depois chegava da China um poema escrito a mão pelo chefe que julgavam morto:

“As nuvens abraçam os montes.

As serras estreitam as nuvens.

Solitário, de coração mudo.

Sigo sondando ao longe o céu do Sul:

Eu penso nos meus amigos.”

O intérprete Cap, que acompanhara Ho à China, percebe então seu equívoco: ele traduzira erradamente a informação que ouvira do Governo chinês, confundindo “tchou leu” (tudo bem) com “sou leu” (já morreu). Ano: 1942.

 

Em Hanói, o corpo magro de um velho de 79 anos, dentro de um caixão cercado de flores, é exposto à visitação. Ao lado de seu corpo estão reunidos não mais os poucos estudantes vietnamitas de Moscou ou o pequeno grupo de chefes do Viet Minh, mas os dirigentes da Rússia e da China (que não se encontraram), Jean Sainteny, enviado da França, e líderes de vários países, enquanto 19 milhões de norte-vietnamitas, que por muitos anos se acostumaram a gritar “Ho chu tich muon nam” (Mil anos de vida ao Presidente Ho), agora vestem por sete dias as suas roupas de luto. Ho Chi Minh morreu. Ano: 1969.

(Fonte: Veja, 10 de setembro, 1969 – Edição 53 – Política/Internacional – Pág; 50/53)

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