Foi o primeiro dos grandes estilistas asiáticos a conquistar Paris

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Estilista japonês Kenzo foi o primeiro criador japonês a conquistar Paris, abrindo o caminho internacional para compatriotas como Yohji Yamamoto e Issey Miyake

 

 

Kenzo Takada (Himeji, 27 de fevereiro de 1939 – Neuilly-sur-Seine, 4 de outubro de 2020), estilista japonês, que construiu um império da moda que vai de roupas a perfumes, foi criador da marca de roupas e perfumes “Kenzo”. Ele foi o primeiro designer japonês a se estabelecer em Paris.

 

Nascido em 27 de fevereiro de 1939 em Himeji, perto de Osaka, o tímido jovem Kenzo se apaixonou pelos desenhos e a costura, que eram ensinados para suas irmãs e proibidos para meninos.

 

Expulso de seu apartamento em Tóquio devido às Olimpíadas, o estilista deixou seu país em 1964 após estudar estilismo. Ele chegou de navio ao porto francês de Marselha em 1965 e ficou fascinado por Paris. Embora estivesse de passagem, ele se mudou em definitivo para a capital da França.

 

– Uma adaptação difícil –

Porém, sua adaptação foi um desafio, principalmente pela dificuldade de comunicação em francês. “Tudo parecia sombrio para mim, até Saint-Germain-des-Prés”, um bairro artístico emblemático de Paris, disse ele em 1999 ao jornal francês Libération.

 

Mas ele persistiu, batendo na porta de designers para apresentar suas propostas, e começou a colaborar com marcas de prêt-à-porter, como Dorothée Bis, Sonia Rykiel e Cacharel.

Em 1970, lançou sua primeira coleção com o nome de Jungle Jap, criada em uma pequena loja que decorou como uma selva. Seis anos depois, fundou sua própria marca apenas com o primeiro nome.

“Naquela época, os tecidos sintéticos estavam na moda em Paris e as roupas eram quase todas escuras. Aproveitei uma viagem ao Japão para comprar tecidos de algodão coloridos”, conta em um livro dedicado à sua carreira.

Suas roupas, inspiradas tanto na moda parisiense quanto nos quimonos japoneses, mesclavam cores e estampas com ousadia. Em seus desfiles, as modelos dançavam e exalavam uma certa alegria de viver, típica do estilista.

 

Sua primeira linha masculina chegou em 1983 e o primeiro perfume, em 1988. Em 1993, a empresa foi adquirida pelo grupo de luxo LVMH por quase 500 milhões de francos (85 milhões de dólares).

 

Kenzo Takada foi o primeiro dos grandes estilistas asiáticos a conquistar Paris, abrindo assim o mercado internacional para compatriotas como Yohji Yamamoto e Issey Miyake, que no início dos anos oitenta revolucionaram a indústria da moda com seus designs conceituais e arquitetônicos, suas peças experimentais e uma dramática carga artística, criações que continuam influenciando e inspirando criadores contemporâneos.

 

Kenzo Takada se estabeleceu em Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris, em 1964 e fundou a empresa de moda e perfumes que leva seu nome.

 

Kenzo Takada se formou no Bunka Fashion College de Tóquio ―que, quando ele se matriculou, em 1958, tinha acabado de abrir suas portas para homens― e seis anos depois se instalou em Paris, seguindo os passos de seu admirado Yves Saint Laurent. Sem recursos e com uma máquina de costura alugada, confeccionou sua primeira coleção em 1970 com tecidos, quimonos velhos e retalhos comprados em brechós.

Sem saber, estava transformando a necessidade em virtude e, principalmente, na marca registrada de uma grife que, meio século depois, continua sendo sinônimo de cor, estampas com grande carga gráfica e experimentação. Suas peças ―poéticas e livres― e seu estilo inédito chamaram a atenção da poderosa revista Elle, que, apenas um mês depois, dedicou-lhe uma capa e, com ela, deu o empurrão definitivo para sua carreira.

Em 1974, abriu sua primeira loja na Place des Victoires parisiense, iniciando uma longa e frutífera relação com a França, que o nomeou Cavaleiro da Legião de Honra em 2016 e onde viveu até sua morte (especificamente, na rive gauche da capital).

 

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Amigo de Andy Warhol e de Antonio López, Kenzo Takada ficou famoso no final dos anos setenta por seus desfiles excêntricos: em 1997, organizou um espetáculo de moda na discoteca nova-iorquina Studio 54, com Grace Jones como mestre de cerimônias e Jerry Hall caminhando na passarela com um cigarro na mão. Também é muito lembrado o desfile realizado sob uma tenda de circo: as modelos mostraram seus desenhos vanguardistas a cavalo, e no encerramento o estilista saudou o público montado em um elefante.

 

Ele dizia que sua maior influência era “o mundo em que vivia” e que a moda era como comer: “Você não deve se limitar a apenas um menu”.

 

Antes que a palavra diversidade estivesse na boca de todos, Kenzo Takada defendeu um casting de modelos multirraciais. Também foi um pioneiro no mundo dos negócios, lançando sua própria linha de perfumes em 1988, uma das mais fortes do setor atualmente.

 

 

Kenzo Takada

Kenzo, em uma apresentação. (Crédito: BERNARD CYRILLE/ABACA / GTRES)

 

 

Em 1993, o conglomerado de marcas de luxo LVMH ―proprietário da Dior, Louis Vuitton e Givenchy― adquiriu sua marca. Seis anos depois, Kenzo Takada se aposentou para se concentrar em seu lado artístico, embora tenha voltado há três anos ao design de tecidos, desta vez para casa, em uma colaboração com a empresa francesa Roche Bobois. “Vendi minha empresa porque o contexto era difícil: um dos meus três sócios morreu, o outro teve um problema de saúde, veio a crise econômica… Mas naquela ocasião não imaginei que seria privado do meu nome para sempre. Via vitrines onde aparecia Kenzo, mas não era eu. Foi um longo luto, mas agora lido bem com isso”, assinalou em uma entrevista concedida ao EL PAÍS há dois anos.

 

– Festas na Bastilha –

 

Kenzo Takada se aposentou da moda em 1999 e passou a se dedicar a projetos mais pontuais, como o design de interiores. “Tenho 60 anos e 30 anos de carreira. Há muito tempo queria aproveitar a vida, viajar, ver meus amigos”, explicou na época à AFP.

No entanto, ele não se desconectou completamente. Em janeiro de 2020, lançou a empresa K-3. “Não devemos esquecer o saber-fazer, o que fazíamos antes”, disse, lamentando “a rapidez” com que a moda está evoluindo hoje.

 

Sobre sua vida pessoal, ele sempre foi discreto. Ficou, no entanto, conhecido pelas suntuosas festas que organizou na sua imensa casa em Paris (1.100 m2), na Praça da Bastilha, com uma piscina e dois jardins japoneses. Ele deixou a mansão em 2009, quando aproveitou para se desfazer de seu grande acervo de objetos de arte.

“Agora me sinto mais parisiense do que japonês, mas se eu nascesse de novo, não sei se viveria minha vida em Paris”, confessou certa vez ao semanário Paris Match.

 

Sua empresa seguiu em frente e viveu um ressurgimento comercial quando os americanos Humberto León e Carol Lim ―fundadores da rede de lojas Open Ceremony― assumiram o controle da marca em 2011. Em 2019, o estilista português Felipe Oliveira Baptista foi nomeado diretor criativo da grife, que apresentou sua coleção mais recente em 30 de setembro.

Kenzo Takada faleceu em 4 de outubro de 2020, aos 81 anos, vítima de covid-19, em Neuilly-sur-Seine.

 

Com “quase oito mil desenhos”, o japonês “nunca deixou de celebrar a moda e a arte de viver”, afirmou seu porta-voz.

“Ele foi um designer de imenso talento, deu à cor e à luz seu lugar na moda. Paris hoje está de luto por um de seus filhos”, escreveu no Twitter a prefeita da cidade, Anne Hidalgo.

(Fonte: https://brasil.elpais.com/cultura/2020-10-04 – CULTURA / por CARMEN MAÑANA / Paris – 04 OCT 2020)

(Fonte: https://istoe.com.br – EDIÇÃO Nº 2647 – COMPORTAMENTO / por AFP – 04/10/2020)

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