Borges Pereira, antropólogo paulista, foi o primeiro doutor em antropologia da USP e diretor da FFLCH em dois mandatos (1985-1989 e 1994-1998)

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Antropólogo foi o primeiro doutor em sua área na USP

João Baptista Borges Pereira estudou questão racial, imigração e religiosidade

Primeiro doutor em antropologia da USP e diretor da FFLCH em dois mandatos (1985-1989 e 1994-1998)

Borges Pereira em registro de 2018 USP

 

 

João Baptista Borges Pereira (nasceu em 23 de julho de 1929, em Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo – faleceu no dia 13 de fevereiro de 2026), professor, antropólogo paulista, docente do Departamento de Antropologia, Professor Emérito e diretor da Faculdade em duas gestões, foi o primeiro doutor em antropologia da USP e diretor da FFLCH em dois mandatos (1985-1989 e 1994-1998).

O professor graduou-se em Ciências Sociais na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), em 1958. Obteve o título de mestre em Antropologia com a dissertação “A escola secundária numa sociedade em mudança”, pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1964.

Em 1964, ingressou como docente na mesma FFCL. Tornou-se doutor em Antropologia em 1966, com a tese intitulada “Cor, profissão e mobilidade: o negro e o rádio em São Paulo”. Obteve o título de livre-docente em 1968, com a tese “Italianos no mundo rural paulista” e, em 1975, tornou-se professor titular do Departamento de Antropologia da FFLCH. Cumpriu pós-doutorado na Universidade de Coimbra (Portugal), em 1980.

Dedicou-se aos estudos de antropologia, atuando principalmente nos temas imigração, questão racial, educação e diversidade religiosa. Foi diretor da FFLCH em duas gestões, em 1985-1989 e 1994-1998. Em 2001 tornou-se o 28º professor emérito da FFLCH USP.

O antropólogo Borges Pereira costumava dizer que sua primeira incursão pelos estudos sobre a temática da população negra se deu quando participou, a convite do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, de um projeto de pesquisa que envolvia investigar as relações raciais no sul do país. A empreitada, no início da década de 1960, marcou sua trajetória acadêmica e esse foi um dos temas ao qual se dedicou, ao lado da imigração e da religiosidade.

Nascido em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), o pesquisador iniciou sua formação no curso de magistério na Escola Estadual Leônidas do Amaral Vieira, com o objetivo de futuramente estudar história. Foi nesse ambiente que uma professora o apresentou à sociologia de Antonio Candido (1918-2017), marcando o que ele próprio descreveu como sua primeira troca acadêmica. Ao ingressar no curso de ciências sociais da USP em 1955 e conhecer o antropólogo Egon Schaden (1913-1991), Borges Pereira vivenciou uma segunda troca, esta definitiva.

O pesquisador defendeu sua dissertação de mestrado na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a única instituição na capital paulista a oferecer o grau de mestre em antropologia na época. Sua pesquisa foi inspirada por sua experiência pessoal: no final da década de 1950, ele atuou como diretor de uma escola ginasial (equivalente ao ensino fundamental II) na vila Diva, zona leste de São Paulo, na qual a maioria dos alunos era ex-boias-frias.

Borges Pereira praticamente montou a escola: instalou a cantina, estruturou a Associação de Pais e Mestres, providenciou a iluminação elétrica na rua, entre outras atividades. Para compor o corpo docente, que ele carinhosamente chamou de “equipe de Sorbonne”, conseguiu trazer os sociólogos Duglas Teixeira Monteiro (1926-1978), Gabriel Bolaffi (1934-2011) e outros colegas da USP, todos jovens como ele. “Foi uma pesquisa de observação participante”, costumava dizer. Ao concluir o mestrado, em 1964, ele deixou o cargo e a escola.

Nesse mesmo ano, tornou-se docente na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, onde desenvolveu seu doutorado, voltado a relações raciais e comunicação de massa – mais especificamente à questão do negro no ambiente do rádio. A decisão pelo tema não foi fácil. Seu então orientador, o sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995), preferia que o aluno se debruçasse sobre Chavantes, comunidade cafeeira do interior de São Paulo, a fim de integrar um programa de sociologia já em andamento na faculdade sobre o papel da acumulação do capital da lavoura de café na indústria de São Paulo. A contragosto, Borges Pereira chegou a escrever o projeto, mas o rasgou diante de Florestan.

Defendida em 1966, a tese orientada por Schaden virou o livro Cor, profissão e mobilidade: O negro e o rádio de São Paulo (Livraria Pioneira Editora/Edusp), lançado no ano seguinte.  Em 2001, o título foi reeditado pela Edusp. “Esse trabalho se tornou uma referência nas ciências sociais, sobretudo porque inspirou outros livros de alunos do próprio João Baptista, voltados, por exemplo, à presença do negro na televisão”, recorda Prandi. No estudo, o antropólogo identificou o meio radiofônico paulistano como uma esfera de atividade que possibilitava a ascensão social de profissionais negros. Até então, pesquisas sobre mobilidade e integração racial concentravam-se quase exclusivamente no futebol. Borges Pereira conhecia de perto esse universo: antes da carreira acadêmica, atuara como locutor de rádio em Santa Cruz do Rio Pardo.

A vivência no sul do Brasil, durante o projeto que investigou as relações raciais coordenado por Fernando Henrique, inspirou sua tese de livre-docência (1968) sobre a migração italiana na colônia de Pedrinhas Paulista (SP), conhecida como a “Roma brasileira”. O trabalho rendeu o livro Italianos no mundo rural paulista, que saiu em 1974, também pela Edusp. No ano seguinte, tornou-se professor titular do Departamento de Antropologia da FFLCH e, em 1980, realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal, onde pesquisou sobre a emigração lusitana disseminada pelo continente.

Entre outras funções, o pesquisador foi editor e diretor da Revista de Antropologia da USP, de 1979 a 1990, e dirigiu o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP), na década de 1980. Em 1999, aposentou-se compulsoriamente, mas continuou ativo. Ainda na USP, presidiu a Comissão Permanente de Políticas Públicas para a População Negra e participou da criação do Programa de Inclusão Social, em 2006, que buscou facilitar o acesso de estudantes de escolas públicas àquela universidade.

Contratado em 2002 pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, atuou por cerca de duas décadas na instituição como professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião. A religiosidade foi outro tema de seu interesse como pesquisador. “Ele estudou como se dava a prática do protestantismo na USP e no Brasil”, lembra o sociólogo José de Souza Martins, da USP. Em 2004, Borges Pereira publicou, já como professor emérito da FFLCH, um artigo para a Revista da USP intitulado “Italianos no protestantismo brasileiro: A face esquecida pela história da imigração”. Ambos presbiterianos, Borges Pereira e Martins debatiam longamente sobre o assunto.

O antropólogo Roberto DaMatta, professor de antropologia social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, também se lembra das longas conversas telefônicas com o colega. “João Baptista era muito afetuoso, e sua obra é diversificada porque nascia de um interesse genuíno pelas pessoas e pelo mundo”, explica.

Até por volta dos 90 anos, Borges Pereira ainda tomava ônibus para lecionar no Mackenzie. O isolamento imposto pela pandemia de Covid-19 (2020-2022) lhe drenou a energia. “A partir de então, ele foi ficando quieto, deprimido”, relata a filha, Flávia Rodrigues Borges Ferreira de Sá, que é historiadora. Ela guarda na memória, entre outras cenas, os bilhetes que, na infância, passava por baixo da porta do escritório da casa onde viviam, numa tentativa de estreitar o contato com o pai, “muito dedicado, mas quase sempre imerso nos trabalhos acadêmicos”.

Borges Pereira morreu no dia 13 de fevereiro, aos 96 anos.

O antropólogo faleceu em casa, na capital paulista. Deixou a esposa, Maria Teresa, a filha Flávia (outra filha, Valéria, faleceu há 10 anos), seis netos, sete bisnetos e o oitavo a caminho.

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP divulgou nota de pesar pelo falecimento do professor João Baptista Borges Pereira, ocorrrido nesta sexta, 13 de fevereiro. Leia na íntegra:

Informamos com pesar o falecimento de João Baptista Borges Pereira, docente do Departamento de Antropologia, Professor Emérito da FFLCH, e diretor da Faculdade em duas gestões.

(Direitos autorais reservados: https://revistapesquisa.fapesp.br – Revista Pesquisa FAPESP/ TRIBUTO/ por Mônica Manir – 5 mar 2026)

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