Alexander Calder, escultor e artista americano, conhecido por Sandy Calder.

0
Powered by Rock Convert

Calder: dando forma ao puro movimento através da vontade criadora

Alexander Calder (Filadélfia, 22 de julho de 1898 – Nova York, 11 de novembro de 1976), escultor e artista americano, conhecido por Sandy Calder

Tudo, nas últimas semanas, em torno do escultor americano Alexander Calder, era bom humor e alegria. No Whitney Museum de Nova York, a exposição “O Universo de Calder” – uma míni-retrospectiva com 200 obras, produzidas ao longo de meio século – atraía milhares de visitantes, coerentes com o fato de que ele detinha, há longo tempo, o título de mais ilustre artista de sua pátria. Bandos de crianças percorriam os salões do museu, escapando de vez em quando ao controle das professoras, e embarafustando por baixo dos stabiles – esculturas monumentais, semelhantes, por vezes, a estranhas casinhas de brinquedo. Outras observavam os verdadeiros brinquedos (pássaros, sobretudo) feitos por Calder com latinhas de cerveja.

Quanto aos adultos, divertiam-se com uma das primeiras obras do consagrado artista, que fizera as delícias dos intelectuais de Paris nos anos 20: um conjunto de miniaturas manipuláveis de figurinhas de circo, articuladas por meio de arames, que o próprio autor movimentava. Além de contemplarem, naturalmente, as obras por cuja invenção Calder se notabilizou: o móbiles – suas esculturas soltas no espaço.

Vida frugal – A festa foi inesperadamente interrompida na tarde de quinta-feira, dia 11 de novembro de 1976, quando um ataque cardíaco matou Calder, em Nova York, aos 78 anos de idade, e em pleno vigor. Com quase 2 metros de altura, 100 quilos, cabelos prateados, habitualmente vestido de cores vivas, ele trabalhava ainda em seus dois ateliês (nos Estados Unidos e na França), com o ritmo de sempre. Apesar da consagração e da fortuna, vivia frugalmente, com a mulher, Louise, em amplos espaços por ele mesmo adaptados, com móveis de improviso e oficinas contíguas às casas – uma fazenda em Connecticut e um moinho reconstruído na região de Saché, no vale do Loire. E conservava muito humor e irreverência. “Bater com o martelo sobre qualquer coisa nova é de fato excitante. Mas às vezes meu trabalho se repete. Nessas horas, quando me falta a inspiração, sinto-me um pouco como um dentista.” Adepto de um processo intuitivo de criação, admitia quando muito um esboço, partindo em seguida para a experiência empírica: “Equilibrio o fio de ferro sobre o dedo e marco o ponto de apoio do suporte. Às vezes, trapaceio um pouco”.Mostrava-se inimigo, sobretudo, do excesso de teorias: “Não me venham com essa história de mensagem. Quem procura símbolos nos meus objetos deve estar maluco. Eu me divirto, e basta”.

Até avião – Filho e neto de escultores, Calder nasceu na Filadélfia, em 22 de julho ou 22 de agosto de 1898 (a displicência da família se esqueceu de registrar a data exata). Estudou engenharia mecânica até optar, aos 25 anos, por uma escola de arte em Nova York. Em 1926, realizava a primeira de suas incontáveis viagens à França que inventou a linguagem de sua arte. Em 1930, fez uma histórica visita ao ateliê de Piet Mondrian – o holandês pai de uma arte rigorosamente abstrata. “Compreendi de um só golpe, naquele preciso momento, o que era a abstração. Por duas semanas, me dediquei apenas a ela”. Não perdera, entretanto, seu prazer pelo jogo, pelo movimento. Sugeriu a Mondrian que movimentasse os quadrados de cor que se espalhavam pelas paredes de seu ateliê. “Para mim, eles já se movem o bastante” – foi a resposta.

Mas não para Calder, que logo se pôs a recortar formas de cor, a amarrá-las com arame, a equilibrá-las instavelmente, a suspendê-las no espaço. Coube ao eterno ídolo das vaguardas (e brilhante ideólogo) Marcel Duchamp batizá-las como móbiles. E logo depois outro artista francês, Jean Arp, batizava os stabiles, escultutas não destinadas ao movimento. Estava assim circunscrito o principal universo de criação de Alexander Calder – que nem por isso deixou de se entregar, ao longo da carreira, a diversas outras técnicas: desenho, guache, tapeçaria, até mesmo o famoso avião que pintou por fora para a Braniff – e que constitui, sem dúvida, o maior móbile de todos os tempos.

Movimento – Intensas e longas foram as teorizações suscitadas por obra tão inventiva, importante e revolucionária, no plano da linguagem. Convém não esquecer, inclusive, o momento histórico em que Calder deu seu grande salto: os começos da década de 30. Três anos antes, o físico Werner Heisenberg enunciara seu princípio de incerteza, pondo em cheque o determinismo da física newtoniana. Até no campo da ciência, pois, anunciava-se uma ideia de “abertura”, de substituição das certezas absolutas pelas probabilidades. Em outra área – a artística -, Calder se tornava o primeiro, afinal, a conquistar uma ideia análoga.

Daí o acerto de raciocínios como o do crítico francês Jean Clay – que o denominou “o pai da arte aleatória”. Ou ainda o elogio do esteta alemão Max Bense (ídolo de certos grupos de vanguarda no Brasil): “Antes de dar forma à matéria, ele deu forma ao próprio movimento. O movimento como forma pura é o que Calder descobriu como novo tema, introduzindo-o no mundo dos objetos estéticos”.

Ao vento – O melhor resumo, contudo, não coubea um especialista, e sim, num momento inspirado, a Jean-Paul Sartre. “Para cada móbile, Calder estabelece um destino geral de movimento, e depois o abandona a ele. Cabe ao momento, ao sol, ao calor, ao vento, decidir cada dança particular. Assim, o objeto permanece sempre a meio caminho entre o servilismo da estátua e a independência dos acontecimentos naturais.”

Tudo isso, é claro, pertence ao terreno dos argumentos cerebrais. Infenso a eles (e decidido a não explicar seu trabalho, nos últimos trinta anos), Calder preferiria lembrar, por exemplo, a emoção que sentiu, na juventude, como tripulante de um barco, ao largo da Guatemala: “Levantei-me de madrugada e percebi, de um lado, um esplêndido sol-nascente e, do outro, a lua, suspensa do céu como uma moeda. Recebi, desde então, uma impressão durável do sistema solar”.

Quanto ao que criou. Calder, com simplicidade, observou: “Para a maior parte das pessoas, o móbile é uma série de objetos que se movem. Para poucas outras, pode ser poesia. Quando tudo dá certo, é poesia, ao sabor da alegria da vida e das surpresas”. Poesia intensa, amável, leve, fluida – embora sempre nascida de uma firme vontade inicial, soberana e criadora.

(Fonte: http://www.veja.abril.com.br – Edição n° 428 – ARTE/ Por Olívio Tavares de Araújo – 17 de novembro, 1976 – Pág; 150/153)

Powered by Rock Convert
Share.