Brasil – Os primeiros cem anos
1500-1600
As armas da conquista do Brasil
(administrativas, espirituais e econ?micas)
Medidas administrativas: nas primeiras d?cadas do s?culo 16, Portugal n?o manifestou maiores interesses pela ocupa??o do litoral da terra de Vera Cruz. Arrendou-o, num contrato renov?vel a cada tr?s anos, para um sindicato de crist?os-novos, liderado por Fern?o de Noronha, que aqui esteve em viagem de reconhecimento em 1503. Os contratantes comprometiam-se a manter uma pequena esquadra de 6 barcos patrulhando o litoral, bem como construir um forte ( em Cabo Frio), entregando tamb?m a del-rei 20 mil quintais de pau-brasil.
Um pouco antes, em 1501, D.Manuel, o Venturoso, enviou uma expedi??o naval de reconhecimento capitaneada por D. Nuno Manuel que trouxe Am?rico Vesp?cio a bordo. Ela percorreu o litoral da nova terra por mais de 4.600 quil?metros, dando nome aos acidentes geogr?ficos que encontrou pelo caminho, cabos, bocas de rios, enseadas e baias, desde o cabo de S?o Roque, na linha do equador, at? a ilha de Canan?ia, onde hoje ? o Estado do Paran?. N?o visualizaram nada de ouro ou preciosidade outra que motivasse um interesse maior e mais imediato para o olho guloso do monarca.
O passo seguinte ao arrendamento foi a doa??o de capitanias, sistema adotado pelo rei D. Jo?o III, em 1534. As terras do Brasil, a partir do litoral, medindo de 30 at? 100 l?guas, foram divididas em 15 parcelas e doadas a 12 fidalgos portugueses na expectativa que eles se interessassem em proteg?-las e torn?-las pr?speras. No entanto, a sua maioria n?o se mostrou capaz de afastar os franceses, aumentar a extra??o da preciosa madeira, ou mesmo impulsionar qualquer outra tipo de explora??o de ?lenho comercial? que tornasse as posses economicamente vi?veis.
O governador-geral: o evidente fracasso do sistema de capitanias e a crescente preocupa??o com a rivalidade na disputa pelo controle do litoral brasileiro (a Espanha, pelo Tratado de Sarago?a, de 1529, reconhecera os direitos lusos sobre o Brasil), assediada por contrabandistas e cors?rios atr?s do pau-de-tinta, fez com que o rei portugu?s tomasse duas medidas de larga repercuss?o hist?rica. Em 1548 nomeou por carta r?gia a D.Tom? de Souza como o primeiro governador-geral do Brasil. Fracassados os dois projetos privatizantes, o do arrendamento e o das capitanias, o reino estatizou a ocupa??o e a coloniza??o o que tamb?m teve largas implica??es hist?ricas e culturais no destino do Brasil. O escolhido vinha com suas tarefas bem detalhadas pelo Regimento de Almerim – que muitos insistem ser a ?Primeira Constitui??o do Brasil?. Al?m de fundar a cidade de Salvador, nome previamente determinado pela Coroa, devia ele construir engenhos, criar estaleiros, proteger os silv?colas, estabelecer os assentamentos da futura cidade-capital a ser erguida ?mais para dentro na bahia?, ser magistrado, povoar terras, erguer fortifica??es, inspecionar as capitanias bem como assegurar-lhes a seguran?a , promover os servi?os religiosos, supervisionar o com?rcio do pau-de-tinta, estimular as entradas no sert?o atr?s das drogas e reprimir os cors?rios e contrabandistas que assolavam o litoral.
A ?Armada do Brasil?, que desferrou-se de Lisboa em 1? de fevereiro de 1549 para realizar a grande atravessia contando com ?pr?speros ventos?, perfazia um total de 8 barcos, sendo a maior frota expedida pelo Rei D.Jo?o III em dire??o a nova col?nia. Numa viagem ?segura, r?pida e bonan?osa?, impulsionada por ?ares amiguentos?, demoraram apenas 56 dias para atingir a Baia de Todos os Santos na capitania da Bahia. Com o rec?m nomeado preposto real, enviando com ele, aportaram na Bahia em 29 de mar?o de 1549, para os trabalhos de catequese, um pequeno grupo de padres jesu?tas, chefiados pelo padre Manuel da N?brega.
O poder clerical: o mais alto poder eclesi?stico se fez presente tr?s anos depois da funda??o de S?o Salvador, com o desembarque em 22 de junho de 1552, de D.Pedro Fernandes Sardinha, que vinha atender aos rogos do padre N?brega para que providenciassem um bispo ?para vir trabalhar e n?o para ganhar…..porque a terra ? pobre?. A cidade de Salvador, que recebeu como armas ?uma pomba branca com tr?s folhas de oliva no bico, em campo verde, com um rolo ? roda branco?, onde dizia Sic illa ad Arcam reversa est, por sua vez, tornou-se o ponto estrat?gico para a ocupa??o e vigil?ncia do vast?ssimo litoral a ser protegido. Ela foi a capital do Brasil Col?nia at? 1763, quando depois de ser sede do governo-geral por 214 anos, trocaram-na por S?o Sebasti?o do Rio de Janeiro.
Medidas militares: al?m de barcos-patulha, foram instalados v?rios fortes e fortins ao longo da costa brasileira. Constru?dos primeiro com taipa, madeira e ad?be, depois com pedra e cal. Erguidos em Santos a partir de 1532, eles se espalham pelo Rio de Janeiro (S?o Jo?o), arredores de Salvador (Santo Ant?nio da Barra, S?o Felipe, e S?o Bartolomeu), e em frente ao Recife e a Olinda (do Mar, e de S?o .Jorge, o velho)
As v?timas: para os ind?genas (as principais tribos conhecidas, de norte para o sul, eram os potiguares, os trememb?s, os tabajaras, os caet?s, os botocudos, os tupiniquins, os temimin?s, os goitac?s, os tupinamb?s, os tamoios e os carij?s, e umas outras 200 espalhadas pelo restante do pa?s), a conquista se mostrar? terr?vel.
Conforme o escambo dava lugar ? lavoura, eles foram v?timas de uma crescente ca?a por sua m?o-de-obra. A provis?o de D.Sebasti?o de 1573, de s? permitir a servid?o for?ada em caso de ?guerra justa?, impedindo a captura dos ?ndios, nada adiantou na pr?tica. Nem lhes serviu a anterior emiss?o da bula papal Veritas ipsa, de 1537, que os reconhecia como ?verdadeiros homens?, mesmo que n?o tivessem conhecimento dos ensinamentos de Cristo.
Indignados e revoltados contra o trabalho servil, eles promover?o v?rias rebeli?es. O tupinamb? ?se alevantou e cometeu grandes insultos ?, como assegurou Gabriel Soares de Souza, tais como a Revolta Bras?lica, durante a governadoria de D.Duarte da Costa, em 1555, ocorrida na regi?o do Rec?ncavo baiano, sufocada por ele e por seu sucessor Mem de S?, devido ? superioridade armada e melhor organiza??o do colonizador.
Mais dos que as guerras que os colonos lhes moviam, o que mais os dizimou foram as epidemias provocadas pelo contanto com o homem branco. Destitu?dos de anticorpos morriam aos magotes, devastados pelo sarampo e pela var?ola e, por vezes, por uma simples gripe. ?Destru?ram-nos , pouco a pouco? assinalou o cronista G?ndavo, lembrado por Mario Maestri Filho, fazendo com que ?a costa? ficasse ?despovoada de gentio?. Dos dois milh?es deles estimados ? ?poca do descobrimento, restam hoje pouco mais de 300 mil. ? certo que grande parte da popula??o original necessariamente n?o foi morta, mas sobreviveu gra?as ao intenso processo de miscigena??o, fazendo com que isso se tornasse numa caracter?stica determinante do multiculturalismo brasileiro.

