Foi o primeiro a escrever a fundo sobre o tema da teologia da libertação

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Foi o primeiro a escrever a fundo sobre a teologia da libertação

O educador e escritor Rubem Alves - (Foto: Divulgação/Instituto Rubem Alves)

O educador e escritor Rubem Alves – (Foto: Divulgação/Instituto Rubem Alves)

 

O educador e escritor Rubem Alves foi o primeiro a escrever a fundo sobre o tema, marco inicial da teologia da libertação, antes do Gustavo Gutiérrez — peruano que é considerado um dos precursores da Teologia da Libertação.

Considerado um expoente na renovação do pensamento teológico da América Latina, através da linha de pensamento conhecida como Teologia da Libertação, Rubem Alves nasceu em 15 de setembro de 1933, em Dores da Boa Esperança, uma pequena cidade do Sul de Minas Gerais. Educado por uma família protestante, começou a estudar teologia no seminário Presbiteriano do Sul, e atuou como pastor presbiteriano na cidade mineira de Lavras até que, em 1963, deixou o Brasil e foi estudar nos Estados Unidos. Em Nova York, assumiu as cadeiras da Universidade de Princeton, de onde retornou, cinco anos mais tarde, como doutor em Filosofia e com seu primeiro livro em inglês, “A theology of human hope”, publicada nos Estados Unidos em 1969 e no Brasil em 1987, com o título “Da esperança”.

Com mais de 160 obras publicadas nas mais variadas disciplinas do pensamento — teologia, filosofia, pedagogia, psicologia — e da literatura — da crônica à poesia —, Alves foi traduzido em mais de dez idiomas e chegou a alcançar boas vendagens e reconhecimento no mercado editorial brasileiro. Amigo pessoal e responsável pela publicação de boa parte da obra escrita por Alves entre os anos 1960 e 1980, pela editora Vozes, Boff ressalta a importância da contribuição intelectual de Alves nos campos da teologia, da pedagogia e da psicanálise.

— Um dos traços fundamentais da abordagem de Alves em relação à teologia da libertação foi o entendimento de que essa linha de pensamento deveria ser complementada por dois processos, o psicanalítico e o pedagógico. A partir daí ele escreveu uma profusão de obras fundamentais, dentre as quais eu destaco “A teologia da esperança” e “O enigma da religião”.

Para Alves, nenhuma libertação era possível se pensada apenas sob o âmbito político ou socio-econômico.

— A verdadeira libertação viria de um acesso à interioridade, via psicanálise, e por uma educação focada na criação de autonomia de pensamento e visão de mundo — diz Boff. — Ele reagia à educação convencional. Dizia que não educava as pessoas para a vida, mas para o mercado. Via a escola como uma chocadeira do sistema. Ele sonhava como uma educação criativa, em que as pessoas não usassem esquemas, mas criassem os seus próprios sistemas.

— A teologia de Alves é eminentemente ecumênica, não pertence a nenhum grupo religioso de forma isolada. Ela representa a esperança de melhores situações aos pobres e aos pequenos. Alves defendia “a importancia do humanismo na religião, na educação e na poesia”.

Rubem Alves (Foto: Instituto Rubem Alves)

Rubem Alves (Foto: Instituto Rubem Alves)

 

Filosofia e educação

No campo da filosofia da ciência e da educação, destacam-se obras como “Por uma educação romântica”, “A pedagogia dos caracóis”, “Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir”, entre outras. Pela Edições Loyola, Alves publicou dois importantes livros centrados na tensão entre os conceitos de ciência e a sabedoria, como “Entre a ciência e a sapiência: o dilema da educação” (1999) e “Filosofia da ciência” (2000). No primeiro, estrutura uma contundente crítica à educação baseada na aprendizagem científica.

Defensor de uma pedagogia focada no estímulo à criação e à invenção de sonhos, escreveu: “As escolas se dedicam a ensinar os saberes científicos, visto que sua ideologia científica lhes proíbe lidar com os sonhos, coisa romântica! É assustadora a incapacidade das escolas de criar sonhos!”. Já em “Filosofia da ciência”, desmistifica a persona do cientista como detentor do conhecimento e verdades absolutas: “Antes de mais nada, é necessário acabar com o mito de que o cientista é uma pessoa que pensa melhor do que as outras”, escreveu.


Em suas crônicas, poesias e livros infanto-juvenis, Alves compartilhava apreço semelhante ao do poeta Manoel de Barros pelos elementos “desimportantes” ou “banais” da vida, e defendia que a “experiência poética não é ver coisas grandiosas que ninguém mais vê. É ver o absolutamente banal, que está bem diante do nariz, sob uma luz diferente”.

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(Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/livros -13313961#ixzz3gotip9cS – CULTURA – LIVROS/ POR O GLOBO – 19/07/2014)

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Escreveu, em seu autoexílio nos Estados Unidos, a primeira obra a usar a expressão “Teologia da Libertação” 

Alves em 1957. Ele cursava teologia no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas (SP). No verso da foto, ele escreveu: "O que eu quero dizer está nestas reticências..." (Foto: Instituto Rubem Alves)

Alves em 1957. Ele cursava teologia no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas (SP). No verso da foto, ele escreveu: “O que eu quero dizer está nestas reticências…” (Foto: Instituto Rubem Alves)

Antes de ser um escritor consagrado, ele foi um pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) perseguido pela ditadura.

O escritor foi o o primeiro a usar a expressão “teologia da libertação”

“Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas”. 

Aos 19 anos, Alves anunciou aos pais, que sonhavam com um filho médico, que ele não queria ser doutor, mas, sim, reverendo, como são chamados os pastores presbiterianos. O jovem estudou no Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), em Campinas, onde conheceu Richard Shaull, o “teólogo da revolução”, um missionário americano que insistia que era dever dos cristãos combater a pobreza e a exploração, mesmo que, para isso, fosse necessária uma aliança estratégica com os marxistas. A fé metafísica do seminarista se transformou em fé política.

Convertido ao evangelho social de Shaull, Alves se tornou o pastor de uma igreja presbiteriana em Lavras, no Sul de Minas, e se entregou ao cuidado dos pobres sem pensar em convertê-los. “Eu achava que a religião não era para garantir o céu, depois da morte, mas para tornar esse mundo melhor, enquanto vivemos”, afirmou. Do púlpito, o “reverendo Alves”, como ficou conhecido na cidade, instava os membros da Igreja a se preocupar com os mais pobres e tomar parte na luta contra a opressão e a exploração do homem pelo homem. Depois do golpe de 1964, passou a criticar as arbitrariedades do regime militar. Os pastores que governavam a Igreja Presbiteriana do Brasil mantinham estreitos laços de amizade com os generais que mandavam no país e não gostaram nada disso.

O ativismo social do pastor de Lavras era malvisto pelas autoridades eclesiásticas. E logo um dossiê que acusava Alves e outros cinco pastores de pecados como comunismo e desprezo pela reta doutrina protestante chegou aos tribunais da Igreja. O acusador era Rodolfo Eduardo Kingscard, diretor do Instituto Gammon, o colégio presbiteriano de Lavras, onde Alves também dava aulas. O dossiê não demorou a chegar às mãos de agentes do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, a polícia política da ditadura. As percepções de um capitão do exército enviado a Lavras confirmaram as suspeitas do regime (e dos pastores): o reverendo Alves era um subversivo perigoso. Alves entrou para a lista dos vigiados da ditadura e permaneceu dos anos 1960 até 1985 sob o monitoramento secreto dos militares.

Em 1965, Alves, a mulher e os filhos optaram pelo autoexílio. Seguiram para Nova York, onde, no Seminário Teológico de Princeton, ele escreveu uma tese de doutorado: “Por uma Teologia da Libertação”.  Ele se baseou em uma corrente de pensamento, defendida por teólogos protestantes e católicos, que afirmava que o Deus da Bíblia tinha preferência pelos pobres e que, portanto, as religiões deveriam se posicionar ao lado dos oprimidos. Mas foi Alves quem, pela primeira vez, chamou essa prática cristã amiga dos pobres e engajada nas lutas sociais como “Teologia da Libertação”. Essa corrente ganhou força sob esse nome e deixou marcas profundas no cristianismo latino-americano das décadas de 1970 e 1980.

Obras de referência do movimento como Teologia da Libertação, do belga Gustavo Gutiérrez, e Jesus Cristo Libertador, de Leonardo Boff, ambos sacerdotes católicos, só foram publicadas em 1970 e 1972, respectivamente. A tese foi transformada em livro, publicado nos EUA, só que com outro título, por sugestão de um editor: Teologia da esperança humana. . Apesar do pioneirismo teórico, ele perdeu a chance de ser o primeiro autor a publicar uma obra com a expressão “Teologia da Libertação” no título, uma expressão que ele havia cunhado. O livro só pôde ser editado no Brasil depois do fim da ditadura militar, em 1987, e chegou às livrarias com o título Da esperança. Uma edição com o nome original – Por uma Teologia da Libertação – só saiu em 2012.

De volta ao Brasil e magoado com seus companheiros pastores, que desconfiavam de suas ideias, Alves rompeu com a Igreja Presbiteriana do Brasil em 1970. “Sempre entendi que o Evangelho é um chamado à liberdade. Não encontro a liberdade na IPB. É hora, portanto, de buscar a comunhão do Espírito fora dela”, escreveu em sua carta de demissão do pastorado. As gaiolas da religião eram difíceis de abrir e os pássaros eram muito medrosos para alçar voo.

Proscrito pelos evangélicos brasileiros, Alves era um teólogo respeitado no mundo todo e ativo no movimento ecumênico. Continuou a escrever sobre religião, mas, pouco a pouco, descobriu outras gaiolas que precisavam ser abertas: as gaiolas da pedagogia tradicional, que impediam o voo das crianças. Alves cogitou prestar vestibular para medicina, interessou-se por filosofia, ouviu pacientes em um consultório de psicanálise, deu aulas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), militou pela educação libertária, escreveu livros e publicou crônicas na imprensa.

(Fonte: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/07 – VIDA/ Por RUAN DE SOUSA GABRIEL – 22/07/2015)

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