Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista, editor, cassado ex-governador do extinto Estado da Guanabara

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Carlos Lacerda, o político do tudo ou nada

 

Lacerda, em janeiro de 1964, quando era governador da Guanabara
(Foto: John Loengard/Time Life Pictures/Getty Images)

 

Carlos Lacerda (Rio de Janeiro, 30 de abril de 1914 – Rio de Janeiro, 21 de maio de 1977), jornalista, editor, e cassado ex-governador do extinto Estado da Guanabara, Carlos Frederico Werneck de Lacerda. Uma das mais ricas e turbulentas vidas do cenário político nacional. Desde o final de 1976, quando decidiu assumir pessoalmente a direção de suas duas editoras – Nova Aguilar e Nova Fronteira -, pertencentes ao Grupo Novo Rio, do qual era presidente, Lacerda passou a trabalhar com redobrado ímpeto, pois ali, confessava, realizava um sonho de infância – ser dono de papelaria. Ainda assim, não mudou o temperamento: nos últimos meses, envolveu-se numa áspera polêmica com o Sindicato Nacional dos Editores e a Câmara Brasileira do Livro, a respeito de normas que tornariam obrigatória a edição de 20% de autores nacionais. Foi uma batalha travada através de jornais e revistas: o combativo, fulminante tribuno Carlos Lacerda estava silencioso desde a edição do AI-5, em dezembro de 1968, que o privou dos direitos políticos.

 

Carlos Lacerda (1914-1977) um direitista inteligente (Foto: A Hora / Reprodução)

 

Rua Toneleros – Houve tempo, porém, em que, militando na oposição e mesmo sem dispor de nenhum mandato efetivo, Carlos Lacerda brilhava como a figura central da política brasileira. Em 1954, era nas páginas da indomável Tribuna da Imprensa que alguns dos instrumentistas da “banda de música” udenista, no Parlamento, recolhiam as partituras para suas mais sonoras interpretações contra Getúlio Vargas e o “mar de lama” que o próprio presidente acabou denunciando nos porões do Palácio do Catete. Seria natural, portanto, que a investida da guarda pessoal de Vargas (sem o seu conhecimento, é verdade) visasse primeiro o jornalista, e não os parlamentares que lhe davam cobertura. No anoitecer de 5 de agosto de 1954, quando se recolhia à sua residência, na rua Toneleros, em Copacabana, na companhia do major da Aeronáutica Rubem Florentino Vaz, Lacerda seria o alvo de um dos mais célebres atentados da história política brasileira – atingido a bala por pistoleiros contratados pelo soturno chefe da guarda palaciana, Gregório Fortunato.

 

Ferido no pé, Lacerda respondeu aos tiros desajeitadamente, pois não tinha intimidade com o manejo de armas de fogo – e durante algumas horas angustiadas alimentou o temor de que tivesse sido o responsável pela morte do major Vaz. Tranquilizou-o o deputado Armando Falcão, então seu amigo próximo, que para tanto providenciou um exame da bala que atingiu o militar. Lacerda utilizou com mestria o trágico episódio: Gregório Fortunato foi preso, os pistoleiros por ele contratados implacavelmente perseguidos, e a situação política foi se abrasando – até desembocar na tragédia maior de 24 de agosto, quando Vargas fugiu de uma segunda deposição recorrendo ao suicídio.

 

O político Carlos Lacerda estava, então, maduro para colher os frutos dessas pelejas: em 1955, entraria para a Câmara dos Deputados, e nela figuraria sempre como um dos personagens de maior projeção. Dezenove anos antes ele também estivera no centro dos acontecimentos que levaram à primeira deposição de Getúlio Vargas, em outubro de 1945. Então, como repórter do Correio da Manhã, foi incumbido de entrevistar o paraibano José Américo de Almeida – um feito que selou o fim da censura aos jornais, executada pelo famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda, e, automaticamente, o fim do Estado Novo, já minado por manifestações variadas de inconformismo. A ditadura não resistiu a alguns meses de plena liberdade de imprensa.

 

Todas as conspirações – Na efervescência daqueles tempos de liberdade restaurada, Carlos Lacerda ganhou um mandato de vereador na Câmara do Rio de Janeiro. Seria um bom começo de carreira para quem, como ele, prudentemente abjurara de incômodas relações com o Partido Comunista, na clandestinidade do Estado Novo. Suas grandes, notáveis virtudes de tribuno parlamentar não despontariam na modéstia de uma Câmara de Vereadores – ele renunciaria pouco depois de eleito, na companhia de outro futuro expoente do udenismo e da oposição apaixonada, Adaucto Lúcio Cardoso, ambos inconformados com a supressão do direito de os vereadores apreciarem os vetos do prefeito do Distrito Federal às leis por eles votadas.

 

Lacerda fundou então seu próprio jornal, a Tribuna da Imprensa como jornalista se envolveria em todas as conspirações e tentativas de golpes tramados naqueles anos agitados – lutou para impedir a posse de Getúlio Vargas, em 1951, para destituí-lo em 1954, para impedir a candidatura de Juscelino Kubitschek, e depois sua posse na presidência da República, em 1956, ao mesmo tempo que construía, nas urnas, sua própria carreira política. Em 1961, já governador do recém-criado Estado da Guanabara, foi apontado pelo presidente Jânio Quadros como o principal responsável pela sua renúncia – na televisão, Lacerda denunciara abertamente supostas manobras presidenciais para suprimir o Congresso e as liberdades democráticas.

 

Seu prestígio político, é claro, não foi abalado. Jânio Quadros passou, Lacerda engajou-se quase que imediatamente numa conspiração nova em folha, agora para derrubar o vice-presidente João Goulart – e o 1.º de abril de 1964 foi encontrá-lo de metralhadora em punho, no Palácio Guanabara, à espera dos fuzileiros do folclórico almirante Cândido Aragão, que, supunha-se na época, iriam sustentar o governo prestes a ruir.

 

Pastas pretas – Nessa época, Carlos Lacerda sonhava com a presidência da República, e, vitoriosa a Revolução, articulou com os governadores Adhemar de Barros, de São Paulo, e Ildo Meneghetti, do Rio Grande do Sul, a candidatura do general Humberto de Alencar Castello Branco para cumprir o pouco tempo de mandato que restava a Goulart. A verdade dessas confabulações ainda está em discussão – mas não há nenhuma dúvida de que a eleição de Castello Branco marcou o começo do fim das carreiras de políticos do tipo Carlos Lacerda – homens de poderosa imaginação e fala fluente, capazes de inflamar auditórios e conquistar multidões de eleitores, nos comícios, com a mesma facilidade com que ganhava inimigos. Sentindo a mudança dos tempos, a pena terrível do jornalista, agora curtido por longos anos de atividade política, voltou-se contra o presidente que ajudou a eleger – e talvez jamais se tenha escrito, contra um chefe de governo, o que contra Castello Branco escreveu Carlos Lacerda.

 

Colecionados pessoalmente pelo presidente, seus artigos foram arquivados em solenes pastas pretas, impotentes para desviar o novo curso da política nacional. Com Castello Branco inaugurava-se uma dinastia de presidentes militares, contra a qual o intrépido Carlos Lacerda faria sua última investida no período de governo rigorosamente constitucional do marechal Arthur da Costa e Silva, em 1967/68. Então, num surpreendente gesto que a muitos pareceu generoso, Lacerda viajou para Lisboa, Montevidéu e São Paulo, e estendeu a mão a seus adversários de véspera – Kubitschek, Goulart e Quadros -, na tentativa de formação de uma frente ampla capaz de devolver a política a seus antigos proprietários. Muito da generosidade da iniciativa, logo apontaram seus adversários, perdeu-se com a constatação de que, dos quatro, Lacerda era na época o único a dispor de direitos políticos e desfrutar, assim, de condições para se eleger.

 

Sem direitos – Durante meses, agitou-se o cenário político nacional, justamente numa época em que os estudantes voltavam às ruas para reivindicar e protestar, e os trabalhadores ensaiavam suas greves. Tudo desaguou no tormentoso estuário de dezembro de 1968, quando nasceu o AI-5, o regime despiu-se de seus últimos adereços democráticos e Carlos Lacerda, como tantos outros, acabou privado dos direitos políticos.

 

Ele acabaria morrendo calado, no dia 21 de maio – e de forma inesperada, pois seu quadro clínico “não apresentava problemas”, segundo o médico Antônio Rebello Filho. Aos 63 anos, completados em abril, o jornalista, ex-governador cassado encerrou assim, quietamente e longe da ribalta, sua vida do cenário político. Na quinta-feira, dia 19 de maio, diante do que parecia ser um simples mal-estar, ele deixou de comparecer ao lançamento do livro “Os Militares no Poder”, do colunista político Carlos Castello Branco, e editado por sua iniciativa, pela Nova Fronteira. Era o início do drama. Lacerda começou a sentir dores gástricas. Submetido, então, a um eletrocardiograma, morreu antes que o exame chegasse ao fim, vitimado por enfarte aliado a choque e edema pulmonar agudo – apesar da crença, manifestada repetidas vezes por Lacerda, de que “não se morre de enfarte”.

 

Resgate impossível – “Morreu como viveu: do coração”, disse ao ser informado, o ex-presidente Jânio Quadros, seu aliado, depois adversário, novamente aliado político. Quadros, em todo caso, seria generoso: “Foi uma das inteligências mais brilhantes e um dos espíritos mais lúcidos que já encontrei, ambos possuídos por paixão que às vezes os toldava. Em todos os setores, na política, na literatura, nas artes, o país lhe fica devendo assinalados serviços”. Com ele se extingue a última leva de homens públicos brasileiros que repercutiram no exterior”, disse a deputada Sandra Cavalcanti no Rio de Janeiro, um dos raros companheiros de militância política.

Um exame mais cuidadoso pode revelar que não extingue uma leva – mas, de qualquer forma, a morte de Carlos Lacerda abre mais uma profunda vaga numa geração já rarefeita de políticos acostumada a conquistar suas posições nos palanques, falando diretamente ao eleitorado. Os costumes consagrados nos novos tempos vão impedir que surjam substitutos à altura para tais vagas, e essa talvez seja a melhor consagração que eles pudessem almejar. A Carlos Lacerda, de qualquer forma, o país fica a dever, além de serviços em variados campos, os direitos políticos confiscados oito anos atrás. Uma dívida agora impossível de resgatar.

“Se me cassarem? Se me cassarem o quê? Não preciso de direitos políticos. Já cassaram os direitos políticos de todo o povo. Agora, para me calar, terão que fazer uma operação na minha garganta. Pago qualquer preço para poder dizer o que penso”. Carlos Lacerda (1968).
Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista, editor, e cassado ex-governador do extinto Estado da Guanabara, Carlos Frederico Werneck de Lacerda. Uma das mais ricas e turbulentas vidas do cenário político nacional.
(Fonte: Veja, 25 de maio de 1977 – Edição 455 – MEMÓRIA – Pág; 32/33)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O golpismo de Carlos Lacerda está banido, felizmente, da vida pública. Mas seria bom recuperarmos sua intransigência com os vícios da República brasileira

“Não gosto de política… gosto é do poder. Política para mim é um meio para chegar ao poder”, diz Carlos Lacerda, em Depoimento, publicado em 1978, um ano após sua morte. De fato, a paciência não era sua maior virtude. Em 1955, Juscelino Kubitschek eleito presidente da República, Lacerda defendeu a anulação das eleições. Juscelino não havia feito maioria, seu meio milhão de votos sobre Juarez Távora eram votos dos comunistas. Às favas com o jurisdicismo da ala legalista da UDN. O caso era apear Juscelino, e logo João Goulart, seu vice, do poder. Lacerda tinha pressa.

 

O CORVO
Carlos Lacerda, em 1963, quando era governador da Guanabara. Ele tramou golpes para chegar ao poder, mas terminou a carreira de político como um derrotado (Foto: Folhapress)

 

Nos manuais de história, ele é o corvo da Terceira República. O apelido foi dado pelo jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Pegou. Lacerda incorporou o pássaro negro a sua propaganda. Proscrito da vida pública ainda relativamente jovem, assim prossegue. Nenhuma comissão da verdade pede o reexame de sua morte. Seu arqui-inimigo, Getúlio Vargas, chefe de um regime de exceção de década e meia, que fechou o Congresso, extinguiu os partidos, prendeu e torturou com sua polícia política, prossegue como herói da historiografia oficial.

 

Em parte, isso se dá pela sina incontornável da história: Lacerda foi um político derrotado. Nos 19 anos da “república populista”, andou sempre no avesso do poder. Terminou derrotado pelo regime militar – que apoiara e, depois, o baniu da vida política. Lacerda chegava à maturidade de seus 50 anos em 1964. Aspirava à Presidência, queria ser o candidato da “revolução”, nas eleições de 1965. Errou feio. De certo modo, terminou como Leonel Brizola, tolhido da chance de deixar um legado, como o fizeram Juscelino e Vargas. Brizola, longevo, ainda sobreviveu. Teve sua chance, na redemocratização. Lacerda se foi em 1977, inglório, morto de uma complicação cardíaca.

 

Vem daí o mérito do livro recém-lan­çado de autoria do historiador Rodrigo Lacerda, A república das abelhas. Rodrigo é um escritor premiado, doutor em história pela Universidade de São Paulo. É também neto de Carlos Lacerda. De cara, isso o livra do debate sobre o “distanciamento”. “Tentei tirar partido disso”, diz Rodrigo. E conseguiu. Rodrigo toma o avô como narrador de sua própria história e produz um livro cativante. Algo que ele chama, “por falta de definição melhor”, um “romance histórico”. Não gosto da expressão. Um livro de história sempre será uma obra de ficção. A ficção sobre o tempo que se foi e do qual recolhemos os pedaços. Rodrigo recolhe os cacos da história dos Lacerdas, desde o avô de Carlos, Sebastião, abolicionista e republicano, e estabelece seu ponto de vista.

 

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Rodrigo conta a história do atentado da Rua Tonelero, em 1954. Daria um bom hobby colecionar versões sobre o acontecido, naquela madrugada, em Copacabana. Conheço livros de história que asseguram tudo não ter passado de uma jogada para incriminar Getúlio: a confissão do negro Gregório, o ferimento de Lacerda, tudo mentirinha. História? Talvez seja melhor ficar com o romance, mas não faz muita diferença. Rodrigo escreve um livro cuidadoso, como devem ser os livros de história. Seu maior achado foi transformar Lacerda num homem ponderado.

 

Na classe média carioca, com alguma informação e bastante idade, Lacerda é lembrado como governador enérgico e competente, o primeiro do então recém-criado Estado da Guanabara, na primeira metade dos anos 1960. Seu governo universalizou o acesso ao ensino primário e chegou a publicar um decreto prevendo processo para os pais que não matriculassem seus filhos na escola. Modernizou a gestão, tornou obrigatório o concurso público, investiu como nunca em saneamento básico, investiu em obras estratégicas, como a estação Guandu, os túneis Rebouças e Santa Bárbara, mandou fazer o Parque do Flamengo. Lacerda disse, no fim da vida, que sempre quis ser escritor. Foi dramaturgo, traduziu 30 obras (de Shakespeare a Tolstói) e escreveu um livro de memórias, A casa de meu avô, que lhe valeu a frase de Carlos Drummond de Andrade de que bastava o livro “para garantir-lhe esse lugar que importa mais do que os lugares convencionalmente tidos como importantes”. Mas deixou sua melhor memória como gestor público.

 

Sua paixão definitiva foi o jornalismo de combate, o articulismo enragé, tradição hoje desaparecida, pois nenhum governante perde o sono em função de um artigo de jornal.  Escreveu um livro apresentando sua visão sobre o jornalismo, A missão da imprensa, em que faz uma candente defesa da independência do jornalismo diante dos governos e grupos de poder, a profissionalização do jornalista, o rigor na verificação das fontes. É evidente que esse não foi o caso de seu jornal, a Tribuna da Imprensa, fundada por ele. Nem foi o caso da publicação da Carta Brandi (uma carta forjada do deputado argentino Antonio Brandi a Jango, apresentada pelo jornal como a prova de uma conspiração para implantar uma “república sindicalista” no Brasil). O Lacerda reflexivo, saído da mente de Rodrigo, “fora do jogo, lembrando o campeonato”, quem sabe teria checado se aquela assinatura era mesmo verdadeira, antes de publicar a carta. Lacerda levou a contradição entre a palavra e a vida ao estado da arte.

 

Jovem comunista, Lacerda virou conservador e incorporou o
personagem do moralista da República

 

Nos anos 1930, foi comunista. Nunca foi formalmente aceito no partido, mas se tornou orador estudantil da Aliança Libertadora Nacional. Em 1935, fez a leitura do manifesto de Luís Carlos Prestes, que levaria ao fechamento da ALN. Rodrigo sugere um jovem Lacerda incomodado com a verborragia lunática de  Prestes, que entre outras coisas convocava os índios brasileiros a aderir à causa proletária. É possível. De todo modo, seu divórcio com o comunismo vem apenas no final dos anos 1930. Escreveu um artigo, “A exposição anticomunista”, segundo Lacerda com o conhecimento do partido, em que fazia crer que o PCB não tinha mais influência relevante na política brasileira. Foi expurgado. Seus amigos comunistas o largaram, sob o efeito do Artigo 13 do estatuto do Partidão, que proibia seus integrantes de falar com os inimigos do partido. Foi sua experiência pessoal com a ideia totalitária.

 

Da crítica ao comunismo emerge, nos anos 1940, o Lacerda conservador. Por volta de 1948, converte-se ao catolicismo, sob influência de Fulton Sheen, líder católico americano, carismático e tele-evangelista (atualmente em processo de beatificação), e de intelectuais, como Alceu Amoroso Lima. Lacerda lapida sua concepção do universo político, segundo a qual “o liberalismo só pode funcionar em uma sociedade dotada de base moral”. Base moral que, por suposto, subordina qualquer ideia de pluralismo político e social. Não é um acaso que a Tribuna da Imprensa surge, no final de 1949, com o objetivo explícito de “cristianizar a sociedade”. No ambiente da Guerra Fria, o discurso conservador encontrava uma tradução fácil: o anticomunismo, mistura de “medo real com uma espécie de indústria do pavor”, na definição de Elio Gaspari. O comunismo, hoje, é um espantalho, e o moralismo católico saiu de moda. À época, dava audiência e um bom bocado de votos. O mundo andava em transição, nos anos 1950 e 1960. A juventude lia Jack Kerouac e experimentava a liberdade sexual que a pílula oferecia, mas expressões como o “perigo vermelho” e a “destruição do nosso modo de vida”  mexiam com a cabeça das senhoras de Copacabana. Lacerda soube ser seu porta-voz.

 

Suas posições, naqueles anos, são bem conhecidas – e não são isentas de contradições. Em 1947, agiu como um liberal, reagindo à decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de cancelar o registro do PCB. Diferentemente dos trabalhistas e da máquina sindical atrelada ao governo, avessos à concorrência. Em 1954, foi o pivô da crise de agosto, que levou ao suicídio de Vargas. Em seguida, defendeu o adiamento das eleições, alegando a necessidade de um “estado de exceção”, um período de reforma constitucional para corrigir os males de nossa democracia. Em 1955, zarpou no Cruzador Tamandaré, com o presidente interino Carlos Luz, acossado pelos canhões do Forte de Copacabana, em oposição à posse de Juscelino. Em 1961, opôs-se à posse constitucional de Jango e, em 1964, liderou a mobilização golpista no Rio de Janeiro, com sua metralhadora INA a tiracolo, desde o Palácio Guanabara.

 

Sempre desconfiei dos que atribuem coerência demais à trajetória dos atores políticos. O jogo do poder frequentemente adquire uma lógica própria, há o erro, há o desvio, o exagero e, por fim, há sempre muita teoria disponível para interpretar e ajustar a realidade. O fato é que Lacerda fez do “golpismo democrático” a marca maior de sua personalidade política. Aquela que produziu o “lacerdismo”, uma arte, um pecado da política brasileira, que consiste em pôr em xeque as instituições da República quando interessa. Uma arte sem ideologia, frequentemente feita de bons argumentos. Pecado que ninguém mais, felizmente, soube cometer como Lacerda.

 

Quem sabe o lacerdismo tivesse um componente estético. Lacerda foi, na definição de Rodrigo, alguém com a “trágica incapacidade de aceitar o mais ou menos, na terra do mais ou menos”. O ponto é que a democracia vive, em boa medida, do mais ou menos. Do acordo, da procura pelo consenso. A vida de Lacerda foi a recusa permanente do acordo. Talvez tenha sido seu personagem: o moralista da República. Atores políticos elegem seus personagens. Juscelino escolheu ser o otimista, o democrata, o “sonhador do Brasil”; Tancredo escolheu ser a tradução discreta do bom-senso. Lacerda fez sua escolha. Nunca pareceu arrependido, mesmo na derrota.

 

ELOQUÊNCIA
Lacerda discursa em São Caetano do Sul, São Paulo, em 1968, durante ato da Frente Ampla, que se opunha à ditadura militar. Seu poder de atração era sua oratória (Foto: Acervo UH/Folhapress)

 

Fiel seguidor do “estilo dos Lacerdas” – herdado de seu pai, Maurício, deputado na República Velha, pioneiro na defesa da legislação trabalhista –, Lacerda foi muito além. Seu poder de atração residia, essencialmente, na palavra, no talento de orador. O maior de todos, na opinião insuspeita de Almino Affonso. A autoconfiança que o fez entrar sozinho, numa madrugada de dezembro de 1961, no presídio Lemos de Brito, para controlar a rebelião de algumas centenas de detentos, episódio em que teria sido ajudado pelo preso ilustre, Gregório Fortunato. Exagero ou não, está lá, numa carta de Drummond, de 1976: “Ninguém é indiferente ao charmeur irresistível que você é; e mesmo os que dizem detestá-lo, no fundo, gostam de você. Gostam pelo avesso, mas gostam”.

 

A vocação de charmeur, quem sabe, fez com que conseguisse, a partir de 1966, uma improvável reaproximação com Juscelino e Jango, para a formação da Frente Ampla, em oposição ao regime militar. Também aí foi derrotado. São muitas as razões. Uma delas era a memória, ainda fresca. Mesmo que pensasse rápido, que não guardasse mágoa, era óbvia, para Lacerda, a dificuldade de ser reconhecido como um democrata pela oposição ao regime. Em 1968, logo após a decretação do AI-5, Lacerda teve seus direitos políticos cassados por dez anos.

 

Só com a Constituição de 1988, e após o impeachment de Fernando Collor, que a República adquiriu alguma estabilidade. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, foi criado o Ministério da Defesa, que passou a ser ocupado por um civil, e as Forças Armadas retiraram-se por completo da cena política. Logo que eleito, Fernando Henrique sugeriu que chegara o tempo de superar a era Vargas: a era do Estado empresário, do sindicalismo oficial, do empreguismo público, da cooptação política via distribuição dos cargos e favores públicos. A lista dos arcaísmos brasileiros é extensa e velha conhecida. Fernando Henrique poderia ter acrescentado que também chegara o tempo de superar a “era Lacerda”. A era do tudo ou nada, do diálogo impossível, do logro permanente das regras do jogo. Havia chegado o tempo da convergência.  Em nome desse aprendizado, haviam sido feitas a anistia, a transição pacífica para o poder civil, a nova Constituição e, finalmente, a normalização econômica do país, com o Plano Real. Nesta Quinta República, é certo que o Lacerda moderno, defensor do fim do imposto sindical, do direito das famílias à escolha educacional, e o Lacerda intelectual teriam algum papel a cumprir. O “corvo”, papel nenhum.

 

Rodrigo, agora, nos deve um segundo volume, contando sobre seu avô nos anos de 1954 a 1977. Quem sabe um Lacerda, já veterano, entre suas abelhas, nos conte sobre suas aventuras da maturidade. Não apenas sobre seu governo na Guanabara, sua vitória de Pirro em 1964, mas também arrisque um pouco mais. Que diga se acreditava, realmente, no moralismo udenista e se de fato errou na perseguição que promoveu a Juscelino, como teria reconhecido, num encontro da Frente Ampla. Que fale de suas amizades com os intelectuais, de John dos Passos a Erico Veríssimo, e nos confesse se, nos últimos anos, não fora se tornando mais um liberal e menos um conservador. E, de passagem, nos conte sobre o que realmente aconteceu entre ele e Shirley McLaine, naquele outono californiano de 1968.

(Fonte: http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/02 – IDEIAS / Por FERNANDO SCHÜLER* – 09/02/2014)

* Fernando Schüler é doutor em filosofia, diretor do Ibmec RJ e curador do Projeto Fronteiras do Pensamento

 

 

 

 

 

 

Em 27 de dezembro de 1949, Carlos Lacerda cria o jornal Tribuna da Imprensa, no Rio de Janeiro.

(Fonte: Zero Hora – Ano 54 – N° 18.970 – 27 de dezembro de 2017 – ALMANAQUE GAÚCHO / Por Ricardo Chaves – Pág: 44)

 

 

 

Lacerda quer editar e escrever muito

Falando nada de política e muito sobre suas editoras, o jornalista e ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, esteve ontem em Porto Alegre autografando seu livro Em Vez. Lembrando que sua cassação termina em dezembro de 1978, Lacerda esquiva-se de escrever sobre temas políticos e conta sobre os diversos projetos literários aos quais se dedica.

(Fonte: Zero Hora – ANO 42 – Nº 14.642 – HÁ 30 ANOS EM ZH (1975) – 26 SETEMBRO 2005 – Pág: 39)

 

 

 

Juscelino Kubitschek lança em Lisboa, com Carlos Lacerda, um manifesto de oposição ao regime militar, em 19 de novembro de 1966.
(Fonte: Zero Hora – ANO 45 – Edição n° 15.787 – Hoje na História – Almanaque Gaúcho/ Por Olyr Zavaschi – 19 de novembro de 2012 – Pág; 54)

 

 

 

Em 5 de agosto de 1954 – Dois pistoleiros contratados pelo chefe da guarda palaciana Gregório Fortunato tentaram matar o jornalista Carlos Lacerda, que vinha fazendo sucessivos ataques ao presidente Getúlio Vargas. O major da Força Aérea Brasileira (FAB) Rubens Florentino, que fazia as vezes de guarda-costa de Lacerda, foi morto no incidente batizado de “Atentado da Rua Toneleros”.
(Fonte: http://www.guiadoscuriosos.com.br/fatos_dia – 5 de agosto)

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