Concreto e visionário
Waldemar Cordeiro, pioneiro da arte por computador
Waldemar Cordeiro (Roma, Itália 1925 – São Paulo SP 1973), pintor, paisagista, crítico de arte, teórico de arte, desenhista, ilustrador. Chega a São Paulo em 1946.
Faz parte do Grupo Ruptura com Geraldo de Barros, Lothar Charoux, Féjer, Leopoldo Haar, Luiz Sacilotto e Anatol Wladislaw, que em 1952 teve sua primeira exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP).
Concreto e visionário, pioneiro da arte por computador
Agressivo, agitador, autoritário, esse contestador nascido na Itália e brasileiro por adoção se fosse conhecido apenas por esses adjetivos que começam com a primeira letra do alfabeto, o artista Waldemar Cordeiro (1925-1973) seria lembrado mais por ser um personagem revolucionário, formado na escola gramsciana, do que por sua contribuição às artes brasileiras.
É preciso, portanto, ser justo e trocar os adjetivos. Antes de tudo, Cordeiro foi o pioneiro que introduziu a arte concreta no Brasil, não dependendo do desembarque do suíço Max Bill na 1ª Bienal de São Paulo (1951). Foi também o visionário que realizou as primeiras experiências artísticas com computadores no País – isso há mais de 40 anos, quando eles eram usados apenas pelos bancos e serviços de informação militares.
O processo criativo de um artista múltiplo que foi também urbanista, arquiteto e paisagista – sua principal atividade profissional.
Waldemar Cordeiro jamais participou de qualquer esquema de comercialização de sua obra – até porque não existia mercado de arte no Brasil quando ele se instalou aqui, em 1946. Mesmo depois, continuou a manter distância ideológica de galeristas, por ser um comunista radical. Ele ganhava dinheiro com paisagismo, não com obras de arte.
Os primeiros experimentos do artista com computador, estavam em estado lastimável – e não por negligência, mas pela fragilidade do material, cartões perfurados de um paleolítico IBM 360/44 da Faculdade de Física da USP, ao qual Cordeiro teve acesso graças ao físico italiano Girogio Moscari.
Dele, saiu a série Beabá, conhecida como Conteúdo Informativo de Três Consoantes e Três Vogais Tratadas por Computador.
A obra mais conhecida talvez seja A Mulher Que Não é BB (1971), que faz surgir por meio de combinações de dígitos (algoritmos) a imagem de uma menina asiática, queimada por uma bomba de napalm americana durante a Guerra do Vietnã.
Em plena ditadura militar, Cordeiro fazia uma arte política explícita, criticando o governo americano, aliado do regime brasileiro. Dois anos antes de sua morte, ele chegou mesmo a organizar na Faap, em 1971, a primeira exposição de “arteônica”, para a qual convidou artistas e críticos, tentando aglutinar realizadores interessados em alta tecnologia. Essa combinação entre matemática e informação estética, já tinha seus expoentes nos anos 1960.
O filósofo alemão Max Bense (1910-1990), cujo pensamento estético foi marcado pela matriz informacional, foi uma de suas principais influências. Outro foi o filósofo, físico e engenheiro francês Abraham Moles (1920-1992). A exposição é uma espécie de arqueologia da arte feita por computador, mas mostra também o processo que o levou a dar forma digital a retratos “pontilhistas”, como o da vietnamita.
Ele reuniu raros exemplares da arte concreta do histórico grupo Ruptura (1952), do qual Cordeiro foi fundador e principal teórico – obras de Charoux, Sacilotto, Judith Lauand e outros.
(Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso – CULTURA/ Por ANTONIO GONÇALVES FILHO – O Estado de S.Paulo – 1º de julho de 2013)
- Waldemar Cordeiro, pioneiro da arte por computador. (Foto: Divulgação)


