Cavalo não desce escada.

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Ibrahim: “Vim do povão e tirei o lugar do grã-fino que fazia coluna social”.

Sorry, periferia

Ibrahim Sued (Rio de Janeiro, 23 de junho de 1924 – Rio de Janeiro, 1° de outubro de 1995), jornalista e colunista social carioca. O requinte não teve paralelos em sua própria trajetória – para abrir caminho no jornalismo, Ibrahim não precisou usar nem facão nem punhal. Só o seu senso de oportunidade, sua simpatia e muita vontade de crescer na vida.

Menino pobre, criado entre os cortiços do centro carioca, ele começou a carreira em 1946, como repórter fotográfico. Sua estrela manifestou-se num de seus primeiros trabalhos. Ao cobrir a visita ao Rio de Janeiro do general Dwight Eisenhower, comandante das tropas aliadas na II Guerra Mundial e futuro presidente americano, Ibrahim captou uma imagem que sintetizava a servidão do Brasil aos Estados Unidos – a do político baiano Otávio Mangabeira, que parecia beijar a mão de Eisenhower.

Ainda da década de 1940, foi companheiro de boemia de personalidades como Carlinhos Niemeyer, Sérgio Porto, Paulo Soledade e Heleno de Freitas, com quem fundou o Clube dos Cafajestes.

Trabalhou com Joel Silveira na revista Diretrizes. Começou a conhecer gente, frequentar festas e a piscina do Hotel Copacabana Palace. De pequenas notícias na seção “Vozes da Cidade”, no recém-fundado “Tribuna da Imprensa” de Carlos Lacerda, passou a fazer a coluna “Zum-Zum”, no “A Vanguarda” (1951).

Passou para o colunismo social, primeiro na revista Manchete, depois no jornal O Globo. Com base na experiência de colunistas americanos, Ibrahim começou a publicar notinhas políticas, comentários sobre o comportamento dos simples mortais e conselhos de etiqueta. A fórmula pegou e é seguida até hoje.

Dez Mais – Ibrahim compensava o seu português terrível com um jargão todo próprio. Expressões como “Ademã, que eu vou em frente”, “Cavalo não desce escada”, “De leve” e “Sorry, periferia” foram incorporadas à linguagem cotidiana, o que dá a medida do alcance da sua coluna, lida por pessoas de praticamente todos os estratos sociais entre os anos 50 e 60.

Foi nesse período áureo que Ibrahim criou as listas anuais das “dez mais”, que alvoroçavam o soçaite carioca. Ele elegia as dez mais belas mulheres, as dez mais elegantes e as dez melhores anfitriãs do Rio de Janeiro, o que era motivo de orgulho para quem ficava dentro e de suprema humilhação para quem permaneceria de fora. Em 1993, Ibrahim deixou o jornalismo diário e passou a publicar uma coluna dominical em O Globo. Uma de suas muitas tiradas lhe serviria bem como epitáfio: “Vim do povão e tirei o lugar do grã-fino que fazia coluna social”.

Fazia um dia lindo no Rio de Janeiro no domingo 1° de outubro, mas o colunista social Ibrahim Sued não teve tempo de aproveitá-lo, pela última vez, de “pernas de fora”, como achava apropriado. Ibrahim, que morreu no dia 1° de outubro de 1995, aos 72 anos, de infarto agudo do miocárdio, edema pulmonar e hipertensão arterial, no Rio de Janeiro. Na noite anterior à sua morte, havia participado de uma festa na casa de um empresário, onde exibiu uma habilidade de que muito se orgulhava: abrir garrafas de champanhe com um facão, à moda dos resturantes franceses.

(Fonte: Veja, 11 de outubro de 1995 – ANO 28 – N° 41 – Edição n° 1 413 – MEMÓRIA – Pág; 112)

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