Antonino Zichichi, físico e pesquisador científico italiano, especializado em física de partículas, área à qual deu contribuições significativas, chefiou pesquisadores da Universidade de Bolonha, onde era professor emérito, durante os primeiros experimentos sobre colisões entre matéria e antimatéria

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Antonino Zichichi, pioneiro no estudo da antimatéria

O físico foi um dos protagonista do diálogo entre ciência e fé

 

 

Antonino Zichichi foi recebido no Vaticano pelo Papa Francisco por ocasião do “Primeiro Dia da Palavra de Deus”, em 26 de janeiro de 2020. (ANSA)

Físico italiano foi figura bastante controversa na comunidade científica

 

 

Antonino Zichichi (nasceu em 15 de outubro de 1929, em Trapani, Itália – faleceu em 9 de fevereiro de 2026, em Lausanne, Suíça), físico e pesquisador científico italiano, especializado em física de partículas, área à qual deu contribuições significativas.

Natural de Trapani, no sul da Itália, Zichichi era conhecido por sua longa luta contra a astrologia e, de forma mais ampla, contra as superstições, que costumava chamar de “Hiroshima cultural”.

O estudioso também foi uma figura bastante controversa na comunidade científica em razão de suas crenças católicas, de suas duras críticas à teoria da evolução darwiniana, que considerava carente de evidências científicas suficientes, e de sua postura abertamente negacionista em relação à ligação entre a atividade humana e as mudanças climáticas. Segundo ele, os modelos matemáticos utilizados nesses estudos eram pouco confiáveis.

Zichichi liderou a equipe de pesquisa que observou, pela primeira vez, o antideuteron, uma partícula de antimatéria composta por um antipróton e um antineutron. Também chefiou pesquisadores da Universidade de Bolonha, onde era professor emérito, durante os primeiros experimentos sobre colisões entre matéria e antimatéria.

Zichichi, físico de renome internacional e figura de destaque na pesquisa italiana no campo das partículas elementares, era figura proeminente no cenário científico do final do século XX, o nome esteve ligado não apenas a importantes resultados experimentais, mas também a um constante compromisso cultural e cívico, voltado para o diálogo entre ciência, ética e fé.

Uma vida dedicada à pesquisa

Nascido em Trapani em 1929, formou-se em Física pela Universidade de Palermo e logo iniciou uma carreira que o levou aos principais centros de pesquisa do mundo. Trabalhou no CERN, em Genebra, e no Fermilab, em Chicago; em 1965, liderou a equipe que observou pela primeira vez o antideuteron, uma partícula de antimatéria nuclear, contribuindo significativamente para o desenvolvimento da física subnuclear. Professor titular da Universidade de Bolonha de 1965 a 2006, onde posteriormente foi nomeado professor emérito, é autor de mais de quinhentas publicações científicas.

Desde 1986, dirige o World Lab, uma associação que apoia projetos científicos em países em desenvolvimento, fundada pelo próprio Zichichi juntamente com o físico Isidor Isaac Rabi. Foi presidente do INFN (Instituto Nacional de Física Nuclear), da EPS (Sociedade Europeia de Física), do Comitê da OTAN para o Desarmamento (nuclear, químico, bacteriológico e convencional) e da WFS (Federação Mundial de Cientistas).

Recebeu títulos honorários e honrarias em diversos países, incluindo China, Alemanha, Polônia, Estados Unidos, Argentina, Romênia, Geórgia e Ucrânia. Promotor dos Laboratórios Nacionais de Gran Sasso, inaugurados em 1980 em Erice, na Sicília, fundou o Centro Ettore Majorana para a Cultura Científica, concebido como um fórum para discussão internacional entre cientistas e um ponto de referência para gerações de pesquisadores.

 

O debate cultural e o método científico

Paralelamente ao seu trabalho científico, realizou um intenso trabalho de divulgação, convencido da necessidade de defender o método científico de superstições e simplificações. Algumas de suas posições, expressas especialmente nas últimas décadas, suscitaram amplo debate: particularmente suas reservas em relação à teoria da evolução de Darwin e suas críticas aos modelos matemáticos utilizados para estudar as mudanças climáticas. Zichichi sempre apresentou essas questões como problemas de método e rigor científico, defendendo a liberdade de pesquisa e debate, embora estivesse ciente do crescente distanciamento do consenso predominante na comunidade científica.

O trabalho em favor da paz e do diálogo com a Igreja

Um aspecto central de seu comprometimento público foi com a paz e o desarmamento nuclear. A partir da década de 1980, promoveu em Érice, Sicília, os seminários internacionais “Ciência para a Paz”, reunindo cientistas de renome internacional para refletir sobre os riscos da guerra nuclear e as responsabilidades éticas da pesquisa. Esses encontros deram origem ao Manifesto de Erice, que também foi assinado por figuras como Paul Dirac e Piotr Kapitza. Zichichi também presidiu o Comitê da OTAN para Tecnologias de Desarmamento e representou a Comunidade Europeia no Comitê Científico do Centro Internacional de Ciência e Tecnologia em Moscou.

Membro ativo da Pontifícia Academia de Ciências desde 2000, profundamente enraizado na Igreja Católica, Zichichi via a ciência e a fé como duas dimensões não conflitantes, mas chamadas a se iluminarem mutuamente. Ele manteve relações de estima e colaboração com vários Papas, particularmente João Paulo II e Bento XVI, defendendo firmemente a necessidade de superar contradições antigas, a começar pelo caso Galileu. A memorável visita de João Paulo II ao Centro “Ettore Majorana” em Erice, em 8 de maio de 1993, foi um sinal concreto de uma possível aliança entre a pesquisa científica e a reflexão espiritual.

 

Antonino Zichichi encontra-se com Bento XVI no Vaticano, Sala Clementina, em 28 de outubro de 2010. (©Archivio Osservatore Romano)

Antonino Zichichi encontra-se com Bento XVI no Vaticano, Sala Clementina, em 28 de outubro de 2010. (©Archivio Osservatore Romano)

 

 

Zichichi defendeu publicamente Bento XVI das críticas à sua planejada visita à Universidade Sapienza de Roma em 2008, chamando-a de um ato de “cultura pré-aristotélica” e elogiando a visão do Papa sobre a razão como a pedra angular da cultura moderna. Ele elogiou o pensamento de Ratzinger sobre Galileu Galilei, vendo-o como uma união ideal entre a ciência e a fé católica.

Mesmo em anos mais recentes, sob o pontificado do Papa Francisco, sua contribuição para o diálogo entre ciência, consciência ética e responsabilidade global tem sido reconhecida como parte de um caminho coerente, marcado pela convicção de que o progresso científico deve sempre ser medido em função do bem da humanidade.

Antonino Zichichi permanece, portanto, ligado a uma visão da ciência como serviço, chamada a questionar não apenas o “como”, mas também o “porquê” de suas descobertas, dentro de um horizonte que une conhecimento, responsabilidade e abertura ao transcendente.

Antonino Zichichi faleceu na segunda-feira (9), aos 96 anos.

“Hoje, Antonino Zichichi, um gigante do nosso tempo, nos deixou. Um grande cientista que honrou a Itália com seu trabalho e um excelente divulgador científico, que soube tornar acessível o que parecia incompreensível”, escreveu a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni.

A chefe de governo destacou ainda que Zichichi “sempre defendeu que a razão e a fé não são inimigas, mas aliadas”.

(Créditos autorais reservados: https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02 – MUNDO/ por Fabio Colagrande – Cidade do Vaticano)

(Créditos autorais reservados: https://www.terra.com.br/byte/ciencia – ANSA / Ansa – Brasil/ CIÊNCIA – 9 fev 2026)

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