Bert Schneider, um dos principais responsáveis pelas mudanças do cinema no final dos anos 1960.

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Bert Schneider (1933-2011), produtor, um dos principais responsáveis pelas mudanças do cinema americano no final dos anos 1960, durante a chamada “Nova Hollywood”.

Schneider lançou dramas de impacto cultural, que marcaram mudanças estéticas e apontaram o caminho para o surgimento de uma nova era. De quebra, também influenciou o rock.

Numa época em que filmes independentes eram sinônimos de produções baratas de terror e violência, ele viabilizou, dentro dos grandes estúdios, filmes autorais que alteraram a dinâmica das produções cinematográficas. No lugar da primazia comercial do estúdio, Schneider preferiu incentivar a visão do diretor. E esta iniciativa fomentou obras-primas indiscutíveis, que impactaram gerações de cineastas e estão ma base do movimento indie de cinema.

Filho de Abraham Schneider, diretor da Columbia Pictures, ele foi trabalhar na divisão televisiva da subsidiária Screen Gems após ser expulso da faculdade e não ser nada além de desapontamentos para o pai. Nos bastidores do estúdio, acabou se aproximando de outro jovem rebelde, o futuro cineasta Bob Rafelson, que vivia enfrentando críticas dos produtores de TV mais experientes por suas ideias “malucas”.

Rafelson e Schneider perceberam que tinham muito em comum e, além de amigos, tornaram-se sócios numa produtora, a Raybert Productions, em 1965. E, como primeiro projeto, decidiram criar sua própria versão dos Beatles.

A dupla imaginou que uma série de humor sobre uma banda de rock, inspirada pelo filme “Os Reis do Iê-Iê-Iê” (A Hard Day”s Night), seria a chave de seu sucesso. Só precisariam encontrar atores capazes de cantar e tocar instrumentos. Com isso em mente, deram início a uma maratona de testes, em busca de “quatro garotos insanos”. Acabaram se decidindo por Davy Jones, Micky Dolenz, Michael Nesmith e Peter Tork. Juntos, os quatro foram batizados de The Monkees.

A ideia de uma versão americana dos Beatles, premeditada para a TV, pode até parecer comercial nos dias de hoje, mas, como Micky Dolenz lembrou, em entrevista recente, “a gente só via jovens cabeludos na televisão quando eles eram presos nos telejornais”.

O programa foi vendido para a Screen Gems, graças às conexões de Schneider. Na ocasião, o diretor do estúdio chegou a dizer, famosamente, “Não entendi nada, mas vai fazer sucesso”. E fez. Tornou-se um fenômeno pop. Além dos episódios exibidos de 1966 a 1968, dos quais Rafelson dirigiu seis, a série rendeu um longa-metragem e discos que venderam mais de 65 milhões de cópias em todo o mundo. Foram diversos hits, até hoje regravados, mas também uma abordagem inovadora da linguagem televisiva: a produção de “Os Monkees” tinha tramas nonsense, situações surrealistas e muito espaço para a improvisação.

Contrariando expectativas, “Os Monkees” ganhou o prêmio Emmy de Melhor Série de Comédia em 1967. Mas já no ano seguinte, graças ao advento da psicodelia e dos hippies, o programa se tornou datado. Até os Beatles tinham trocado seu visual pueril por barbas e cabelos cada vez mais longos. E não havia jeito de a Screen Gems topar uma série sobre hippies.

Diante da expectativa de cancelamento, os produtores decidiram levar os Monkees ao cinema, trabalhando num roteiro extramente psicodélico, ácido até, co-escrito por ninguém menos que Jack Nicholson. O filme teve direção de Rafelson e participação de figurantes famosos (alguns, futuramente famosos) como Frank Zappa, Annette Funicello, Victor Mature, Teri Garr, Toni Basil, Dennis Hopper e o próprio Jack Nicholson. A mudança de tom, que implodia a imagem da banda, não foi bem recebida pelos fãs e o filme “Head” (1968) fraturou-se nas bilheterias. Peter Tork abandonou os Monkees logo em seguida.

Dennis Hopper, porém, adorou a maluquice dos produtores e decidiu bater no escritório da Raybert para convencê-los a bancar um filme sobre motocicletas como “as máquinas definitivas da liberdade”. Schneider concordou em financiar a ideia, bancando a produção com US$ 360 mil de seu próprio bolso – dinheiro obtido com os lucros de “Os Monkees”.

O entusiasmo era contagiante, mas eles não tinham um estúdio que distribuísse a produção e ainda apostavam que Dennis Hopper, um ator conhecido por causar problemas nos bastidores desde seus tempos de “Juventude Transviada” (1955), saberia o que fazer como diretor. Mais incrível que isso: Schneider até jurou não interferir na produção.

“Aquele foi o começo dos filmes independentes e, mais que isso, uma celebração das temáticas anti-Sistema”, recordou Rafelson, em entrevista ao Los Angeles Times na quinta-feira (15/12). “Bert quebrou todas as regras de Hollywood”.

Schneider se identificava com as ideias de Hopper, porque ele próprio era um jovem cabeludo, que acreditava ter mais em comum com a contracultura que com Hollywood. Não estava apenas seguindo modismos. Era um ativista convicto, que participou de protestos contra a presença americana no Vietnã e se envolveu em atividades clandestinas. De fato, Schneider ajudou Huey Newton, co-fundador dos Panteras Negras, a escapar para Cuba em 1974, fugindo de uma acusação de assassinato, e apoiou o líder estudantil Abbie Hoffman quando ele foi acusado de conspiração por incitar um tumulto na convenção do Partido Democrata em 1968.

Ao passar seu cheque para Hopper, o produtor só fez um pedido: escalar Jack Nicholson como o advogado de fala mansa, que faria o grande discurso do roteiro. “Bert, eu quebro essa pra você, mas ele vai arruinar o meu filme”, recordou o diretor mais tarde. O filme, claro, era “Easy Rider – Sem Destino” (1969), e o texto de Nicholson se tornou um daqueles momentos definidores de uma geração. O roteiro de Hopper e a interpretação de Nicholson foram ambos indicados ao Oscar.

“Easy Rider” acompanhava dois motoqueiros que cruzavam os EUA traficando e consumindo drogas. No meio da viagem, encontravam hippies, quadrados e extremistas de direita, culminando num confronto trágico. Além de filmar, Hopper encarnou um dos motoqueiros, ao lado de Peter Fonda, cujo personagem icônico era apelidado de “Capitão América”. Tudo ao som do bom rock da época, numa trilha com The Jimi Hendrix Experience, The Byrds, The Band, The Electric Prunes e Steppenwolf.

Bert Schneider projetou o filme para os executivos da Columbia, que o odiaram – inclusive seu pai. A lenda conta que apenas um executivo ficou presente até o final da projeção, abandonada em massa sob protestos dos profissionais do estúdio. Mas os laços familiares pesaram na hora de fechar o negócio. “Easy Rider” foi lançado sem grandes expectativas ou planejamento estratégico de marketing. Mesmo assim, os cinemas lotaram de adolescentes e sua trilha se provou um sucesso atemporal.

Mais que som e música, a imagem de Hopper e Fonda sobre duas Harley-Davidson na estrada, embalada por “Born to Be Wild”, tornou-se tão icônica que saiu das telas para popularizar uma expressão usada pela primeiríssima vez numa letra de rock: aquilo era “heavy metal”, como dizia o hino do Steppenwolf. “I like smoke and lightning/Heavy metal thunder”.

O cheque de US$ 360 mil voltou com juros. “Easy Rider” faturou US$ 20 milhões nas bilheterias, abrindo caminho para uma nova onda de diretores, como o próprio Rafelson, além de George Lucas, Francis Ford Coppola, Paul Mazursky, Peter Bogdanovich, Sydney Pollack, Terrence Malick e Martin Scorsese, que passariam a contar histórias não convencionais com baixos orçamentos, numa brecha autoral até então inexistente em Hollywood. Este movimento, que capturava a sensibilidade da juventude e ideias da contracultura, foi batizado de “Nova Hollywood” e marcou o surgimento dos ideais do cinema independente americano.

Rafelson dirigiu Nicholson no filme seguinte da produtora, “Cada um Vive como Quer” (Five Easy Pieces, 1970). A trama, sobre um rapaz da classe média que abandona os estudos e se rebela contra a família conservadora, trazia ecos da vida de Schneider. As dúvidas, questionamentos e recriminações também reverberavam o estado de espírito dos EUA, que se encontravam divididos entre os que apoiavam o “Sistema” e a juventude que protestava nas ruas.

A capacidade de captar e retratar sua época rendeu um novo sucesso para a companhia, além de materializar Nicholson, indicado pelo segundo ano consecutivo ao Oscar, como o grande astro da “Nova Hollywood”.

Ambicionando crescer, Rafelson e Schneider se juntaram a um terceiro sócio, Stephen Blauner, vice-presidente da Screen Gems, e mudaram o nome de sua empresa para BBS Company. Eles financiaram a estreia de Jack Nicholson na direção, “O Amanhã Chega Cedo Demais” (Drive, He Said, 1970), uma dramédia caótica e subversiva sobre os protestos estudantis da América.

Também incentivaram o estilo discursivo de Henry Jaglom, lançando sua estreia “Refúgio Seguro” (A Safe Place, 1971), com Tuesday Weld, Jack Nicholson e Orson Welles. E quase implodiram gloriosamente em dois anos, após o tombo nas bilheterias de um novo filme de Rafelson, “O Dia dos Loucos” (The King of Marvin Gardens, 1972), outra vez com Nicholson.

Os caminhos tortuosos não impediram que a BBS deixasse uma filmografia de respeito, valorizada por uma verdadeira joia cinematográfica que merece ser reconhecida como obra-prima. Em 1971, Schneider bancou o projeto autoral de Peter Bogdanovich, centrado no amadurecimento de um adolescente restrito, por suas condições sociais, à falta de oportunidades de uma cidade pequena. Tratava-se de “A Última Sessão de Cinema”, um dos melhores dramas da década.

Filmado em preto e branco numa época que já relacionava a falta de cores como “filme antigo”, “A Última Sessão de Cinema” nasceu com cara de clássico. O filme foi indicado a oito Oscars, entre eles a primeira nomeação do ator Jeff Bridges – e acabou conquistando dois troféus para seus coadjuvantes: Cloris Leachman e Ben Johnson.

Schneider ganhou o seu próprio Oscar em 1975, ocasião em que protagonizou a maior polêmica de sua carreira. Ao receber o troféu de Melhor Documentário pelo famoso “Corações e Mentes” (Hearts and Minds, 1974), que retratava a Guerra do Vietnã, leu um telegrama oferecendo “saudações de amizade” de um diplomata norte-vietnamita. O apresentador Bob Hope se revoltou e insistiu que a Academia voltasse ao ar com uma nota de repúdio, que foi lida pelo cantor Frank Sinatra. Os dois, de acordo com o testemunho de Rafelson, também se envolveram numa briga com Schneider nos bastidores da premiação.

“Corações e Mentes” foi um dos primeiros filmes americanos a abordar o conflito vietnamita com uma postura crítica e contrária à guerra. Sua tese era sintetizada pelas palavras do analista militar Daniel Ellsworth: “Nós não estamos do lado errado: nós somos o lado errado”.

Apesar do sucesso, Schneider logo se cansou de produzir filmes, voltando-se cada vez mais ao ativismo político. Ele também tinha uma personalidade autodestrutiva e era conhecido por bancar festas marcadas por excessos. Após terminar um relacionamento com a atriz Candice Bergen, acabou se envolvedndo escandalosamente com uma colega de sua filha de 16 anos de idade. Seu dinheiro e conexões ajudaram a mantê-lo fora da cadeia até quando uma pessoa morreu durante uma de suas festas.

Antes de abandonar o cinema completamente, o produtor ainda foi responsável por uma obra de profunda beleza. Em 1978, Schneider se encantou com o lendário cineasta Terrence Malick e lançou sua poesia cinematográfica “Dias de Paraíso” (Days of Heaven).

Passado no campo, durante a Grande Depressão, o drama acompanhava dois amantes pobres, que planejam herdar a fortuna do patrão. Mas Richard Gere e Brooke Adams acabaram disputando os closes com registros tocantes do cotidiano do trabalho rural.

Obra repleta de tomadas da natureza, “Dias de Paraíso” aproximou o cinema da pintura e marcou o apogeu do chamado “cinema de arte” nos EUA. Por seu trabalho no longa, Néstor Almendros levou o Oscar de Melhor Fotografia.

A última produção de cinema de Schneider foi lançada em 1981, “Broken English”, que destacava no elenco Oona Chaplin, a viúva de Charles Chaplin. Foi o único filme estrelado por Oona, que conheceu Chaplin num teste de interpretação nos anos 1940, mas desistiu de ser atriz ao optar pelo casamento. Schneider tinha se tornado amigo da família ao produzir um documentário sobre Chaplin em 1976, um ano antes da morte do cineasta genial.

Nos últimos anos, Schneider enfrentou os seus próprios demônios, incluindo um vício crônico em drogas, e um incêndio que destruiu sua mansão de Beverly Hills – e que quase o levou embora mais cedo. Como na tradução nacional do título de seu filme de 1970, ele viveu como quis. Foi casado quatro vezes e teve dois filhos. Tinha 78 anos e morreu dia (12/12) de causas naturais em Los Angeles.
(Fonte: www.pipocamoderna.com.br – Marcel Plasse
– dez 18 2011)

 

Bert Schneider (5 de maio de 1933 – 12 de dezembro de 2011), produtor conhecido por ser um dos produtores do filme “Sem Destino/Easy Rider”, Schneider também foi um dos criadores e produtores da série “Os Monkees”.
Berton Jerome Schneider nasceu no dia 5 de maio de 1933, iniciando sua carreira de produtor na década de 1960. Nesta época, ele trabalhava na Screem Gems, subsidiária da Columbia Pictures, onde conheceu o diretor Robert Rafelson, com quem formou a Raybert Productions em 1965.
Através desta empresa, Bert e Bob ofereceram à Columbia o projeto de série musical “Os Monkees”, que adaptava a onda dos músicos de garagem para a TV. Na esteira do sucesso dos Beatles, a série trouxe uma visão psicodélica sobre um grupo formado por quatro músicos que luta por uma chance de mostrar ao mundo seu talento.
A série estreou em 1966 pelo canal NBC transformando-se em um retrato da contracultura que predominava na época. “Os Monkees” também explorou o cruzamento de veículos para se autopromover. Desta forma, o grupo visto na história também foi formado na vida real, apresentando-se em turnês e lançando álbuns.
Tendo ganho o Emmy de Melhor Comédia em 1967, o sucesso de “Os Monkees” abriu as portas da indústria cinematográfica para a dupla, que primeiro produziu o filme “Head”, lançado em 1968. Trata-se da versão para o cinema da série “Os Monkees”, com roteiro de Bob Rafelson e Jack Nicholson, na época um ator pouco conhecido.
O fracasso do filme não impediu que Schneider e Rafelson produzissem “Sem Destino/Easy Rider”, lançado em 1969, com roteiro de Dennis Hopper, Peter Fonda e Terry Southern. Um road movie que se transformou em um marco da contracultura. Com um orçamento de 400 mil dólares, até 1972 o filme já tinha rendido cerca de 60 milhões em sua exibição nos cinemas.
Nos anos seguintes, Schneider produziu “Cada um Vive Como Quer/Five Easy Pieces”, “A Última Sessão de Cinema”, “Corações e Mentes”, “Dias de Paraíso”, entre outros.
Em 1975, Schneider, em parceria com Peter Davis, ganhou o Oscar de Melhor Documentário com “Hearts and Minds”, produção que apresentou a oposição de americanos à Guerra do Vietnã. A era dos blockbusters substituiu o período dos filmes políticos, levando Schneider a se afastar da indústria.
O produtor foi casado quatro vezes. A primeira, entre 1955 e 1973, com Judith Feinberg, com quem teve dois filhos, Audrey e Jeffrey Schneider.
O produtor Bert Schneider faleceu no dia 12 de dezembro, aos 78 anos de idade, vítima de pneumonia, após passar por um período enfermo.
(Fonte: http://www.veja.abril.com.br/blog – Temporadas/ Por Fernanda Furquim – 02/01/2012)

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