Rigor e conforto nas invenções do holandês Rietveld
Gerrit Thomas Rietveld (Utrecht, 24 de junho de 1888 – Utrecht, 25 de junho de 1964), célebre arquiteto, moveleiro e designer de produto holandês, que propunha a democratização das habitações e descartava qualquer excesso ou detalhe ornamental.
Rietveld nasceu em Utrecht na Holanda e era filho de um fabricante de armários. Desde muito cedo, aos onze anos de idade, foi trabalhar com o pai em sua marcenaria, abrindo seu próprio estabelecimento em 1917 com o objetivo de desenvolver novas formas para os mobiliários.
A sensibilidade estética de Rietveld em moldar e reunir os materiais liga sua obra à própria história da escultura moderna. O lado artístico de seu ofício sempre foi uma preocupação central para Rietveld. Sem jamais ter-se formado em arquitetura, ele, que começou a trabalhar como marceneiro na sua cidade natal, Utrecht, militou na vanguarda neoplástica holandesa. Ao lado dos pintores Piet Mondrian (1872-1944) e Theo van Doesburg (1883-1931), nos anos 20 e 20, Rietveld propunha uma revolução racional e criativa no âmbito da cultura moderna.
Nessa época, criou o protótipo da famosa poltrona RED BLUE, executada originalmente em madeira natural e que, mais tarde e sob a influência do movimento “De Stijl”, foi pintada nas cores primárias inspiradas em Mondrian – também colaborador do movimento.
No caso da cadeira Red-Blue, criação desenvolvida entre 1917 e 1919, afora a junção das placas de madeira entre o espaldar e o encosto, todos os encaixes usam ângulos retos. Para criá-la, ele fez uma rigorosa observação de uma pessoa sentada, distribuindo seu peso entre dois planos inclinados, justamente o espaldar e o encosto.
Dos confortabilíssimos móveis de Rietveld, como se sabe, o maior desafio de um criador é fazer uma cadeira tão bela quanto cômoda. Antes de serrar e cortar a madeira para um novo móvel, Rietveld quebrava a cabeça até encontrar os ângulos e encaixes ideais. Por isso, seus móveis são uma primorosa equação de linhas, planos e cores articulados em três dimensões.
Não é por acaso que o ângulo reto tenha sido o símbolo principal da vanguarda neoplástica, e que o magro repertório visual da pintura de Piet Mondrian, as linhas retas e as cores puras (vermelho, amarelo e azul), seja basicamente o mesmo das criações de Rietveld.

Cadeira Vermelha e Azul, um ícone do Movimento De Stijl, também presente na Casa Rietveld Schröder
Sua obra foi uma espécie de manifesto concretizado, aplicava engenho e ideias estéticas a qualquer de suas criações, como demonstra o carrinho de madeira de dupla utilidade de sua autoria. Tanto servia para transportar ferramentas quanto para crianças brincarem.
Rietveld foi o primeiro a aplicar os princípios deste movimento na arquitetura, projetando em 1924 seu mais célebre projeto, a residência Schröder, localizada em sua cidade natal – um marco da arquitetura moderna e representação perfeita das ideias e conceitos definidos pelo movimento “De Stijl”.
Durante esse período, se tornou um dos primeiros membros efetivos do movimento até a sua dissolução em 1931.
As propostas racionalistas do Rietveld moveleiro alcançam sua obra arquitetônica. Revolucionária, a casa Schröder, construída em 1924, em Utrecht, para uma família com hábitos de classe média, uma obra-prima da arquitetura modernista. Como um racionalista de boa cepa, Rietveld priorizou o aspecto funcional do projeto.

Casa Rietveld Schröder (Foto: holandesando / DIREITOS RESERVADOS)
Para começar, a casa foi erguida com materiais pré-fabricados, a fim de que sua fabricação pudesse ser reproduzida – como Le Corbusier, ele acreditava na democratização da arquitetura. Na Alemanha, na mesma época, os representantes da escola Bauhaus tinham preocupações semelhantes às do holandês.
Mas, em se tratando do aspecto funcional, Rietveld era menos ortodoxo. Antes de construir a casa Schröder, por exemplo, ele fez questão de enumerar todas as especificações da família Schröder, a dona da casa, quem determinou, por exemplo, que a área de estar fosse no 1° andar.
A encomenda da casa era a oportunidade que Rietveld precisava para pôr em práticas suas ideias arquitetônicas. Ele acreditava que o formato tradicional das habitações induzia seus moradores a ter uma atitude passiva diante da vida. Por isso, de saída, ele definiu o formato da casa como um bloco retangular, abandonando os telhados triangulares pontudos típicos das construções europeias.

Gerrit Rietveld e Truus Schröder, os criadores da Casa Rietveld Schröder. (Foto: HenkdeKlerk [CC BY-SA 3.0])
Depois, tratou de fazer um inventário, com Schröder, sobre suas principais atividades domésticas. Com as respostas na mão, tratou de definir a localização e o tamanho de cada cômodo. Para ele, a área de um cômodo estava relacionada com o tempo que o morador passava dentro dele. Os aposentos que não eram usados todo o tempo deviam ser integrados, combinando, a sala de jantar com a cozinha.
Para a casa, ele criou peças como a mesa dobrável e retrátil e o sofá-cama. Essas soluções engenhosas foram absorvidas pela arquitetura e design modernos, convivendo nos apartamentos de todo o planeta.
Foi colaborador de uma revista que circulou até meados de 1928 e que disseminava os ideais desse movimento. Neste mesmo ano, rompeu com o grupo neoplástico e fundou o CIAM – Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, o que expandiu mais ainda a sua fama pelo mundo.
No decorrer dos anos, tornou-se cada vez mais interessado no papel social da arquitetura, estudando métodos de produção mais baratos, novos materiais, pré-fabricação e padronização. Em 1927, ele já estava experimentando lajes de concreto pré-fabricadas – um material muito incomum naquela época.
Em virtude da recessão econômica do período histórico da década de 30 – conhecido como a Grande Depressão – procurou desenvolver também móveis com componentes de fabricação mais baratos.
Autor de vários projetos e novos conceitos, também foi professor de Arquitetura em Amsterdam entre 1944 e 1955, tornando-se membro da Federação Holandesa dos Arquitetos em 1964 – no mesmo ano em que veio falecer.
– Outros projetos: É autor da famosa Cadeira ZIG-ZAG, composta por apenas 4 placas de madeiras, projetada em 1932; das Row-Houses, também em Utrecht ( 1931-1934 ); o Pavilhão Holandês na Bienal de Veneza ( 1954 ); o Pavilhão da Escultura no Museu Kröller-Müller, em Otterloo, província de Güeldria e o Museu Van Gogh em Amsterdam.
(Fonte: http://www.maisdesignmoveis.com/designers/designer)
(Fonte: Revista Veja, 19 de novembro de 1997 – ANO 30 – Nº 46 – Edição 1522 – Arte / Por Angela Pimenta – Pág: 148/149)

