Mikhail Bakhtin, teórico marxista, apresentou suas obras como o defensor de uma nova religião.

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Mikhail Bakhtin (Orel, 17 de novembro de 1895 – Moscou, 6 de março de 1975), teórico marxista mais propriamente russo, apresentou suas obras como o defensor de uma nova religião dos oprimidos – e o mais curioso é que ele defende mais os camponeses que os operários. Filho de nobres arruinados, cedo converteu-se ao marxismo e na década de 20 publicou vários estudos sobre linguagem e literatura, que invariavelmente eram “corrigidos” pelos editores bolcheviques.

Entendeu a linguagem como produto da interação social e da interação dos interlocutores. Para ele, a língua não pode ser considerada uma estrutura abstrata, sem realização concreta, tampouco mero reflexo da realidade material. Os conteúdos da consciência são tanto materiais como sociais.

Como Bakhtin não concordava com as “correções”, suas obras foram publicadas em nome de alunos seus, como esse “Marxismo e a Filosofia da Linguagem”, importante obra lançado em 1929 em Moscou sob a assinatura de Voloshinov.

Embriaguez russa – Com o triunfo do obscurantismo estalinista, Bakhtin ficaria reduzido ao silêncio até 1963, quando suas obras começaram a ser reeditadas na União Soviética. Seu livro de 1929, agora lançado no Brasil, guarda muita atualidade, apesar do progresso dos estudos linguísticos e semióticos no ocidente nas últimas décadas. Isso porque sua crítica às duas correntes da linguística, o “subjetivismo individualista” e o “objetivismo abstrato”, continua importante e fecunda. Bakhtin escreveu a genial primeira parte, sobre a teoria do signo, em estado de embriaguez tipicamente russa, digna de uma personalidade de Dostoiévski, tal a lucidez criativa de bêbedo ou de alguém em delírio fulgurante que revela esse trecho.

Na segunda parte Bakhtin procede a uma comedida avaliação crítica da literatura disponível em sua época sobre os problemas de linguagem. Nisso ele se filia à tradição do melhor marxismo de esgotar os dados disponíveis sobre o assunto estudado. E na terceira parte, um verdadeiro camafeu, ele analisa extensamente o problema do chamado discurso indireto livre – uma joia da gramática e da estilística de alguns idiomas, que Bakhtin toma em consideração como rigor de ourives.

(Fonte: Veja, 20 de junho de 1979 – Edição n° 563 – LITERATURA/ Por Renato Pompeu – Pág; 124)

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