Disputa EUA x China ameaça 1º cabo de internet entre América do Sul e Ásia
Um cabo submarino para ligar o Chile à Ásia pode virar a primeira conexão direta de internet entre América do Sul e a China, mas o projeto já foi absorvido pela disputa geopolítica entre Washington e Pequim. Contrária à iniciativa, a Casa Branca revogou os passaportes de três funcionários públicos chilenos envolvidos e gerou uma crise política durante a transição entre as gestões presidenciais de Gabriel Boric, que deixa o cargo, e de José Kast, que assume o país.
É isso aí. Cabos no fundo do mar viraram peça estratégica na geopolítica global a ponto de os EUA reagirem ao plano chileno.
A América Latina não tem um cabo submarino direto para a China. Esse cabo da China Mobile seria o primeiro deles. O argumento dos Estados Unidos é que a implantação desse cabo Chile-China vai trazer uma insegurança para a região. Ué, se eles têm cabo submarino com a China e isso não representa mais insegurança para eles, por que representaria pra gente?
Helton Simões Gomes
O cabo pertence à China Mobile, maior operadora de telefonia do mundo, com cerca de 1 bilhão de usuários. Para a Casa Branca, a presença de empresas chinesas representam um risco à segurança da região. Além da China Mobile, que ainda nem saiu do papel, a outra chinesa com cabo em terras sul-americanas é a China Unicorn, que conecta Brasil e Camarões em parceria com a estatal camaronesa Camtel.
Por outro lado, as empresas norte-americanas são as donas da maioria dos 39 cabos submarinos saindo da região. Essa infraestrutura é crítica porque a internet depende majoritariamente dela, já que 95% do tráfego mundial passa por essa rede física no fundo do mar.
O Google possui seis cabos submarinos e a Meta, dois. A dona do Gmail e do Android trabalha em um cabo que pode ser o primeiro a conectar América do Sul e Ásia, mas a previsão é que fique pronto em 2029. Já a proprietária de Instagram, WhatsApp e Facebook anunciou um cabo que deve dar a volta ao mundo, saindo de São Paulo, passando por África do Sul, Índia, Austrália e ancorando nos Estados Unidos.
Os Estados Unidos são o segundo maior destino dos cabos sul-americanos, com 15 deles. De lá, conectam a região com o restante do mundo, como a Europa e a China. O líder é o Brasil, mas com apenas um cabo indo direto para a Europa.
“O que possivelmente os Estados Unidos não querem é que o território da América tenha autonomia que independe dos Estados Unidos. Também tem essa pressão geopolítica a partir dos cabos de internet.”
Diogo Cortiz
A pressão tende a aumentar com a política de influência dos EUA nas Américas.
“O Chile decidiu avançar com um projeto estratégico de um cabo de internet transoceânico, um cabo submarino que iria passar pelo Pacífico e conectar o Chile à Ásia. O que aconteceu é que o governo Donald Trump não gostou nada disso. Ele foi lá e tomou medidas drásticas: restringiu o visto de três funcionários de alto escalão do Chile que estavam envolvidos diretamente com o projeto.”
Diogo Cortiz
Além da disputa externa, o tema já virou crise interna no Chile. O projeto gerou uma rusga no fim da transição entre o governo do esquerdista Gabriel Boric e o do direitista José Kast, com acusação de não compartilhamento de informação por parte da gestão que se inicia.
https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2026/03/17 – Helton Simões Gomes e Diogo CortizColunistas de Tilt – 17/03/2026)
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