Deng Xiaoping, duro, pragmático e reformista, transformou a China em potência econômica

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Deng Xiaoping o arquiteto do milagre chinês

Deng Xiaoping o arquiteto do milagre chinês

 

 

O PEQUENO IMPERADOR

Deng Xiaoping – O arquiteto do milagre chinês
O pragmático sucessor de Mao Tsé-tung mudou os rumos do socialismo em seu país e traçou o projeto de desenvolver a China por meio da liberalização econômica sem democracia.

Deng Xiaoping (Guangan, 22 de agosto de 1904 – 19 de fevereiro de 1997), duro, pragmático e reformista, transformou a China em potência econômica.
O futuro líder comunista cresceu em meio a efervescência política e aos 15 anos, depois de concluir o ensino fundamental, partiu para a França, onde desembarcou no fim de 1920. Na Europa tomou contato com o marxismo e finalmente estabeleceu-se em Paris em 1925 enquanto uma revolta antibritânica explodia em sua terra natal.

Tudo começou em Xangai, depois que um ofi cial inglês ordenou o fuzilamento de 12 chineses. Diante da agressão, os militantes do Kuomintang, agora oficialmente aliado da União Soviética e da Internacional Comunista (Comin tern), reagiram com a greve geral, marchando ao lado do Partido Comunista Chinês.

Na capital soviética, o “Pequeno Timoneiro” converteu-se num militante comunista disposto a todas as missões. E estas não faltavam. De volta à China, teve seu primeiro encontro com Mao Tsé-tung no dia 7 de agosto de 1927. Em seguida, foi enviado a Xangai para ajudar os comunistas locais na disputa contra os militantes locais do Kuomintang, liderados por Chiang Kai-shek.
Mao Tsé-tung, o grande imperador vermelho, costumava fazer uma avaliação falsamente modesta de si mesmo: 60% de acertos, 40% de erros. Deng Xiao, o pequeno imperador, habituado pelas durezas da vida na cúpula do Partido Comunista Chinês a sucessivas autocríticas, era mais comedido ainda em relação à sua trajetória: meio a meio, 50% de resultados positivos, outro tanto de negativos.

Do ponto de vista de um país com cinco milênios de História, é cedo, cedíssimo para fazer o balanço de Mao Tsé-tung, morto em 1976 – o próprio fundador da China comunista, indagado certa vez a respeito da Revolução Francesa, respondeu que ainda não havia perspectiva temporal suficiente para avaliar. Quanto mais de Deng, que encerrou uma lenta agonia no dia 19 de fevereiro de 1997, aos 92 anos, consumido pelo mal de Parkinson. Um feito sem precedentes: nenhum líder, em tempo algum, melhorou tanto a vida de tanta gente em tão pouco tempo.

Desde 1978, quando convenceu os colegas do partido de que o crescimento econômico era mais importante que a luta de classes e o coletivismo, cerca de 200 milhões dechineses, a população de mais de um Brasil, puderam tirar o pé da pobreza absoluta e alcançar um padrão de vida jamais visto em sua longa e sofrida História. O país humilhado, retalhado e ocupado durante a primeira metade do século XX, redimido e ao mesmo tempo massacrado pelas insanidades cometidas durante a era Mao Tsé-tung, emergiu como potência econômica a uma velocidade de tirar o fôlego.

Esse é o lado notável da biografia de Deng, que implantou a “economia socialista de mercado”, codinome da mistura de ditadura do partido na esfera política com o mais desenfreado capitalismo. No outro prato da balança ele provavelmente colocaria os problemas monumentais desencadeados por esse mesmo terremoto de mudanças. Nunca, de seu ponto de vista, a mancha mais funesta de seu currículo: os tanques lançados sobre milhares de jovens reunidos na Praça da Paz Celestial, em Pequim, na madrugada de 4 de junho de 1989. Os manifestantes pediam reformas democráticas e foram suprimidos a bala, com um número de mortos jamais estabelecido – qualquer coisa entrre os 200, do balanço oficial, e 2000.

Para Deng, seu erro foi demorar demais e deixar as manifestações assumir proporções ameaçadoras. Em conversas com visitantes estrangeiros, depois do massacre, ele expôs seu raciocínio, invocando o mais terrível dos fantasmas para os chineses. Luan siginifica caos, não um desastre desses que tantas vezes desabaram sobre a China. Trata-se de catástrofe em escala monumental.

“Se os rebeldes tivessem prevalecido, teria havido uma guerra civil”, disse Deng, três meses após os crimes. “Se houvesse uma guerra civil, nós venceríamos, mas ao preço de quantas mortes?” Para o então presidente George Bush, Deng foi mais sucinto: “Se 1 bilhão de chineses realizarem eleições multioartidárias, teremos com certeza uma guerra civil em larga escala. Na China, a estabilidade tem precedência total”.

O outro nome de estabilidade pode ser defesa do monopólio do poder. Mas ninguém negaria que Deng foi testemunha e ator privilegiado do que o luan já fez na China. Filho de um proprietário de terras relativamente bem de vida – 13 hectares e quatro mulheres (só duas sucessivas), o suficiente para lhe custar a cabeça, se já não tivesse sido assassinado antes da Revolução Comunista -, o jovem Deng fez parte de uma geração protagonista de feitos heróicos. Mandado pelo pai, aos 16 anos, para estudar na França, ele entrou para o Partido Comunista antes do que Mao Tsé-tung, seu futuro companheiro, líder e algoz. Durante duas décadas, dos 25 aos 45 anos, provavelmente não passou nem um dia sem uma pistola no coldre ou um fuzil na mão.

Civil, com formação militar irrisória, sua tarefa no interior de Sichuan era liderar um exército maltrapilho de camponeses armados com porretes e foices. Ganhou o respeito dos comandados pelas maneiras simples e pelo vozeirão, surpreendente num homem de sua estatura – 1,50 metro. Dos chefes comunistas, só recebia cobranças.

A ordem, vinda de Stalin, via Komintem, era conquistar “grandes cidades”. Deng e seus camponeses mal conseguiam sobreviver, entocados em cavernas, fustigados pelas tropas nacionalistas, superiores em número e treinamento, do Kuomintang, as forças inimigas de Chiang Kai-chek. “Não substime aquele baixinho”, disse Mao certa vez, sobre Deng, em conversa com Nikita Kruchev, então líder soviético. “Ele destruiu um exército de 1 milhão dos melhores soldados de Chiang”.

Até chegar lá, Deng sofreu nas mãos do inimigo e dos companheiros. Caiu em desgraça pela primeira vez em plena campanha, acusado de obscuros desvios ideológicos. Quando a Longa Marcha começou, em 1934, estava rebaixado a soldado raso, carregando a própria mochila, o saco de arroz e a munição. Aliado de Mao na defesa da guerra de guerrilha e da organização dos camponeses, ao contrário do que queriam os soviéticos, recuperou a posição.Depois da vitória, em 1949, seu talento em matéria de estratégia e logística – conhecia tudo do inimigo e, como no pôquer, paixão anterior ao bridge, só arriscava quando tinha certeza do resultado – valeu-lhe o posto de vice-rei do sudoeste.

Mao Tsé-tung gostava de Deng, confiava em sua capacidade de cumprir missões complicadas e o usava ao sabor das intrigas políticas que fomentava, como fazia, de resto, com todo mundo. Deng ocupava a quarta posição mais importante na hierarquia comunista, atrás apenas do próprio Mao, do venerado Chu En-lai e de Liu Shao-chi, quando a desgraça despencou sobre ele – e sobre a China inteira. O nome da desgraça era Revolução Cultural, o movimento ultra-radical desencadeado por Mao contra a própria liderança do partido, utilizando como massa de manobra a juventude fanatizada.

Em comparação com outras vítimas, até que Deng sofreu relativamente pouco. Ele, a mulher e a madrasta foram mandados em 1969 para o interior, em regime de semiprisão. Trabalhavam numa oficina de conserto de tratores e moravam numa casa simples, onde faziam todo o serviço.

Duro mesmo foi saber o destino do filho mais velho, Deng Pufang. Estudante de física da Universidade de Pequim, Pufang foi atacado por colegas da Guarda Vermelha e barbaramente espancado. Trancado numa sala, inconsciente, ele não sabe se foi jogado ou, em desespero, se jogou da janela. Ficou paralítico da cintura para baixo – e sem direito à assistência médica. Quando o casal Deng conseguiu trazer o filho para junto de si, só lhe podia oferecer o conforto de massagens diárias. “Nessa ocasião, percebi que ele era um homem de verdade, não como os outros líderes, só interessados em política”, disse Pufang depois do pesadelo.

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Por intervenção de Chu Enlai, Deng acabou reabilitado, depois de fazer uma autocrítica. Começou a trabalhar imediatamente para reconstruir o país destroçado, retomar a produção industrial e reabrir as ferrovias permanentemente ocupadas pela Gurada Vermelha. O conflito político, no entanto, persistia. Mao, com a saúde cada vez mais debilitada, fazia jogo duplo com Deng e sua mulher, a pérfida Jiang Qing, porta-bandeira da Revolução Cultural. Deng caiu em desgraça de novo. Só voltou ao poder depois da morte de Mao, quando o venerado marechal Ye Jianying articulou o verdadeiro golpe militar que pôs na cadeia a viúva vermelha e seus comparsas da Gangue dos Quatro.

Antes que Hua Guofeng, o herdeiro ungido por Mao Tsé-tung no leito de morte, tivesse tempo para piscar, Deng já tinha tudo preparado e planejado para sua ascensão como pequeno imperador. Cercou-se de aliados e, mesmo sem as bênçãos do partido, pôs em campo o famoso gato – aquele que, não importando se branco ou negro, devia mesmo era caçar ratos. A mudança fundamental veio sob a forma dos contratos no campo: os camponeses comprometiam-se a vender parte da produção para o Estado, e o resto era por sua conta. Encerrava-se, na prática, o desastroso sistema da produção comunal. Socialismo não é sinônimo de atraso e pobreza, informou Deng quando a reforma já estava desencadeada. E, por falar nisso, ficar rico é glorioso.

“Mao Tsé-tung ajudou os camponeses a tomar a terra dos ricos – depois a tomou de volta para as comunas”, escreveu o historiador Harrison E. Salisbury no livro The New Emperors (Os Novos Imperadores). Durante a Revolução Cultural: “Mao Tsé-tung encheu as tigelas dos camponeses – e então as esvaziou com fomes terríveis. Deng deu a terra de volta aos camponeses, demoliu a estrutura das comunas e viu as tigelas de arroz transbordar”. Pôs dinheiro no bolso do povo. O campo floresceu como nunca, como nem mesmo no tempo das dinastias mais ricas”. A China nunca mais foi a mesma. Um legado e tanto para um pequeno imperador.

A VELHA E A NOVA CHINA

Veja o crescimento monumental da economia chinesa comparando números atuais com estatísticas do final dos anos 701, quando começaram as reformas de Deng Xiaoping

População Antes Atual

PIB (em dólares) 958 milhões 1,23 bilhão

Renda per capita (em dólares) 97 344

Inflação (anual) 7,5% 14,8%

Reservas em dívidas (em dólares) 0 85 bilhões

Dívida externa (em dólares) 4,5 bilhões 70 bilhões

Exportações (em dólares) 7,2 bilhões 121 bilhões

Importações (em dólares) 7,4 bilhões 116 bilhões

Empresas privadas 300 000 22 milhões

Fazendas coletivas 50 000 0

 

(Fonte: Veja, 26 de fevereiro, 1997 –- Edição 1484 -– INTERNACIONAL/CHINA/ Por Izalco Sardenberg -– Pág; 30/33)
(Fonte: www2.uol.com.br/historiaviva –- Edição 58 – por Rémi Kauffer – Agosto 2008)

 

 

 

 

 

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