Antonio Fragua de Pablo, chargista do jornal espanhol El País, mais conhecido como Forges

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Forges, emblemático chargista do jornal El País

 

Antonio Fraguas Forges

Apresentação da revista ‘Quevedos de humor graph’; Na foto, um grupo de comediantes que participaram da reunião realizada em Madri entram no anúncio da nova publicação. Entre os participantes Forges, ficando em quarto à esquerda, em 25 de maio de 1997. (Foto: ULY MARTÍN)

 

Forges, o desenhista genial que contou meio século da história da Espanha

 

Forges no Festival da Risada de Bilbao em 2010. (Foto: Santos Cirilo)

 

Cartunista, colaborador do EL PAÍS desde 1995

 

 

Antonio Fraguas Forges

O cartunista Forges apresenta uma coleção de copos para o jornal “El País” com seus desenhos, em 7 de maio de 2007. (Foto: Cristóbal Manuel)

 

Antonio Fragua de Pablo (Madri, Espanha, 17 de janeiro de 1942 – Madri, 22 de fevereiro de 2018), mais conhecido como Forges, foi o cartunista que melhor retratou o último meio século da história da Espanha.

Forges nasceu em Madri em 17 de janeiro de 1942. Foi o segundo de uma família de nove irmãos. Aos 14 anos começou a trabalhar na Televisão Espanhola, onde começou a desenhar. Em 1964 publicou sua primeira charge na imprensa, no Pueblo, a convite do então chefe do jornal Jesus de la Serna, que o conhecera por intermédio de Jesús Hermida (1937-2015) – (um célebre apresentador de TV espanhol). Depois colaborou em Informaciones, em Diez Minutos, nas principais revista satíricas que nasceram com a Transição – Hermano Lobo, El Jueves e Por Favor –, no Diario 16 e no El Mundo.

Desde o começo da carreira no jornal Pueblo, em 1964, até suas últimas charges no EL PAÍS – onde publicou ininterruptamente durante os últimos 23 anos – plasmou com ternura e ironia a evolução de uma sociedade que passou do desenvolvimentismo franquista de seus primeiros desenhos ao mundo hipertecnológico de sua última fase. Criou personagens inesquecíveis como o casal formado por Concha e Mariano, Romerales e seus obstinados náufragos. Também foi um inventor de um vocabulário próprio e alguns de seus termos, como “muslamen” (algo como homem coxa) ou “bocata” (um tipo de sanduíche), saltaram dos desenhos para a linguagem popular e foram posteriormente registrados no dicionário da Real Academia.

Em 25 de junho de 1995 começou a publicar nas páginas do EL PAÍS, onde se manteve até agora. Em entrevista a Ignacio Carrión (1938-2016) sobre sua estreia no jornal, Forges se definiu como meio galego e meio catalão, nascido por acidente em Madri, e torcedor do Athletic de Bilbao. “Somos um conjunto de povos falastrões. A bacia mediterrânea se distingue por isso. Somos ruidosos, faladores, boquirrotos e linguarudos”, acrescentou. Sua primeira charge neste jornal mostrava um diálogo entre dois “blasillos”, outro de seus personagens mais populares. “E como cumprimentamos?”. “Simplesmente dizemos bom dia e pronto”. “De jeito nenhum, se dissermos isso vão nos acusar de manipuladores”. “Poxa, é verdade”.

 

 

Forges no dia de sua contratação em 20 de junho de 1995 na redação no EL PAÍS. (Foto: Raúl Cancio / Divulgação)

 

 

Os personagens forgianos e as temáticas de suas charges foram se adaptando às mudanças na sociedade espanhola. Cosma e Blasa, as mulheres do vilarejo que há algumas décadas debulhavam os mistérios do rosário, agora se queixavam de que estavam roubando seu wifi. O diminuto Mariano e a enorme Concha se transformaram em um casal mais equilibrado. Ela emagreceu e se afeiçoou aos livros, enquanto seu marido, que tirou o bigode, continuava obcecado por futebol. Durante a Transição Espanhola (período histórico no qual Espanha mudou do regime ditatorial do general Francisco Franco, para o regime constitucional), Forges arremetia contra os setores nostálgicos que queriam que tudo continuasse como antes, o que então se chamava de El Bunker. Depois abraçou outras causas sociais: a crítica à precariedade trabalhista, a oposição à guerra do Iraque, a defesa da igualdade das mulheres e sua célebre campanha para que os leitores não se esquecessem das vítimas do terremoto do Haiti.

 

Além das charges nos jornais, Forges foi autor de numerosos livros. O primeiro deles foi publicado em 1972 com o título El Libro de Forges. Elaborou uma engenhosa história da Espanha em charges, História de Aquí. Dirigiu dois filmes e várias séries de humor para a televisão. Escreveu um romance, Doce de Babilonia. E recebeu múltiplos prêmios e distinções, como a Medalha de Ouro ao Mérito no Trabalho em 2007, o Prêmio Nacional de Jornalismo, o Prêmio Latino-americano de Humor Gráfico Quevedos em 2014 e o título de doutor honoris causa nas universidades Miguel Hernández de Elche e Alcalá de Henares. Em 2014 foi lançada uma coleção de selos com suas charges.

 

Nos últimos anos Forges abraçou com entusiasmo a internet e as redes sociais. Era o colaborador do EL PAÍS com mais seguidores no Twitter, mais de meio milhão. Às vezes telefonava para a redação do jornal para corrigir erros ou fazer sugestões. Suas comunicações sempre terminavam com um caloroso “aqui um amigo”.

 

 

Antonio Fraguas Forges

Forges recebe o título de doutor honoris causa na Universidade de Alcalá de Henares, em 2016. (Foto: Carlos Rosillo )

 

 

Em uma entrevista pelo 40º aniversário do EL PAÍS, deixou clara sua fé no progresso tecnológico. “Todas as gerações acreditam ser importantíssimas para a inteligência da humanidade. Sempre tendemos a ver o mundo de nosso ponto de vista. Eu não sinto que migrei para uma nova cultura, eu sou parte dessa nova cultura. Não tenho medo da tecnologia e acredito que é uma das vantagens que temos na busca da liberdade”.

 

 

 

Forges morreu na madrugada desta quinta-feira em Madri vítima de um câncer de pâncreas. Tinha 76 anos.

(Fonte: Zero Hora – Ano 54 – Nº 19.019 – 23 de fevereiro de 2018 – TRIBUTO – Pág: 31)

(Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/22/cultura – BRASIL – CULTURA / Por Bernardo Marín – Madri – 22 FEV 2018)

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