Bartolomé Esteban Murillo, artista e mestre da pintura espanhola, ao radicalizar as cenas religiosas

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O ouro de Sevilha

Bartolomé Esteban Murillo (Sevilha, 31 de dezembro de 1617 – Sevilha, 3 de abril de 1682), artista e mestre da pintura espanhola, que tornou-se depois de Roelas e Zurbarán, no símbolo da pintura de Sevilha, dando uma guinada radical na maneira de retratar as cenas religiosas.

Seu retrato do rei Fernando – já é um exemplo de como Murillo suavizou o contraste de cores e eliminou as expressões dramáticas. Sua representação da Virgem como Imaculada Conceição, com a Lua Crescente sob os pés, tornou-se um modelo para infinitas reproduções, até hoje encontradas em missais e catecismos.

Com Murillo, os temas sacros foram humanizados de maneira até prosaica. Assim, nas primeiras telas que lhe deram projeção, no pequeno claustro do Convento de São Francisco, já existia uma sequência famosa, hoje no Louvre, de anjos lavando pratos na cozinha.

Distante da corte espanhola, instalada em Madrid desde 1603, a Sevilha do século XVII era um centro cultural e comercial fervilhante e a porta de saída para as Américas. Negociantes nacionais e estrangeiros, religiosos e artistas aglomeravam-se no seu porto, às margens do Rio Guadalquivir, para acompanhar a partida dos que ganhavam o Atlântico.

Havia, ao mesmo tempo, no entanto -, uma outra Sevilha, circunspecta, introspectiva, mística – uma Sevilha cuja alma da própria Espanha. E é esta Sevilha, basicamente, que transparece na produção cultural da cidade. Omundo de aventuras sugerido pela conquista dos mares, ou o mundo mercantil que se descortinou com isso, não aparece na pintura da época, como os principais expoentes do chamado “Século de Ouro” sevilhano.

No espaço de algumas décadas, Sevilha vendeu quadros religiosos para os navegantes temerosos dos perigos do mar, sofreu uma epidemia em 1649 que matou 50 000 dos seus 130 000 habitantes e em 1671 comemorou, com grandes festas, a canonização do rei Fernando III (1199-1252), enterrado na cidade e lembrado pelas suas vitórias contra os mouros.

Como conjunto, a mostra sevilhana vale para lembrar que a pintura espanhola não se resume a El Greco, Velázquez e Goya mas também mostra como era a morbidez religiosa da Contra-Reforma – período histórico que ainda merece mais atenção. A tal ponto sufocante chegou esta religiosidade que o próprio rei Felipe IV (1621-1665), o maior colecionador que a Espanha já teve, na mesma época mandava seu pintor Velázquez à Itália comprar quadros. Assim conseguiu para seus palácios Venus e Adonis de Veronese, a famosa Bacanal de Ticiano, telas de Tintoreiro e o Jardim do Amor e As Três Graças do holandês Peter Paul Rubens (1577-1640), a quem convidou duas vezes para a sua corte.

(Fonte: Veja, 25 de maio de 1983 – Edição 768 – ARTE – Pág; 141/142)

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