Foi quem primeiro descreveu a circulação pulmonar com exatidão

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O trágico destino de Miguel Servet

O nome de Miguel Servet (Villanueva de Sigena, Espanha, 29 de setembro de 1511 — Genebra, 27 de outubro de 1553), ou Michael Servetus em latim, acha-se definitivamente incorporado à história da medicina. Servet foi um precursor de Harvey na descoberta da circulação sanguínea. Foi quem primeiro descreveu a circulação pulmonar com exatidão.

Nascido em Aragão, na Espanha, seu verdadeiro nome de família era Michael Villanueva. O nome de Serveto, por ele mesmo adotado, transformou-se em Servet, em francês, e Servetus, em latim.

Espírito irrequieto, combativo, devotado a questões transcendentais de natureza religiosa e filosófica, viveu de 1511 a 1553, em meio às disputas religiosas resultantes da Reforma liderada por Lutero e Calvino. Estudou leis em Toulouse, teologia e hebraico em Louvain, e medicina em Paris e Montpellier, destacando-se por seu interesse pela anatomia (Teulon, 1972, pp. 78-80).

Durante toda a sua vida, Servet escreveu sobre questões religiosas e dedicou-se à exegese da Bíblia. Pregava a volta a um cristianismo “puro”, tal como fora ensinado por Jesus. Um dos dogmas da Igreja por ele contestado, e que o fez cair em desgraça, foi o da Santíssima Trindade. As suas ideias e os seus escritos desagradaram tanto aos católicos como aos protestantes.

É interessante conhecer a razão de seu interesse pela circulação pulmonar. Está escrito na Bíblia que “a alma da carne é o sangue” (Lev. 17.11, A Bíblia Sagrada, 1981, p.123) e que “o sangue é a vida” (Deut. 12.23, idem, p. 200). No livro dos Salmos (104.29, idem, p. 592), por sua vez, a importância da respiração para a manutenção da vida é ressaltada nas seguintes palavras: “se lhes tira a respiração, morrem, e voltam para o seu pó”.

Essas passagens bíblicas levaram Servet a estudar a circulação pulmonar, onde o sangue e o ar se misturam, pois no seu entender, o conhecimento da circulação pulmonar conduziria a uma melhor compreensão da natureza da alma.

Em sua descrição da circulação pulmonar expõe que a força vital provém da mistura, nos pulmões, do ar aspirado e do sangue que flui do ventrículo direito ao esquerdo. Todavia, o fluxo do sangue não se dá, como geralmente se crê, através do septo interventricular. O sangue flui por um longo conduto através dos pulmões, onde a sua cor se torna mais clara, passando da veia que se parece a uma artéria, a uma artéria parecida com uma veia.

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Admite-se que Servet tenha realizado observações próprias em animais para chegar a essa conclusão, embora não as tenha mencionado.

A sua descoberta da circulação pulmonar foi divulgada em um livro sobre religião, intitulado Christianismi restitutio, que foi considerado heré- tico, confiscado e incinerado. Salvaram-se apenas três exemplares, um dos quais se encontra em Paris, outro em Viena e outro em Edimburgo. Uma segunda edição, publicada em Londres em 1723, foi novamente apreendida e incinerada (Acierno, 1994, pp. 187-189).

Acusado de heresia, Servet foi preso e julgado em Lyon, na França. Conseguiu fugir da prisão e quando se dirigia para a Itália, através da Suíça, foi novamente preso em Genebra, julgado e condenado a morrer na fogueira, por decisão de um tribunal eclesiástico sob direção do próprio Calvino. A sentença foi cumprida em Champel, nas proximidades de Genebra, no dia 27 de outubro de 1553.

Poucos meses após sua morte foi simbolicamente punido pela Inquisição da Igreja católica na França, que mandou queimar sua efígie.

Um monumento em sua memória foi erguido em 1903, em Champel, assinalando o local de sua morte.

A sua descoberta da circulação pulmonar foi por muito tempo ignorada pela medicina oficial.

(Fonte: http://books.scielo.org – O trágico destino de Miguel Servet Joffre/ Por Marcondes de Rezende)

Referências Bibliográficas

A Bíblia Sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro, Imprensa Bíblica Brasileira, 1981. Acierno, L. The History of Cardiology. London, The Parthenon Publishing Group, 1994. Teulon, A. A. “Las Origenes de la Fisiologia Moderna”. In Entralgo, P. L. Historia Universal de la Medicina. Barcelona, Salvat Editores, 1972.

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