Antônio Francisco Azeredo da Silveira, diplomata de carreira, foi ministro das Relações Exteriores

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Antônio Francisco Azeredo da Silveira (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1917 – Rio de Janeiro, 27 de abril de 1990), diplomata de carreira que foi ministro das Relações Exteriores do governo Ernesto Geisel e embaixador brasileiro em Washington na gestão do presidente João Figueiredo.

A frente do Itamaraty, Azeredo da Silveira foi um dos executores da política externa de aproximação com os países do Terceiro Mundo – que hoje é renegada pelo presidente Fernando Collor.

Foi obra do chanceler Azeredo da Silveira o restabelecimento das relações diplomáticas do Brasil com a China e o reconhecimento da independência de Angola, país africano de regime comunista. No governo Sarney, foi o embaixador brasileiro em Lisboa.

Diplomata com muitos seguidores e desafetos, à esquerda e à direita, Antônio Azeredo da Silveira (1917-1990), foi Chanceler de 1974 a 1979, na ditadura militar, Silveira consolidou com o presidente Ernesto Geisel uma virada diplomática -o Brasil deixou o “alinhamento automático” com os EUA existente após o golpe de 1964, rompeu com o colonialismo português na África e aproximou-se de países árabes (motivado pela crise do petróleo). A política foi batizada por Geisel de “pragmatismo responsável”, a segunda palavra indicando que não romperia limites inaceitáveis para os militares, como reatar relações com Cuba.

Mas Silveira preferia qualificá-la de ecumênica, enfatizando a diversificação de parcerias: “A triangulação [com América do Sul, África e Japão]era a única maneira de a voz brasileira ser ouvida pelas superpotências”. Ele gravou a entrevista entre 1979 e 1982, quando embaixador nos EUA, para ser divulgada depois de sua morte. “Azeredo da Silveira, um Depoimento” é a primeira transcrição. Nela, qualifica de “subdesenvolvidos mentais” seus críticos na linha-dura militar e na imprensa: “Querem ensinar os americanos a ser ocidentais. Se há um país que não tem mais tamanho para parceria seletiva é o Brasil”. 

 

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LINHA HISTÓRICA
O organizador do livro é Matias Spektor, da FGV-Rio, que no livro “Kissinger e o Brasil” descreveu a tentativa de Silveira de estabelecer “relação especial” com os EUA, frustrada no governo de Jimmy Carter (1977-1981). Para Spektor, há hoje uma “importância renovada” dos temas da época, incluindo a “busca explícita por ascensão no sistema internacional” e a “dificuldade de manter uma política engajada” com Washington. Em artigo inédito, as especialistas Maria Regina Soares de Lima e Monica Hirst, que tomaram o depoimento de Silveira, apontam na política externa de Lula “um salto qualitativo dentro de uma mesma matriz de ideias e visões de mundo”. O chanceler Celso Amorim diz que a analogia é “simplificadora”, dados os contextos internos e internacionais diferentes.

Mas cita “pontos de contato”, em linha histórica que começa na “política externa independente” de Jânio Quadros (1961) e João Goulart (1961-1964). “A política do presidente Lula retoma alguns temas, de afirmação da posição internacional do Brasil, de visão ampla dos interesses nacionais, não limitados a esta ou aquela potência. Há pontos de contato, sobretudo no ânimo da política, mas os problemas mudaram.” Colaborador de Silveira por anos, o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia (1995-2001) vê no livro um “testamento político”, numa fase em que o ex-chefe do Itamaraty frustrara-se por não ter sido mantido no cargo por João Baptista Figueiredo, último presidente militar. Lampreia diz que Silveira teve “papel central para mudar o paradigma da diplomacia” no período republicano, baseado na aliança com os EUA. Mas nega que ele seja “predecessor” de uma política de esquerda. “Ele não era antiamericano. Não tinha um conteúdo ideológico.” No depoimento, Silveira se distancia da diplomacia de Jânio e Jango porque os “militares tinham horror” a ela. Para Lima e Hirst, esse distanciamento foi “instrumental” porque a política externa foi vendida às Forças Armadas como parte do projeto de “Brasil potência”. 

ATAQUES
Protegido pelo sigilo temporário, Silveira distribui ataques na entrevista. Não poupa nem “amigos”, como Paulo Nogueira Batista, negociador do acordo nuclear com a Alemanha, que chama de “ambíguo”. O tom de autoelogio reforça críticas como a do embaixador Ovídio Melo, que era o chefe da missão em Angola quando o Brasil reconheceu o governo independente pró-soviético. A medida causou reação da extrema direita militar, e Melo passou os 19 anos seguintes sem promoção no Itamaraty. “Foi Geisel, e não Silveira, que teve posição mais destemida no reconhecimento de Angola”, diz ele. Silveira revela antipatia visceral pela Argentina, que punha obstáculos à usina de Itaipu. Chega a afirmar ter sido envenenado em reunião na embaixada argentina em Washington.

Apesar de apontar a América do Sul como “plataforma de voo” do Brasil, a integração regional foi dificultada em sua gestão por essa rivalidade e as desconfianças entre os militares no poder na maioria dos países, descontada a matriz comum anticomunista. Silveira também afirma que o voto pela resolução da ONU que equiparou o sionismo ao racismo foi uma decisão de Geisel -diz que defendia a abstenção. A fórmula Silveira-Geisel teve a marca dos anos 70. Os EUA estavam às voltas com a derrota no Vietnã e a crise do petróleo e temiam a concorrência econômica do Japão e da Alemanha. A détente com os soviéticos congelava a divisão do mundo. O quadro mudou nos anos 80, sob Ronald Reagan, que relançou a corrida armamentista com a URSS, enquanto a crise da dívida reduzia o espaço de manobra dos países em desenvolvimento. O tema da independência na diplomacia ressurge quando o poder americano volta a ser relativizado.

 

Azeredo da Silveira morreu dia 27 de abril de 1990, aos 72 anos, no Rio de Janeiro, de insuficiência respiratória.

(Fonte: Veja, 2 de maio de 1990 -– ANO 23 – Nº 17 – Edição 1128 -– DATAS -– Pág; 71)

(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ MUNDO/ Por CLAUDIA ANTUNES DO RIO – 14 de novembro de 2010)

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